Após mais de duas décadas de negociações intermitentes, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia finalmente avançou — em grande medida ancorado no trabalho técnico e político conduzido em 2019, quando Marcos Troyjo liderou as negociações pelo lado do Ministério da Economia.

Então à frente da Secretaria Especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais, Troyjo foi o principal arquiteto da convergência que permitiu concluir o texto-base do acordo, harmonizando interesses comerciais, num dos processos mais complexos da diplomacia econômica brasileira.

Economista, cientista político e diplomata, Troyjo identifica na ascensão do que ele chama “ESG 2.0” (Economia, Segurança e Geopolítica) o fator preponderante para o acordo avançar.

Embora o texto final aprovado pelo Conselho Europeu em Bruxelas na última sexta-feira tenha sofrido alterações, o acordo alcança 85% de toda atividade econômica entre os dois blocos.

Primeiro ocidental a chefiar uma instituição multilateral sediada na Ásia, o Banco dos Brics, e único latino-americano a fazer parte do Conselho Global do Banco Europeu de Investimentos — criado para orientar a estratégia internacional da instituição em um cenário de fragmentação econômica e reconfiguração geopolítica – Troyjo tem se consolidado como uma das vozes brasileiras mais influentes no debate econômico global.

Nesta conversa com o Brazil Journal, Troyjo analisa o significado estratégico do pacto em um mundo cada vez mais fragmentado, detalha os ganhos e limitações para consumidores, indústria e agronegócio. Ele defende que o verdadeiro teste do acordo Mercosul-UE não está na política comercial, mas na capacidade do Brasil em realizar reformas para transformar acesso em competitividade, e previsibilidade em investimento.

Depois de mais de 25 anos de negociações, a União Europeia aprovou o acordo comercial com o Mercosul. Por que esse acordo ganha relevância justamente agora?

Porque ele chega num ponto de inflexão da ordem econômica e geopolítica global. O comércio internacional deixou de ser apenas um instrumento de eficiência econômica e passou a ser também um elemento de segurança, poder e posicionamento estratégico. Vivemos um mundo marcado por fragmentação, friend-shoring, disputas tecnológicas e tensões geopolíticas crescentes. Nesse contexto, um acordo que conecta Mercosul e União Europeia cria um dos maiores espaços econômicos relativamente desimpedidos do planeta, reunindo mais de 750 milhões de pessoas. Isso pode significar escala, previsibilidade, e integração produtiva em um ambiente global cada vez mais volátil.

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Você costuma dizer que esse acordo vai além do comércio. Em que sentido?

Ele não é apenas um acordo tarifário ou de quotas. É um projeto de arquitetura econômica. Ao estabelecer regras comuns e mecanismos de solução de controvérsias, o acordo cria previsibilidade — um ativo escasso no mundo atual. Essa previsibilidade é decisiva para decisões de longo prazo, especialmente para investimento produtivo. Comércio gera fluxo; investimento gera transformação estrutural. Por isso, o impacto mais relevante do acordo vai para além da mera redução de tarifas. Ele incentiva o aumento do fluxo de investimentos, na integração de cadeias de valor e na modernização do ambiente de negócios.

Você participou diretamente das negociações desde 2019. O que mudou de lá para cá para que o acordo finalmente avançasse?

A variável decisiva foi a geopolítica. Quando o acordo foi concluído tecnicamente em junho de 2019, havia uma expectativa de ratificação relativamente rápida. Isso não ocorreu. Tivemos mudanças políticas na Argentina, uma guinada mais protecionista naquele período, resistências internas na Europa e, depois, a pandemia. Mas o mundo mudou muito. A rivalidade entre Estados Unidos e China se intensificou, as cadeias globais passaram por reconfiguração profunda e, mais recentemente, o retorno de Donald Trump à presidência dos EUA, com uma agenda tarifária explícita, acelerou decisões estratégicas na Europa. O acordo saiu da gaveta porque deixou de ser apenas desejável — passou a ser necessário.

Então o chamado “tarifaço” americano teve impacto direto?

Sem dúvida. Já em 2019, negociadores europeus mencionavam explicitamente a preocupação com o unilateralismo dos EUA. A delegação europeia nos sinalizava claramente que não gostaria de ficar refém de decisões tomadas por um único país. A resposta seria aprofundar acordos robustos entre regiões. Com o retorno de Trump em 2024, essa lógica ganhou urgência. A mensagem europeia foi pragmática: “é o que temos para hoje, vamos avançar”. Apesar da resistência de países como a França, o Conselho Europeu aprovou o texto, que agora segue para o Parlamento Europeu.

Você costuma afirmar que “não existem vácuos em geopolítica”. O que teria acontecido se o acordo não avançasse?

Se o Mercosul não se integra a mercados premium por meio de acordos, alguém ocupará esse espaço — e em termos que podem não ser os mais favoráveis para nós. Outros polos econômicos avançam rapidamente, oferecendo acesso a mercados, mas com padrões distintos em propriedade intelectual, disciplina regulatória, competição e compras governamentais. O risco de não avançar com a Europa era manter o Mercosul relativamente isolado das cadeias globais de maior valor agregado. O acordo reduz esse risco e reposiciona a região em um patamar mais elevado de inserção internacional.

O texto final do acordo, no entanto, sofreu mudanças em relação ao negociado em 2019. Quais foram os principais retrocessos?

