Todo ano eu lanço um texto de Natal e de fim de ano, um texto de esperança. Este ano quero fazer um texto de desesperança. Olhar as coisas por uma outra perspectiva, porque acredito cada vez mais que só a desesperança pode nos salvar. 

A esperança está nos fazendo muito mal. Ela nos leva a terceirizar soluções que o mundo precisa urgentemente. Jogamos nos braços dela, da pobre e coitada da esperança, as soluções que esses tempos tanto precisam. 

Ando muito desesperançoso e convido você a ficar igual. Acho que o mundo caminha para uma hecatombe climática. Acho que o egoísmo das Nações de só vacinar os seus e deixar as regiões pobres, como a África, sem vacina nos levará a sucessivas ondas de pandemia que vão matar milhões de pessoas com novas doenças e outras já arquivadas — e aquelas pessoas que não morrerem delas vão enlouquecer trancada em casa. 

Estou muito desesperançoso. Acho que esta nação que tanto admiro, os Estados Unidos, caminha para algum tipo de guerra civil inevitável quando a democracia que influencia toda a Terra começa a negar os próprios fatos e se digladiar com pessoas tocando fogo em suas próprias bandeiras.

Ando muito desesperançoso. Se o Brasil não tomar tenência e resolver democraticamente sua vocação de grandeza, eu acho que no futuro ele será desmembrado em vários países, um no Nordeste ou no Sudeste ou no Sul. Porque nossa Federação tem convicções bipolares, como um casal que se ama mas não consegue sonhar junto.

Acho que estamos mergulhados em um mar de blá blá blá. Se todas as empresas são ESG, quem está desmatando o mundo, emporcalhando os mares, aquecendo a atmosfera? 

Se todo mundo hoje vive uma vida de propósito, de onde vem esta desigualdade vergonhosa em que 9% da população brasileira, 9% quase 20 milhões de pessoas não têm o que comer?

De onde vem essa desigualdade vergonhosa que faz com que 50 famílias do mundo tenham mais dinheiro que o resto da população — e ainda não pagam impostos? 

Não é a esperança esparramada no sofá que vai resolver tudo isso.

O verdadeiro sentimento natalino é a indignação. Indignação não é ficar enchendo o saco alheio em pagodes. Aquele ativista da quinta dose de whisky que não melhora o mundo com suas estatísticas. A desesperança descansa no fim de semana e trabalha de segunda a sexta. Ela faz o filho do bilionário sair da casa paterna e entrar no Médicos Sem Fronteiras. Ela faz a moça bonita virar a monja Coen. 

É a indignação executiva que faz com que Nelson Mandela sobreviva naquela prisão e daquela cela pequenina sacuda o mundo. 

A desesperança não é o cancelamento. Ela não fica azedando os outros. Não é atacar as pessoas, é atacar os problemas. 

Jorge Amado, José Saramago e Fernando Pessoa não eram homens amargos, tampouco fadas sensatas do Instagram, e não eram polianescos — tinham uma vida amorosa, eram homens de afetos. 

Eu lhe peço que leia e releia para ter a compreensão correta desta minha perspectiva.

A esperança terceirizou o problema. A desesperança fica puta com o problema e busca soluções. Curta suas férias, ame os homens, cante as canções e use o vinho para tirar o melhor de você. E justamente por amar a vida, por sentir o medo humano de perdermos tudo isso, o da indignação solidária de que outros homens e mulheres assistem a nós à nossa festa do lado de fora do vidro. Aí sim, você vai voltar para o ano de 2022 e ser ESG de fato!

Ter um propósito verdadeiro, abraçar uma causa com paixão, atazanar um parlamento, sair às ruas, redigir um abaixo assinado, se filiar a um partido ou uma ONG. 

Não sou exemplo para ninguém. Aqui nessas linhas, nesse texto, linhas de pura hipocrisia. Mas não sou quem escreve esse texto impaciente e intranquilo, é a desesperança e o desassossego. 

Hoje é um outro dia de um novo tempo que não começou.

E é psicografando esse sentimento que eu desejo um desassossegado 2022 porque acredito fortemente que só com o desassossego de Fernando Pessoa, de José Saramago, de Jorge Amado que teremos qualquer chance de construirmos um Ano Novo que tanto precisamos.

 

Nizan Guanaes é o criador da N Ideias.