O Brasil se juntou a um grupo de 38 países, incluindo a China e membros da União Europeia, em um compromisso para triplicar o uso da energia nuclear até 2050.

O anúncio da iniciativa ocorreu em um evento ontem em Paris, organizado pelo Presidente Emmanuel Macron – não sem protestos. Dois membros do Greenpeace invadiram o palco em que Macron estava, com faixas dizendo que “a energia nuclear alimenta a guerra na Ucrânia”. Foram rapidamente removidos pelos seguranças.

Entre os líderes globais presentes, porém, a unanimidade sobre a indústria de geração nuclear alcançou níveis não vistos há décadas.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, apresentou uma estratégia para fomentar a tecnologia de pequenos reatores modulares, oferecendo garantia de € 200 milhões para apoiar investimentos privados no setor. E fez um mea culpa.

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“Em 1990, um terço da eletricidade da Europa vinha do nuclear. Hoje é apenas cerca de 15%. Essa redução na participação do nuclear foi uma escolha. Acredito que foi um erro estratégico a Europa virar as costas para uma fonte confiável, acessível e de baixas emissões.”

Em seu discurso, Von der Leyen ainda pediu esforços para “virar o jogo.”

O contraste ficou por conta da Alemanha. O chanceler Friedrich Merz, que criticou em diversas ocasiões a opção de sua antecessora Angela Merkel de deixar a energia nuclear, disse que “lamenta”, mas que a decisão da Alemanha é “irreversível”. 

Segundo Merz, não há como voltar atrás agora, e seu país focará em suas fontes de energia atuais, como renováveis e carvão.

Pelo lado do Brasil, o Itamaraty publicou uma nota notando as “mais de quatro décadas de operação segura de usinas nucleares” no complexo de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.

Há quatro décadas, também, o País tenta avançar com as obras da usina de Angra 3, ainda paralisadas e hoje alvo de discussão no Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), que reúne diversos ministros.

Na pasta de Minas e Energia, o Ministro Alexandre Silveira tem reiterado apoio à continuação do projeto, que ainda demandará dezenas de bilhões de reais.

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Não é a primeira vez que o Governo tenta destravar o projeto. Em um episódio que entrou para os anais do setor, o ex-ministro Edison Lobão chegou a dizer, em 2008, que o Brasil poderia construir 50 usinas nucleares em 50 anos.

Um plano para quatro novas nucleares até 2030 chegou a ser apresentado, mas acabou arquivado logo após o incidente de Fukushima, no Japão, em 2011. O Presidente Jair Bolsonaro depois tentou desengavetar a ideia, mas sem avanços concretos.

De novidade, o Brasil conta agora com uma força adicional para tentar impulsionar essas intenções: o capital privado. O Grupo J&F Investimentos adquiriu participação majoritária na Eletronuclear, numa transação com a AXIA Energia, a antiga Eletrobras. 

Por meio da Âmbar Energia, a J&F, dos irmãos Batista, agora tem 68% da Eletronuclear, embora o Governo ainda detenha o controle com cerca de 65% das ações com direito a voto – o controle estatal no setor é previsto na Constituição.

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