Manter amizades verdadeiras, e não por interesse, talvez seja a mais importante atividade para termos uma vida gratificante e bem-sucedida.

Essa foi a mensagem de Reid Hoffman, um dos fundadores do LinkedIn e do PayPal, aos formandos da Vanderbilt University.

“Fazer amigos próximos e cultivar a amizade deles provavelmente será o trabalho mais importante de vocês,” disse Hoffman na cerimônia ocorrida em 12 de maio. “Sim, networking é importante – porém, mais que isso, amigos serão absolutamente fundamentais para que vocês sejam felizes e tenham um sentimento de conexão e significado na vida.”

Hoffman, de 54 anos, trabalhou como diretor de operações do PayPal antes de fundar, ao lado de dois colegas, o LinkedIn. Lançada em 2003, a plataforma acabou sendo comprada pela Microsoft em 2016 e hoje tem 830 milhões de usuários.

Nascido em 1967 em Palo Alto, no coração do Vale do Silício, Hoffman formou-se em sistemas simbólicos e ciência cognitiva em Stanford e em seguida partiu para um mestrado em filosofia em Oxford. 

No discurso, Hoffman disse que poderia falar sobre o futuro da tecnologia e outros desafios, mas preferiu contar quatro histórias de sua vida pessoal que, na sua opinião, ajudam a compreender a importância da amizade e como ela é a base para mantermos vivos nossos sonhos e ambições.

“É lógico que os relacionamentos vão ajudar na carreira de vocês, afinal eu sou o cara do LinkedIn,” disse Hoffman. “Mas não se trata apenas disso.”

Na primeira história, ele contou sobre uma amiga dos tempos de faculdade, nos anos 1980. Um dia eles estavam conversando quando ela disparou: “Parece que você não tem a mínima compreensão de metade da humanidade.”  Era uma referência às mulheres.

“Como muitos garotos, eu cheguei à faculdade com zero conhecimento sobre as mulheres,” disse Hoffman. “Nunca ninguém havia me advertido sobre isso.”

A amiga de Hoffman então o apresentou a suas amigas, que passaram a lhe contar suas histórias, falando sobre os assédios, a vida sexual, e como era ser mulher naquele tempo.

“Eu sou um homem branco, e havia muito que eu não sabia sobre a experiência de vida de outras pessoas. E ainda há,” disse ele. “Conhecer a realidade de outras pessoas vai ajudar vocês a serem melhores amigos, melhores chefes, melhores investidores.”

Quando existe algo importante que você ignora mas precisa saber, um amigo de verdade vai alertá-lo a respeito.

A segunda história aconteceu quando Hoffman já havia deixado Stanford e estava em Oxford, estudando filosofia. Tudo parecia esotérico, distante de sua ambição de se envolver em algo que tivesse impacto sobre a vida das pessoas. 

Foi então que um amigo abriu seus olhos e o fez ver que, para seguir seu projeto de vida, ele não precisava estudar os filósofos. Havia outros caminhos. Hoffman decidiu voltar para a Califórnia e iniciou sua carreira em startups no Vale do Silício.

“Amigos podem ajudar vocês a enxergarem aquilo que vocês não conseguem ver,” disse Hoffman. “Amigos vão falar não aquilo que vocês gostariam de ouvir, mas aqui que vocês precisam ouvir.”

Terceira história: depois de muitos anos de trabalho duro e muita sorte, o PayPal, que ele ajudou a botar de pé, acabou vendido para o eBay. Exausto e com 35 anos, Hoffman decidiu então tirar um ano de férias para viajar, ver amigos, e não fazer nada além disso.

Na Austrália, sua primeira parada, encontrou um velho amigo. Conversaram sobre as possibilidades de uma rede social que ajudasse as pessoas a ter uma vida profissional mais interessante e, ao mesmo tempo, ter impacto na comunidade. Nascia ali o LinkedIn.

O amigo então disse que esse projeto não podia esperar. Hoffman poderia perder o timing. Sugeriu que cancelasse as férias e voltasse “ASAP” para o Vale.  O resto é história.

“Como um bom amigo, ele sabia da missão que eu havia me proposto e não me deixou desviar dela,” afirmou o empresário. “Ele estava correto, o timing era aquele. Outras pessoas estavam trabalhando em redes parecidas.”

Se não tivesse cancelado as férias e demorasse a desenvolver o LinkedIn, talvez Hoffman não tivesse encontrado financiadores e pessoas dispostas a apoiá-lo na empreitada.

“Existe esse mito do empreendedor como gênio solitário,” comentou. “É uma bela história, mas frequentemente não verdadeira. No time de vocês, alguns dos seus colegas são também seus amigos, pessoas com quem vocês dividem os seus sonhos, medos e esperanças.”

Da última história, Hoffman tirou a lição de que, um tanto paradoxalmente, seus amigos te ajudam quando deixam que você os ajude. 

Um amigo estava tendo um péssimo comportamento com a esposa, aparentemente forçando um divórcio. “Ele tinha que ser confrontado.”

Depois de uma conversa franca, a crise conjugal acabou superada. “Estão juntos até hoje, com filhos. São uma família feliz. Nunca me esqueci daquela sensação. É assim que os amigos mais nos ajudam: permitindo que nós os ajudemos.”

Para Hoffman, é essencial cultivar a amizade. Para isso, ele dá três dicas.

Primeira: a amizade precisa ser algo prioritário em nossas vidas. Segunda: deve ser uma prática consciente, algo que pode ser desenvolvido, com um ritual de encontros, conversas frequentes, ligações semanais. Terceira: falta de tempo não é desculpa, porque os verdadeiros amigos não podem ser ausentes. “Não importa o quão ocupado ele esteja, um amigo vai estar disponível para apoiar você.”

É por meio da amizade, conclui Hoffman, que as pessoas se ajudam a crescer, enfrentar dificuldades e se sentirem menos sós. “Viver é mais gratificante se for um jogo em equipe.”

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A íntegra do speech está aqui. A fala de Hoffman começa no minuto 38:30 e vai até o 57:55.