Houve, sim, retrocessos relevantes com a reabertura dos textos. O prazo de desgravação tarifária do setor automotivo, por exemplo, foi estendido para até 25 anos, o que dilui parte do ganho de eficiência esperado. O capítulo de compras governamentais perdeu ambição, o que é negativo porque esse era um dos instrumentos mais poderosos para gerar transparência, reduzir custos e aumentar concorrência. E há ainda a discussão, a meu ver equivocada, sobre a possibilidade de taxação de exportações de minerais críticos como política industrial.

Ainda assim, você avalia que o acordo traz ganhos econômicos relevantes?

Sim, traz. Apesar de não ser perfeito e de poder ter sido mais ambicioso, o acordo representa um avanço estrutural importante para a economia brasileira — especialmente para o consumidor, o exportador e para a modernização produtiva do país. Além do viés de alta no fluxo de investimento europeu direto para os países do Mercosul.

No agronegócio, o que muda de forma concreta?

No agro, apesar do baixo nível de ambição das cotas de carnes oferecidas ao Mercosul, o acordo traz uma abertura comercial significativa. A União Europeia reduzirá a zero as tarifas de importação de cerca de 80% das linhas tarifárias agrícolas exportadas pelo Brasil, em um horizonte de até 10 anos. Isso é extremamente relevante, sobretudo porque estamos falando de um dos mercados mais protegidos do mundo. Para o agro brasileiro, isso significa previsibilidade, acesso ampliado e melhores condições de planejamento de longo prazo.

E para a indústria brasileira?

Para a indústria, o desenho é equilibrado. Boa parte das exportações industriais brasileiras terá tarifas reduzidas a zero no curto prazo, ampliando a competitividade externa. Ao mesmo tempo, a redução das tarifas brasileiras ocorrerá em um cronograma longo e bastante generoso, oferecendo tempo adequado de adaptação ao novo ambiente competitivo. Isso é importante para evitar choques abruptos e permitir investimento, modernização e ganhos de produtividade.

As regras de origem costumam ser um tema técnico pouco discutido. Qual é a importância delas nesse acordo?

Elas são um dos elementos mais estratégicos do acordo. As regras de origem flexíveis negociadas em 2019 têm potencial para dar um salto de competitividade à indústria brasileira — hoje entre as mais protegidas do mundo. Elas permitem maior integração com cadeias de valor europeias, facilitando o uso de insumos de diferentes origens sem perda de preferência tarifária. Isso é fundamental para atrair investimentos, integrar o Brasil a cadeias globais e estimular a produção de bens com maior valor agregado.

A Europa é um mercado exigente em termos ambientais. Isso pode virar barreira?

Pode virar barreira ou vantagem competitiva — depende da postura. O Brasil é uma potência ambiental e agroindustrial. O Brasil é um grande exportador de sustentabilidade. Temos um grande desafio de comunicação e conscientização quanto às nossas credenciais de sustentabilidade que precisa se intensificar junto a nossos clientes europeus com a chegada do acordo. Tenho certeza que o Brasil, por exemplo, sairá por cima em temas como agronegócio sustentável, energia e transição energética — etanol, hidrogênio verde, minerais críticos e renováveis.

Há críticas de que a indústria brasileira pode sofrer com a concorrência europeia.

Concorrência pressiona, mas proteção permanente anestesia. O acordo prevê transições longas, desgravação gradual e tempo para adaptação. Mais importante: ele cria condições para que o Brasil atraia capital europeu e produza para o mundo a partir do Brasil. O ganho real não está no embate entre importação e indústria local, mas na integração produtiva, tecnológica e financeira.

Como você avalia a resistência francesa ao acordo?

Em grande parte, política doméstica. A agricultura europeia, especialmente a francesa, é altamente especializada. A competição direta com o Mercosul é limitada. Enquanto isso, setores industriais, bancos, empresas de energia e consultorias francesas estão celebrando o acordo. A resistência tem mais peso simbólico do que estrutural.

Você tem defendido o conceito de “ESG 2.0”. Como ele se aplica aqui?

Hoje, ESG significa Economia, Segurança e Geopolítica. Um acordo que amplia mercados e investimentos, reduz dependências vulneráveis em alimentos e energia e fortalece alianças baseadas em regras está praticando o novo ESG. O Mercosul–UE é um dos poucos acordos no mundo que contemplam essas três camadas simultaneamente. Ele funciona como uma blindagem contra incertezas sistêmicas.

O setor produtivo brasileiro está preparado?

Ainda de forma desigual, mas há avanços. A mobilização do setor privado é essencial. Entidades empresariais, especialmente aquelas focadas em pequenas e médias empresas, têm papel crucial na preparação para esse novo ambiente competitivo. Sem isso, o país corre o risco de observar a oportunidade passar.

O acordo pode ser um catalisador de reformas internas?

Esse é o ponto central. A maior exposição à competição internacional pressiona por modernização: reforma tributária, previsibilidade fiscal, melhoria logística, segurança regulatória, inovação. O acordo abre portas, mas não substitui reformas. O grande acordo comercial que o Brasil precisa fazer é consigo mesmo.

Quando o acordo estiver plenamente implementado, o que você espera ver no Brasil?

Se o Brasil fizer sua parte, veremos uma economia mais produtiva, integrada e menos vulnerável. Caso contrário, teremos apenas assinado um bom acordo sem colher seus frutos. Acordos não são panaceia. Eles potencializam reformas, não as substituem.

Se tivesse que resumir o acordo em uma frase, seria que ele é o maior projeto de inserção competitiva do Brasil em uma geração — e uma aposta rara em cooperação comercial e de investimentos num mundo que se fragmenta.