Cerca de US$ 90 trilhões acumulados pelos baby boomers e a Geração X vão virar herança nos próximos 20 a 30 anos – na maior transferência “pacífica” de riqueza já vista.
Segundo o UBS, um quinto dos ativos globais hoje estão nas mãos de pessoas com mais de 75 anos.
Parte desse patrimônio pertence a famílias empresárias, que ainda cometem erros básicos na hora de organizar a sucessão – sendo o mais frequente buscar “o” nome capaz de resolver todos os problemas, de preferência do jeito que o sucedido faria, diz Marcia Dolores, a fundadora da Mardô Family House Integration – que tem produzido estudos sobre o perfil das famílias empresárias no Brasil.
“É um erro colocar o foco em achar a pessoa ideal, sem considerar que existem mil possibilidades dentro de um núcleo familiar,” ela disse ao Brazil Journal. “A sucessão não é de uma cadeira apenas, é de um patrimônio, um legado.”

Formada em psicologia, Dolores foi mentora de empresários e executivos e, mais recentemente, especializou-se em sucessão e governança de famílias empresárias.
Nos últimos 30 anos, trabalhou para companhias como Votorantim, BTG Pactual, C6 e Banco Cidade, da família Safdié (vendido para o Bradesco em 2002).
Começou a carreira no Unibanco, auxiliando os gerentes no início do processo de segmentação de clientes por perfil de renda, e em 2025 fundou a Mardô.
Segundo ela, a falta de alinhamento entre as gerações tem feito com que os herdeiros que já estão recebendo alguns desses trilhões busquem “atos de liquidez” para sair de negócios em que nunca estiveram envolvidos de verdade.
“O problema de ver a riqueza como um peso é que isso pode fazer com que ela seja depreciada muito rápido na sucessão – ou seja usada de forma pouco interessante.”
Abaixo, os principais trechos da entrevista:
Você diz que o maior erro das famílias empresárias é buscar “o” sucessor. Por quê? E o que deveria ser feito em vez disso?
É um erro colocar o foco em achar a pessoa ideal, sem considerar que existem mil possibilidades dentro de um núcleo familiar.
A sucessão não é de uma cadeira apenas, é de um patrimônio, um legado, um grupo empresarial.
É preciso identificar aqueles que têm potencial de execução e querem ser executivos, mas também criar espaço para um filho ou um sobrinho com uma visão empreendedora, para um herdeiro que queira gerir o patrimônio familiar e precise ser capacitado para isso. E também para o rentista, que deve ter seu lugar no processo sucessório.
É comum que a busca pela sucessão seja feita olhando o que funcionou no passado, outro erro.
Estamos concluindo um estudo que mostra que a grande maioria dos sucedidos deixa para pensar na sucessão em cima da hora e quer resolver o assunto – o que, em muitos casos, significa olhar pelo retrovisor e achar alguém que replique o que ele ou ela faz.
Mas os possíveis sucessores têm as suas habilidades e expectativas, que frequentemente não são consideradas.
Estamos em meio a um trabalho com uma família que elegeu um filho para uma cadeira para a qual ele não tem os skills adequados. Analisando os outros três filhos, vemos que existem possibilidades melhores, mas a pessoa que está no comando diz: “Ah, mas esse filho é como eu.”
É uma frase clássica e ao mesmo tempo terrível, porque olha para o passado e dificulta muito o processo de sucessão.
Uma empresa que almeja criar um legado atemporal, de 100, 200 anos, precisa se manter viva em meio às mudanças de mercado e de mindset, e isso pede um olhar para o futuro.
As novas gerações são um ativo incrível que as famílias têm em casa para ajudar nisso. Se bem preparadas, podem ajudar na conexão com os públicos mais jovens, criar novos negócios e multiplicar legado e riqueza.
Vocês fizeram uma pesquisa com herdeiros da Geração Z que mostra que a maioria quer participar do negócio da família – mas tem outra relação com o trabalho. Dá para conciliar as visões das diferentes gerações e fazer o negócio prosperar?
Como não existem muitos dados sobre as famílias empresárias no Brasil, produzimos os nossos. Essa análise foi feita a partir de 200 projetos de vida declarados por jovens entre 19 e 25 anos e mostra que 55% quer estar no negócio – só que com mais liberdade.
Claro que há exceções, mas, de forma geral, esses jovens não acreditam no modelo “olho do dono” como o único que funciona. Não querem sentar numa cadeira e carregar o peso do mundo. Buscam mais equilíbrio.
O problema de ver a riqueza como um peso é que isso pode fazer com que ela seja depreciada muito rápido na sucessão – ou seja usada de forma pouco interessante.
Estamos concluindo outra pesquisa que mostra que, para a geração Z, o primeiro item de valor é a espiritualidade, no sentido de ter uma conexão com Deus e também fazer algo que gere alguma diferença para o mundo.
