A automação acelerada já está afetando o mercado de trabalho e a atividade econômica.

05 06 Gerry Tsoukalas ok.jpg

Mas a partir de um certo ponto, a adoção da AI poderá corroer a própria base de consumidores da qual as empresas dependem, afirmam os pesquisadores Brett Falk, da University of Pennsylvania, e Gerry Tsoukalas, da Boston University, que acabam de publicar o artigo The AI Layoff Trap.

“Os CEOs enxergam o precipício e continuam a correr em direção a ele porque cada um sabe que os outros farão o mesmo,” os autores disseram ao Brazil Journal em uma entrevista por escrito. “No artigo, explicamos por que essa atitude ocorre. É como no dilema do prisioneiro.”

Para os pesquisadores, a disputa geopolítica entre americanos e chineses não deveria servir de justificativa para permitir o avanço descontrolado da AI.

“A verdadeira questão na corrida entre EUA e China não é quem automatiza mais rápido, mas sim qual economia consegue absorver a AI de forma produtiva sem prejudicar seu próprio mercado,” afirmam.

Na entrevista a seguir, eles detalham as ideias do artigo e explicam por que consideram a taxação da AI como o melhor instrumento para conter a adoção predatória da tecnologia.

05 06 Brett Hemenway Falk ok

Historicamente, a automação eliminou diversas atividades, mas criou novos negócios e ocupações. Analistas menos pessimistas com o impacto da AI consideram que isso ocorrerá novamente. Por que vocês estão céticos em relação a este argumento?

Nossa preocupação é mais específica. A automação vem remodelando o mercado de trabalho desde a Revolução Industrial. O reequilíbrio geralmente ocorre com o tempo.

Nosso argumento é condicional: se a reintegração não acompanhar o deslocamento, o mecanismo de perda de demanda começará a ocorrer.

Surgem então duas perguntas. A disparidade é grande o suficiente hoje para ser levada a sério? E se os CEOs perceberem isso, eles irão impedir que esse cenário aconteça?

Com relação ao primeiro ponto, já há alguns sinais de alerta. Mais de 100 mil trabalhadores da área de tecnologia foram demitidos em 2025, com a AI sendo apontada como o principal motivo em mais da metade dos casos.

A Salesforce substituiu 4.000 agentes que atuavam no suporte ao cliente por ferramentas de AI. A Coinbase anunciou cortes de 14% para se tornar “nativa em AI”. O PayPal anunciou uma redução gradual de 20% relacionada à IA.

Desde 2022, os trabalhadores de 22 a 25 anos em ocupações mais expostas à AI perderam 13% de seus empregos, na comparação com seus pares menos expostos à AI. O impacto mais forte tem sido em cargos de atendimento ao cliente, funções administrativas e atividades de gerência intermediária.

Alguns sinais macroeconômicos começam a apontar em uma direção semelhante. No primeiro trimestre de 2026, o investimento empresarial ultrapassou o consumo das famílias como principal contribuinte para o crescimento do PIB dos EUA. A taxa de poupança pessoal atingiu 3,6% do PIB em março, a menor desde o final de 2022, sugerindo que os consumidores estão reduzindo suas reservas.

E com relação ao segundo ponto? Os CEOs sabem que as suas empresas poderão acabar ficando sem clientes se a automação avançar rápido demais?

Os CEOs anteveem o que está por vir. Dario Amodei, da Anthropic, alertou para uma disrupção “excepcionalmente dolorosa”. Jack Dorsey, da Block, após cortar quase metade de sua força de trabalho, previu que a maioria das empresas seguirá o mesmo caminho no próximo ano.

Os CEOs enxergam o precipício e continuam a correr na direção dele porque cada um sabe que os outros farão o mesmo. No artigo, explicamos por que essa atitude ocorre. É como no dilema do prisioneiro

A visão otimista enfatiza que haverá, algum dia, o eventual reequilíbrio. Nossa preocupação reside no caminho que será percorrido até chegarmos a ele.

Vocês analisaram a corrida ‘armamentista’ da automação entre empresas, mas existe uma corrida paralela entre as potências globais, especialmente entre EUA e China. O imposto que vocês propõem não prejudicaria as empresas americanas?

Essa questão se baseia em uma premissa: mais automação significa mais competitividade. Até certo ponto, isso é válido.

Mas a partir de um certo ponto a automação começa a corroer a base de consumidores da qual as empresas dependem. Um país que automatiza em excesso pode estar na dianteira em termos de produtividade, mas pode ficar para trás no que diz respeito à disponibilidade de demanda que essa produtividade deveria atender.

Na verdade, os EUA estão mais expostos a essa dinâmica do que a China. O consumo das famílias representa aproximadamente 68% do PIB americano, contra 40% do chinês.

O motor do crescimento americano gira em torno do consumo. Demissões em massa impulsionadas por inteligência artificial corroem a base de consumidores da qual as empresas dependem para gerar receita.

O imposto pigouviano [usado para corrigir falhas de mercado, como no caso da poluição], da maneira como propusemos, protege empregos e o consumo. Ele não favorece a China e preserva o que faz a economia americana funcionar.

Um imposto pigouviano não desacelera o desenvolvimento da AI. Ele visa atacar uma margem específica: a automação que substitui trabalhadores sem compensar a perda de renda, que é precisamente onde a externalidade da demanda se manifesta.

Investimentos em AI que aumentam a produtividade dos trabalhadores ocupados ou financiam P&D não seriam afetados. A receita pode ser reinvestida em requalificação profissional e pesquisa básica, o que impulsiona a inovação em vez de freá-la.

