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Há um ano, o Rio Grande do Sul percebeu que não dava para ficar esperando que os investidores fossem até o Estado para procurar as oportunidades: era preciso ir até eles.
Foi com essa lógica que a Invest RS, a agência de atração de investimentos e promoção comercial criada pelo governo do Estado, abriu seu escritório em São Paulo, no coração da Faria Lima, para se conectar aos protagonistas do mercado financeiro do maior centro econômico da América Latina.
A ideia era mudar a forma como o Rio Grande do Sul era percebido por parte dos investidores: um “patinho feio” distante das grandes decisões de capital.
A investida deu certo – e culminou na criação de um fundo estratégico para apoiar projetos de investimento no Estado, com potencial de mobilizar até US$ 5 bilhões com investimentos locais e internacionais.
Para Rafael Prikladnicki, presidente da Invest RS, a agência cumpriu seu objetivo inicial: o estado agora é visto como um parceiro pró-negócios, capaz de estruturar oportunidades, reduzir fricções e aproximar investidores de projetos concretos.
“O primeiro legado é uma mudança de status do Rio Grande do Sul perante o setor produtivo e o mercado de capitais,” disse Prikladnicki.
Desde a chegada à Faria Lima, a agência reuniu 920 pessoas em eventos, realizou 460 reuniões individuais com investidores, empresários e gestores de capital, e avançou em 29 termos de engajamento – o instrumento que formaliza a atuação da agência junto a um projeto de investimento.
“O escritório foi criado para criar uma relação próxima, de confiança e de entendimento com os líderes de negócio e o mercado financeiro. Fomos plenamente exitosos neste processo,” disse Eduardo Lorea, vice-presidente da Invest RS e responsável pela operação da agência em São Paulo.
O escritório paulista já originou uma carteira de R$ 1,6 bilhão em projetos e tem outros R$ 2,6 bilhões em fase de prospecção.
Esses números configuram uma carteira mais ampla de R$ 30 bilhões em projetos assessorados pela Invest RS e um portfólio de R$ 68,6 bilhões em oportunidades mapeadas nos três Books de Oportunidades e Investimentos do Rio Grande do Sul: inovação, transição energética e turismo.
Criada há menos de dois anos, a agência nasceu com uma meta ambiciosa: dobrar a taxa de crescimento do PIB gaúcho até 2030 e elevar a produtividade do Estado em 20% no período.
Para chegar lá, o governo gaúcho entendeu que precisava mudar a forma de atrair investimentos.
Durante décadas, a competição entre os estados brasileiros foi feita basicamente por meio de incentivos fiscais – uma lógica que está fadada a perder força com a reforma tributária.
Essa é a grande oportunidade que a Invest RS enxerga para posicionar o Rio Grande do Sul como um dos protagonistas desse novo momento.
Em vez de vender apenas benefícios fiscais, o Estado está buscando oferecer projetos estruturados, instrumentos financeiros, segurança institucional e teses claras de investimento.
Segundo Lorea, o primeiro ano foi também um trabalho de “evangelização” do mercado.
A agência queria mostrar que o Rio Grande do Sul não era apenas um Estado com tradição industrial e força no agronegócio, mas uma plataforma de investimento em setores ligados à nova economia.
Nas conversas com investidores, diz Lorea, a surpresa vinha da combinação de fatores (muitas vezes desconhecidos pelo mercado).
O Rio Grande do Sul aparece entre os líderes de segurança no Brasil; tem um dos sistemas energéticos mais eficientes do País; é líder nacional em biodiesel; tem o segundo maior potencial eólico brasileiro; conta com uma indústria diversificada; mão de obra qualificada, 90 mil engenheiros registrados; e foi reconhecido como o primeiro colocado em inovação no Brasil.
Essa mudança de percepção também apareceu em análises do mercado.
A gestora Apex Partners incluiu o Rio Grande do Sul entre os Estados com maior potencial de crescimento, com indicadores superiores à média.
Segundo Lorea, isso provou que o estado não é apenas uma promessa, mas uma das “onças brasileiras” – como a Apex Partners denominou as regiões mais pujantes do País.
