Preocupado com a deterioração do ciclo de crédito – que já está sendo sinalizada pelos bancos incumbentes – o BTG Pactual rebaixou a recomendação para o Nubank  de “neutra” para “venda” e reduziu o preço-alvo em 15%, para US$ 8,50. 

O novo preço-alvo implica um downside de 17% em relação ao fechamento de ontem, mas parte desse gap já deve se fechar. 

No pre-market, a ação cai mais de 8%, para US$ 9,30. 

“A inflação continua em alta e essa situação, combinada com um cenário fiscal mais desafiador, deve forçar a novas altas da Selic”, escreveram os analistas Eduardo Rosman, Ricardo Buchpiguel e Thiago Paura. 

Além disso, os programas de ajuda do governo à população e a disposição de renegociação de carências pelos bancos por conta da pandemia estão chegando ao fim. Enquanto isso, a dívida das famílias subiu para níveis historicamente altos e as linhas de crédito emergenciais, como o rotativo do cartões de crédito e o  cheque especial, estão retornando a níveis pré-COVID.

Nesse cenário, os bancos já estão alertando para a deterioração do crédito na temporada de divulgação de resultados, disseram os analistas. 

O Santander e o Pan estão cada vez mais cautelosos no crédito. O BV, que foca no financiamento de veículos, cartões de crédito e empréstimos corporativos, elevou suas provisões. E a Porto Seguro, que também possui uma grande carteira de cartões de crédito, viu sua inadimplência de 90 dias subir 90 pontos-base para 5,3% no quarto trimestre. 

Os analistas do BTG também citam uma reunião com o Daycoval em que um alto executivo do banco focado em PMEs disse esperar que o crédito sem garantias seja o primeiro a sofrer.  

Esse tipo de crédito representa 100% da carteira do Nubank (cartões de crédito e empréstimos pessoais). Além disso, a base de clientes do banco é mais jovem e de menor renda. “Parece muito improvável que o Nubank não sinta o calor,” diz o BTG.  

O downgrade emitido pelo BTG vem logo após um rali que fez a ação do Nubank subir 40% depois de bater na mínima de US$ 6,75, em 28 de janeiro. Com isso, o banco, avaliado no fechamento de ontem em US$ 47 bilhões, voltou a valer mais que Itaú e Bradesco, o que  parece ser contraintuitivo, na visão dos analistas.

O relatório cita declarações recentes do fundador e CEO David Vélez, que disse que vê o cenário desafiador como uma oportunidade para reduzir as taxas de juros, tornar seus produtos mais competitivos e ganhar participação de mercado. Ele também disse que o duration curto da carteira do Nubank permite uma melhor avaliação de risco.

Mas os analistas também citaram uma conversa recente com o CFO do Nubank, que disse estar esperando deterioração na qualidade dos ativos, com os NPLs talvez ainda mais altos do que os níveis pré-pandemia à medida que o auxílio emergencial se esgote.

“Se as condições se deteriorarem ainda mais, acreditamos que a administração será mais conservadora na originação de crédito, como fez corretamente no início da pandemia. Portanto, não acreditamos que o Nubank queira crescer a todo custo, como alguns interpretaram os comentários de David Vélez”, diz o BTG. 

Naturalmente, dada a curta duração da carteira do banco, dizem os analistas do BTG, se os empréstimos desacelerarem, o faturamento também desacelera, e será ainda mais difícil para justificar sua alta valorização.

Para os analistas do BTG, apesar de ter um desempenho melhor que o sistema, o Nubank está muito mais exposto a empréstimos mais arriscados do que os incumbentes. 

“Mesmo considerando que o Nubank continue performando melhor do que o mercado e supondo que os NPLs de cartão de crédito do sistema se deteriorem, parece razoável esperar deterioração no Nubank também”, diz o banco. 

O Nubank também tem um mix de crédito mais concentrado em empréstimos ao consumidor do que o dos bancos incumbentes, que têm exposição a clientes corporativos, que desalavancaram significativamente em anos recentes. 

“Assim, o Nubank também parece mais exposto a um ciclo de crédito em deterioração do que os incumbentes”, diz o relatório

O BTG diz ainda que o Nubank deve divulgar os números do quarto trimestre entre 20 e 25 de fevereiro e que resultados muito fortes, que os analistas classificam como prováveis, podem jogar contra sua recomendação de  rebaixamento do banco.