Jorge Zalszupin nasceu na Polônia, estudou arquitetura de forma clandestina na Romênia durante a Segunda Guerra (obrigado a esconder que era judeu) e trabalhou na reconstrução de casas destruídas por bombas na França.

Em 1947, imigrou para o Brasil, “o país da nova arquitetura”, segundo lera em uma revista francesa.

Foi “resgatado” aqui por um arquiteto polonês já estabelecido em São Paulo, Lucjan Korngold, que o contratou. Quando abriu seu próprio escritório de arquitetura na Paulicéia, Zalszupin resolveu construir uma casa para convencer os clientes de suas ideias arrojadas.

Desenhar móveis que se adaptassem a sua arquitetura foi uma consequência natural, já que na época os móveis locais eram todos inspirados na art decó francesa.

Ao lado de Sergio Rodrigues, Zanine Caldas e Joaquim Tenreiro, Zalszupin foi um dos responsáveis por transformar o mobiliário brasileiro entre os anos 1940 e 60, valorizando a madeira maciça, o jacarandá, a palhinha e as formas curvas da arquitetura moderna de forma elegante e atemporal.

Em 1959, Zalszupin fundou a L’Atelier, a fábrica pioneira na produção de móveis em série no Brasil. Nos anos 60/70, não havia um prédio público que não tivesse seus móveis. Atualmente, sua criação mais televisionada é a poltrona usada pelos ministros do Supremo Tribunal Federal.

Os arquitetos mais requisitados do país, de Isay Weinfeld a Marcio Kogan, frequentemente usam suas peças icônicas em seus projetos, como o desejado carrinho de chá, a cadeira Dinamarquesa, a poltrona Cubo e a mesa Pétala, reeditadas pelo que talvez seja a loja mais elegante do País, a Etel, criada por Etel Carmona.

Agora, a mostra Orgânico Sintético: Zalszupin 100 anos celebra o centenário deste ícone, buscando apresentar uma visão ampla de quem foi Zalszupin, em todas suas facetas artísticas.

A exposição, que abriu na sexta-feira, acontece em dois lugares próximos um do outro: o Museu da Casa Brasileira, ao lado da Faria Lima, e a Casa Zalszupin, no coração do Jardim Europa.

A mostra é o brainchild de Lissa Carmona, a sócia da Etel considerada a embaixadora do mobiliário brasileiro no mundo por ser responsável pelas lojas de Milão e Houston, entre outras parcerias que internacionalizaram nosso design.

Quando Zalszupin faleceu, há dois anos, a família não sabia o que fazer com o acervo. Lissa teve a ideia de fazer uma homenagem na casa onde o designer morou e trabalhou por 60 anos.

Aquela homenagem deu origem à casa-museu, sob direção artística de Lissa em parceria com a Galeria Almeida e Dale e curadores convidados.

Uma museóloga foi contratada para abrir todo o acervo documental existente na casa, catalogando as plantas de projetos e os desenhos de móveis. O material encontrado era tão rico (muitos desenhos inéditos) que fez Lissa pensar numa parceria entre o Museu da Casa Brasileira e “a casa-museu brasileira.”

“Considero essa mostra um verdadeiro festival pela amplitude histórica da mostra,” Lissa disse ao Brazil Journal. “As exposições são concomitantes e complementares. O museu retrata o lado público, industrial, design, mostra as interferências do arquiteto na paisagem da cidade, seus prédios na Paulista, no Centro e em Higienópolis, e o que considero o lado mais pop, seu lado laranja. Já na Casa Zalszupin, mostramos o que é mais íntimo, manual e artístico – o que chamo do lado branco dele.”

O projeto foi anunciado durante o Salão do Móvel de Milão, e o público internacional poderá ver parte da exposição na Polônia, onde Jorge nasceu, em 2023.

As duas exposições são muito bem curadas, mas a possibilidade de se entrar na casa de um artista é algo extraordinário. Nada expressa o criador de forma mais verdadeira do que seu templo pessoal.

Descobrir como o artista vivia, suas escolhas para decoração e os toques pessoais em cada ambiente doméstico (da cozinha ao banheiro) despertam o lado voyeur que todos temos.

O escritório do designer está intacto: suas mesas de trabalho, desenhos, fotos pessoais e seus famosos cachimbos. Chama atenção a quantidade de pincéis, tintas e telas no canto da sala e suas pinturas, revelando uma faceta pouco conhecida.

As paredes brancas da casa são grossas e curvas, parecendo moldadas em barro, manifestando o lado artesanal, orgânico e até romântico.

A curadoria da Almeida e Dale é impecável, criando um diálogo com artistas brasileiros que também se inspiram no mundo orgânico. Destaque para as esculturas em barro da artista Lídia Lisboa, que despontou no estande da Galeria Millan na última SP-Arte. Outro ponto interessante em exposição na casa são os utensílios domésticos de plástico da série Eva, como jogos de chá, baldes de gelo e bules de café, que levaram a arte de Zalszupin para as massas.

No mundo, casas de artistas atraem centenas de turistas, como a Casa Barragán, do arquiteto mexicano ganhador do Pritzker Prize, na Cidade do Mexico; a Eames House, em Los Angeles, do famoso casal Charles and Ray Eames; e a Glass House, do modernista americano Philip Johnson, em Connecticut.

No Brasil, as casas de arquitetos abertas ao público resistem a duras penas – como a Casa de Vidro, a Casa Warchavchik (ambas em SP) e a Casa das Canoas de Oscar Niemeyer, no Rio – o que é uma pena, dada a qualidade de nossa arquitetura reconhecida no mundo inteiro e a importância de se preservar o pensamento artístico e estilístico dos expoentes de uma época.

O festival Zalszulpin fica em cartaz até 4 de setembro.