O último item é dinheiro – talvez porque eles já tenham uma segurança financeira – e no meio do caminho está a vida profissional – ou seja, quase um equilíbrio entre dinheiro e espiritualidade.
No caso dos fundadores, o principal motivador é dinheiro. Mesmo quem tem dezenas de bilhões de dólares, como foi forjado num ambiente de escassez, continua rodando para ter mais alguns bilhões. Acredita que será mais relevante se tiver mais dinheiro, e está disposto a abrir mão de muito por isso.
As novas gerações costumam pensar diferente. Para conectar os mais jovens às necessidades da família, é preciso envolvê-los desde muito cedo, ainda crianças.
Algumas famílias deixam os filhos apartados: vão estudar fora, só veem o dinheiro entrando, mas não sabem nada sobre os negócios. Quando crescem, ouvem: “Agora é a sua vez”. Mas não têm ideia do que precisarão assumir, e muitas vezes nem a preparação adequada.
São estranhos no ninho com valores que parecem muito dicotômicos. Pode ser culpa dos filhos, mas pode ser culpa dos pais.
Por estarem desconectados, muitos buscam atos de liquidez para sair de negócios em que nunca estiveram envolvidos de verdade. Isso gera uma série de conflitos.
Quais são os casos públicos de sucesso, de famílias com processos de sucessão bem estruturados?
As famílias ligadas ao grupo Votorantim e os Moreira Salles são ótimos exemplos.
No caso da Votorantim, a preparação dos herdeiros começa por volta dos cincos anos – de forma adaptada para a idade, clara, e até lúdica. Mas eles começam nesta idade a entender o que é ser um herdeiro e a importância de honrar o legado da família.
Não adianta esconder o legado ou a riqueza, é preciso ter consciência e abraçar a responsabilidade que isso carrega. As empresas geram empregos, têm impacto na economia de um país, na vida das pessoas.
Estamos fazendo um trabalho com uma família que tem uma neta de 12 anos e não queria que ela participasse das discussões sobre sucessão. Com jeito, conseguimos incluí-la e um dia ela disse para o primo, que hoje é o CEO do grupo: “Quero sentar onde você está”. Ou seja, ela já começa a imaginar o futuro, e a família também.
Outra história interessante é a de uma família cujo avô fundou uma empresa ligada ao plantio de arroz que se tornou uma potência. Teve 22 filhos e um deles era o “desgarrado”, porque decidiu ser artista. Passou anos sem ter um lugar naquela estrutura, e agora encontrou.
Ele não trabalha na empresa, mas recebe dividendos e criou um negócio paralelo ligado à arte, que está atraindo a geração seguinte, hoje com 13 a 15 anos. Ou seja, ele abriu um caminho diferente para os mais novos, o que é excelente.
É preciso saber identificar o potencial e criar condições para que ele floresça. Isso aconteceu na família Moreira Salles também.
E o papel das mulheres? Outra pesquisa mostra que a grande maioria não quer se envolver nos negócios, nem na gestão do patrimônio da família. Surpresa que isso ainda não tenha mudado.
Sim, é impressionante. Um levantamento nosso indica que 87% das mulheres que ocupam a posição de esposas ou herdeiras em famílias de altíssimo patrimônio líquido não participam ativamente de decisões estratégicas.
Existe quase que um inconsciente coletivo de que a mulher não deve se envolver, porque é uma vida difícil, pesada – como se a mulher não tivesse condições de lidar com isso.
Muitas famílias blindam as mulheres, e elas acabam se vendo como pouco capazes. Ouvimos muito das mulheres: “Será que devo participar, será que vou entender?” Digo: “Você pode perguntar qualquer coisa, porque ninguém aqui é obrigado a entender”. Mas é obrigado a tentar.
Outras mulheres, pela maneira como foram criadas – como a princesa do pai, da mãe, do avô, “tadinha, vai participar de uma reunião chata” – acham que sempre terão um guardião, alguém cuidando de tudo para elas.
Pode ser que algumas tenham a sorte de contar com pessoas que administrem bem seu patrimônio. Mas sei que muitas são desprivilegiadas, para não falar enganadas mesmo, porque não acompanharam de perto as decisões.
Novamente, não é preciso trabalhar da empresa da família, mas é importante conhecer o negócio, os números, a participação de cada integrante da família, os dividendos que são distribuídos e o que embasa essa divisão.
Estou com o caso de uma empresa do agro em que uma herdeira está com os dividendos defasados há 15 anos, e a companhia crescendo. Ela não faz ideia do porquê, não consegue nem cobrar.
Quando essas mulheres se casam, muitas delegam para os maridos. Ok eles participarem, mas existe um papel que é delas, de participar e honrar o legado.
Imagem usada para comentário editorial, sem fins comerciais.






