Em 1920, quando Edward Hopper ainda lutava para se consolidar como artista, sua exposição no então Whitney Studio Club, precursor do Whitney Museum, foi um ‘turning point’ na sua carreira.

O Whitney comprou diversas obras de Hopper no início da carreira e, décadas depois, um quadro do artista foi leiloado por US$ 92 milhões. 

O Whitney sem dúvida ajudou Hopper, mas a recíproca também é verdadeira. Ter tantas obras de Hopper ajudou o museu a se tornar o que é hoje em termos de relevância e de público. 

Na semana passada, os patronos da Pinacoteca de São Paulo se reuniram para decidir quais obras comprar para a coleção, usando R$ 1,1 milhão captados com o programa Patronos da Arte Contemporânea. Ao final, 16 obras foram adicionadas ao acervo.

A operação de todo museu é cara e complexa – conservação, logística, segurança, educativo – e os recursos escassos. No Brasil de hoje, o que difere um museu de outro é o quanto o Estado investe e, mais importante ainda, o quanto a iniciativa privada participa. 

Nos EUA, por exemplo, é notório como doações privadas foram transformadoras, e o uso de PPPs – parcerias público-privadas – é comum. Os resultados são visíveis: museus espetaculares que, além de conservar papéis e obras históricas, ainda conseguem se manter atuais com a constante aquisição de obras.

Por aqui, “ser museu” é ainda mais desafiador. Só de não pegar fogo, já é uma grande conquista…  Se ter recursos para manutenção básica é difícil, imagine disputar o melhor da produção contemporânea. 

Com o envolvimento do setor privado, a Pinacoteca de São Paulo é um dos únicos museus no Brasil a fazer justamente isso: consegue ter um programa curatorial e educativo impecável, e segue comprando obras de arte anualmente. 

O crescimento do acervo da Pina, como é simpaticamente conhecida, é impressionante. De 1980 a 2000, foram compradas mais de 2.000 novas obras, e de 2000 a 2019, foram mais de 5.000 novas obras adquiridas.

Museus também têm timing para fazer aquisições. Com a arte globalizada e instituições internacionais focando cada vez mais na arte latinoamericana (uma dívida histórica de décadas de falta de representatividade), há uma competição para conseguir os melhores trabalhos de artistas consolidados ou em ascensão. Por mais que um artista conceda descontos, a negociação para um grande museu parte do valor de mercado das obras.

A grande sacada da Pinacoteca foi criar, em 2012, o programa de Patronos, que arrecada recursos para aquisição de arte contemporânea brasileira. Os 12 patronos iniciais cresceram para 109 pessoas – convidadas pelo museu ou por outro membro do programa – que se dispõem a doar anualmente um valor pré-fixado, hoje R$ 12 mil. 

Graças ao apoio financeiro e à rede de relacionamentos que se forma por meio do programa, a Pina conseguiu comprar seu primeiro vídeo, as primeiras performances e as primeiras obras de artistas indígenas.

Além de preencher lacunas no acervo, o programa busca identificar artistas em ascensão para comprar boas obras com valores acessíveis – os futuros Hoppers da Pina.

Este ano, os jovens artistas escolhidos foram Yuli Yamagata, Marcela Cantuária, Aline Motta e Thiago Barbalho. Obras dos artistas indígenas Carmézia Emiliano e Yermollay Caripoune também foram escolhidas, assim como obras históricas de Yvens Machado e Gretta Sarfaty produzidas há 40 anos. 

Para evitar conflitos de interesse, são vetadas as participações de proprietários de galerias de arte e consultores de arte no processo. Os curadores do museu selecionam os candidatos e explicam por que deveriam estar no acervo do museu. 

Em seguida, abre-se um debate com os Patronos, que fazem perguntas e comentam suas impressões. Por fim, faz-se uma votação aberta e as obras mais votadas são adquiridas, respeitando o orçamento. É um processo transparente, criterioso, calcado em informações bem explicadas e planilhas de custos.

Vale para entidades sem fins lucrativos a mesma fórmula de sucesso do mundo de negócios: visão estratégica com gestão eficiente. O MoMA, nos EUA, e a TATE, em Londres, mantêm há anos iniciativas similares. Na Pina, foi implementada na gestão de Nilo Cecco como presidente do conselho, com a ajuda do colecionador e atual presidente da Bienal, José Olympio Pereira, um dos primeiros integrantes do Programa de Patronos e grande incentivador da ideia. 

A Pina é um museu que tem uma imagem jovem, descolada e muito conectada com a cidade e a produção artística nacional. Consegue reunir diversos movimentos da arte brasileira e ainda criar diálogos com a produção artística contemporânea. 

É também prova cabal de que um museu do Estado que tem a confiança do setor privado pode dar orgulho a ambos.

Rita Drummond escreve sobre arte no Brazil Journal.