Numa noite no final de setembro, duas mulheres desfilavam de biquíni em cima de um conversível no Leblon quando foram atacadas por uma terceira — que, aparentemente indignada com as duas estarem se beijando, resolveu atirar uma garrafa no carro.

O episódio viralizou na internet, ganhou duas capas do jornal Extra e — obviamente — foi parar na delegacia.

Agora, a polícia está usando imagens de dez câmeras que registraram a agressão — todas pertencem à Gabriel, uma startup cujo objetivo (modesto) é tentar reduzir a violência no Rio com o uso intensivo de tecnologia.

O conceito de ‘total addressable market’ nunca foi tão amplo.

Desde que começou a operar, em abril deste ano, as 300 câmeras da Gabriel já capturaram imagens de outros quatro crimes no Leblon, entre eles um sequestro-relâmpago na Avenida General San Martin e uma série de assaltos feitos por um casal na Dias Ferreira. (Os criminosos trocaram de carro e continuam operando.)

Para ficar claro: a Gabriel não presta serviços diretamente para a polícia. Ainda que a startup possa ajudar no combate à violência nas ruas, seu foco é a segurança privada.

A Gabriel instala suas câmeras (em regime de comodato) em condomínios residenciais, que tipicamente fecham contratos de 36 meses pagando R$ 90 por câmera. Quando solicitada, ou quando identifica alguma ocorrência de forma ativa, a startup contribui com as investigações e operações das polícias civil e militar.

A tecnologia da Gabriel está atualizando as configurações do mundo arcaico das portarias do Rio — que hoje depende daqueles monitores na mesa do porteiro, que frequentemente tira um cochilo de madrugada — com a eficácia e o uso de dados da inteligência artificial.

O algoritmo de machine learning da Gabriel é capaz de reconhecer padrões suspeitos e emitir um alerta para a central. O sistema já aprendeu, por exemplo, que uma pessoa ficar parada por muito tempo num mesmo lugar pode ser um comportamento suspeito. Com o tempo, o uso de dados vai atualizando a máquina, tornando-a cada vez mais precisa.

Outra vantagem que mostra a jurassidade dos sistemas de segurança atuais:  “Nos prédios, o gravador das imagens fica ali na portaria e a maioria dos bandidos lembra de roubar aquilo também. Mas a nossa tecnologia é 100% na nuvem, então as imagens não podem ser roubadas, Erick Coser, um dos cofundadores e CEO da empresa, disse ao Brazil Journal.


Há também o efeito de rede: a tecnologia da Gabriel conecta as câmeras do seu prédio com as dos outros prédios que atendemos, tornando o processo de vigilância contínuo e aumentando nossa base de dados. Estamos criando um circuito integrado de monitoramento das ruas,” diz Erick.


A Gabriel tem uma central onde duas pessoas monitoram os vídeos das câmeras e buscam por ocorrências 24 horas por dia.

Em janeiro, a startup levantou US$ 1,75 milhão (R$ 10 mi ao câmbio de hoje) numa rodada de seed money liderada pelo Canary para começar a desenvolver seu produto. O aporte teve ainda a participação da Globo Ventures; Renato Freitas, cofundador e ex-CTO da 99; Geraldo Thomaz, fundador da VTEX, e Konrad Dantas, o Kondzilla, produtor musical e dono do sexto maior canal do Youtube do mundo, em seu primeiro investimento em startups.

No primeiro semestre de 2021, a Gabriel pretende levantar uma nova rodada para mudar de patamar. A empresa pretende expandir seu território para Copacabana, Botafogo, Lagoa e São Conrado, bem como entrar em São Paulo, muito provavelmente começando por Pinheiros.

Para que o modelo da Gabriel funcione, a startup segue a lógica dos ‘batalhões’ da Polícia Militar, diz Otávio Miranda, o outro fundador. Em outras palavras, ela pretende entrar em áreas cobertas por batalhões locais da PM, facilitando a cooperação com os agentes públicos. Hoje, por exemplo, a startup opera na região de atuação do 23° Batalhão, o do Leblon e Ipanema.

A Gabriel deve terminar o ano com 500 câmeras instaladas na zona sul do Rio — segundo a empresa, só no Leblon e em Ipanema há 2.300 condomínios.

Os contratos de 36 meses deixam um lucro líquido de 25-30% no período, segundo os fundadores, e a startup em breve vai começar a antecipar seus recebíveis, o que deve aumentar substancialmente o retorno do negócio.

“Estamos vendendo SaaS com contratos de 36 meses, e nosso churn até agora foi de 3%” diz Eduardo Cavaliere, o terceiro fundador.

Erick, Otávio e Eduardo se conheceram quando moravam na China, onde os três foram fazer graduação e mestrado. O país abriu seus olhos para a tecnologia e suas aplicações na segurança pública, ainda que lá o regime político fechado tenha criado um Big Brother com um viés de controle do cidadão — não apenas de combate ao crime.

Os outros dois fundadores são Sérgio Andrade, que foi o primeiro funcionário de tecnologia do Peixe Urbano e hoje é CTO da Gabriel, e Vinicius Almeida, que tem passagens pelo Itaú BBA e Engie. Sérgio foi apresentado ao trio por Julio Vasconcellos, o gestor do Atlântico e principal conselheiro da startup.

A Gabriel está entrando num mercado gigantesco — os gastos com segurança pública e privada chegam a mais de 2% do PIB no Brasil — e dominado por empresas como a Intelbras, cujos equipamentos, muitas vezes, são distribuídos por instaladores informais.

A empresa tem inúmeras avenidas de crescimento. Vai lançar o Gabriel Go, um controle de acesso por biometria facial que será contratado pelos condomínios para automatizar o portão de pedestres e futuramente ser instalado na porta de cada apartamento.

A ideia é se tornar o principal fornecedor de segurança aos condomínios, com soluções para controlar a portaria, o alarme e o acesso com biometria facial.