A verdadeira questão na corrida entre EUA e China não é quem automatiza mais rápido, mas sim qual economia consegue absorver a AI de forma produtiva sem prejudicar seu próprio mercado. Um imposto sobre automação com preço adequado atende a esse objetivo.

Acreditam ser possível criar uma governança global para coordenar o desenvolvimento da AI e impor limites aos seu uso?

Sinceramente, não. A governança global sobre isso é improvável no curto prazo – e, o que consideramos crucial, nossa proposta não exige que isso seja feito.

A maioria das discussões sobre políticas de AI parte do pressuposto de que precisamos de coordenação internacional porque a tecnologia é global. Acreditamos que essa é uma perspectiva equivocada.

A armadilha é doméstica, não global. O ciclo de feedback relevante vai da decisão de automação de uma empresa americana à perda de renda de um trabalhador americano – e, por fim, à demanda do consumidor americano por produtos de empresas americanas.

A falha de mercado permanece dentro do país. A automação estrangeira entra no ciclo apenas por meio do comércio, e essa parte pode ser controlada com tarifas, que não exigem cooperação.

O mecanismo de ajustamento de carbono nas fronteiras da União Europeia, em vigor desde janeiro de 2026, é um precedente do que estamos propondo: um preço pigouviano interno mais uma tarifa de importação calibrada para evitar fugas de carbono. 

A mesma arquitetura funciona para a automação. Um imposto interno sobre a automação mais uma tarifa calibrada de acordo com a intensidade de automação das importações.

O Brasil, os EUA ou qualquer outro país podem implementar essa combinação. A coordenação internacional pode aprimorar esse processo, mas não é uma condição essencial. Tratar isso como se fosse uma questão climática, em que a ação unilateral por parte de algum país é parcialmente inútil, é uma leitura fundamentalmente equivocada da estrutura do problema.

Os impostos pigouvianos têm sido amplamente discutidos como uma ferramenta para combater as emissões de carbono, mas raramente foram implementados globalmente. Por que desta vez seria diferente?

A automação baseada em carbono e a automação por AI compartilham em parte a lógica pigouviana, mas divergem em três aspectos politicamente relevantes.

1.Geografia: o carbono atravessa fronteiras, a externalidade da demanda da automação não. Um imposto unilateral sobre o carbono nos EUA pode simplesmente transferir as emissões para o exterior. Um imposto unilateral sobre a automação nos EUA aborda um problema dos EUA com um instrumento dos EUA. As preocupações com o ‘efeito carona’(free rider) são menores.

2.Horizonte temporal: os benefícios do carbono acumulam-se ao longo de décadas, frequentemente depois de os eleitores atuais já terem falecido. A erosão da demanda resultante da automação excessiva teria impacto no PIB trimestral. O ganho político é imediato, o que significa que o imposto é defensável em tempo real, e não apenas para gerações futuras.

3.Clareza quanto aos beneficiários: os beneficiários do imposto sobre o carbono são difusos e muitos ainda não nasceram. Os da automação são imediatos e identificáveis – como os trabalhadores que mantêm seus empregos e as empresas cuja receita depende dos gastos desses trabalhadores, incluindo aquelas que automatizam seus processos, porque a armadilha seria um tiro no próprio pé.

Nada disso significa que seria de fácil implementação. Mas esses fatores alteram significativamente a lógica política.

A filosofia empresarial de “agir rápido e quebrar coisas” ajudou os EUA a se tornar uma potência econômica. Dado o atual ambiente político, seria realista imaginar uma mudança nessa abordagem?

Realisticamente, o interesse por novos impostos em Washington é baixo neste momento – e não esperamos que isso mude nos próximos doze meses.

De qualquer forma, dois pontos merecem ser destacados.

Primeiro, não somos contra a AI. Nosso artigo destaca uma característica estrutural dos mercados competitivos que o debate político atual tem negligenciado.

A maior parte da atenção se concentra em como lidar com as  consequências da automação, por meio da regulação ou de iniciativas como a requalificação dos trabalhadores e programas de transferência de renda. Mas devemos analisar também os incentivos que levam à automação.

Em nossa opinião, é um mecanismo que até mesmo o Vale do Silício deveria querer corrigir, porque seus principais clientes são os consumidores americanos e essa armadilha acaba prejudicando o negócio dessas empresas. Um mercado com preços corretos beneficia os próprios desenvolvedores de AI.

Em segundo lugar, a abordagem de agir rápido e quebrar paradigmas tem um histórico de autocorreção quando as externalidades se tornam impossíveis de ignorar.

Os EUA aprovaram em 2010 a Lei Dodd-Frank a reforma financeira mais abrangente desde a década de 1930, depois que os custos sistêmicos do risco não precificado se tornaram inegáveis. As Emendas à Lei do Ar Limpo de 1990 produziram o Programa de Chuva Ácida, um instrumento pigouviano clássico que reduziu as emissões de SO2 em cerca de 40%, assim que os custos da inação deixaram de ser discutíveis.

A questão é se a reação política ocorre antes ou depois que a armadilha começa a se fechar. Se for implementada antecipadamente, a ação pode se assemelhar a um imposto calibrado com incentivos compensatórios. Se adotada mais tarde, tende a ser uma política reativa sob estresse econômico, que raramente é bem calibrada.

O clima político torna a primeira opção mais difícil. Quanto mais esperamos, aumentam as chances de acabarmos com a segunda.