“Esse conjunto é o que faz do Rio Grande do Sul uma onça, um local super atrativo pelo seu conjunto de indicadores e vantagens,” disse Lorea.
O movimento mais emblemático dessa nova fase do estado foi apresentado durante a Brazil Week, em Nova York.
A Invest RS lançou a proposta de um fundo estratégico para apoiar projetos de investimento no Estado, com potencial de mobilizar até US$ 5 bilhões, combinando recursos públicos e capital privado.
Desde o anúncio, a agência vem avançando na estruturação do veículo, estudando referências internacionais e subnacionais e realizando uma espécie de roadshow com mercado de capitais, bancos multilaterais, bancos de fomento, bancos privados e gestores de capital.
Segundo o presidente do Invest RS, a disputa entre os estados para a atração de investimento privado tende a passar por instrumentos financeiros, garantias, coinvestimento e blended finance.
Por isso, o Rio Grande do Sul quer usar capital público combinado a fontes privadas de financiamento para reduzir riscos, destravar projetos e atrair investidores privados para setores estratégicos.
Além do fundo, a presença em São Paulo também ajudou a Invest RS a criar o projeto Embaixadores RS – uma rede de networking qualificado que já conta com 90 membros, entre empresários, executivos, fundos e lideranças capazes de promover oportunidades no estado.
Entre as apostas da Invest RS, o maior volume está em transição energética.
O Book de Oportunidades e Investimentos nessa área reúne R$ 57,6 bilhões em projetos prontos ou em curso voltados à economia de baixo carbono e à descarbonização.
O Estado já parte de uma posição relevante: 85% de sua matriz elétrica vem de fontes renováveis, com 12,6 GW de potência instalada.
Na geração solar, o Rio Grande do Sul é o quarto maior produtor do País. Na energia eólica, ocupa a quinta posição.
Mas o potencial é muito maior.
O Estado tem 50 projetos eólicos onshore mapeados, que somam R$ 96 bilhões em investimentos potenciais e 16,7 GW de capacidade. Também lidera os projetos de geração eólica offshore em análise no Ibama, com 31 propostas, potencial de 78,7 GW e estimativa de mais de US$ 130 bilhões em investimentos.
O Rio Grande do Sul também é líder nacional na produção de biodiesel, com 2 milhões de metros cúbicos, e tem mais de 4,2 GW de capacidade mapeada em operação e licenciamento em biogás, biomassa e fontes hídricas.
Outra frente é o hidrogênio verde e a amônia de baixo carbono, áreas em que o Estado vem desenvolvendo projetos em cidades como Passo Fundo e Tio Hugo, com integração entre setor público, empresas e academia.
Além da energia, a Invest RS também quer vender o Rio Grande do Sul como um polo de inovação.
O estado já abriga quatro das nove indústrias de semicondutores do Brasil e tem buscado novas parcerias internacionais para ampliar esse ecossistema.
A tese da agência é que o Estado combina capital humano, universidades, infraestrutura, empresas de tecnologia e uma base industrial capaz de atrair investimentos em semicondutores, inteligência artificial, biotecnologia, agro e energia.
No turismo, a estratégia é transformar ativos já conhecidos do Estado em uma plataforma mais robusta de investimentos.
A Invest RS vê Gramado, um dos principais destinos turísticos do País, como uma espécie de âncora da tese – mas não sozinha.
A ambição da agência é mostrar que o turismo gaúcho vai além da Serra e pode se conectar a novas oportunidades de capital privado em diferentes regiões do Estado.
Para Prikladnicki, o segundo legado da Invest RS foi transformar o potencial econômico do Estado em bases de dados, books e portfólios concretos de oportunidades.
Segundo ele, mais do que simplesmente apresentar o Estado como potencial destino de investimentos, é necessário criar um ambiente que facilite e estimule a entrada de investidores no estado.
“É aproximar empresas de fontes de capital e aproximar investidores de boas oportunidades em setores estratégicos do estado,” disse Prikladnicki.






