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Um grupo de fintechs que opera na interseção entre pagamentos, dados e crédito passa quase despercebida do setor financeiro no atual ambiente de juros elevados.

Construídas como “Instituições de Pagamento” no jargão do Banco Central, evoluindo crescentemente em torno do PIX e voltadas para servir pequenas e médias empresas, essas empresas têm parecido pouco interessantes ultimamente, com crescimento moderado, pressão regulatória e competição intensa.

Essa leitura está errada, pois reflete o período recente de juros estratosféricos.  No Brasil, essas empresas têm uma relação não linear com o ciclo monetário. Em momentos de juros extremamente altos, como agora, seu modelo de negócio parece travado.

Mas quando a política monetária mudar – com o mercado agora projetando uma queda de quase 3% na Selic durante 2026 – sua capacidade de geração de receita pode crescer de forma abrupta, levando a uma reprecificação relevante de seu valuation. 

O erro é analisar essas fintechs como simples processadoras de pagamento. Elas funcionam melhor como sistemas operacionais e financeiros para pequenas empresas.

São, de fato, empresas de serviços profissionais de base tecnológica, plataformas desenhadas para observar, organizar e interpretar fluxos de caixa. Seu valor econômico só pode ser plenamente apropriado quando o crédito volta a ser um motor viável de crescimento para sua base de clientes.

Diferentemente dos adquirentes tradicionais, dependentes de taxas por transação, dos wallets de consumo, obcecadas por escala, ou dos bancos, ancorados no spread de depósitos, essas plataformas operam nos bastidores da economia real. Seus clientes são as PMEs, diretamente ou via plataformas digitais e marketplaces.

Seu core inclui cobrança via PIX e boleto, APIs de pagamento e conciliação, gestão de recebíveis e integração de fluxos financeiros entre sistemas. O ponto central não é a taxa cobrada em cada transação, mas a visibilidade persistente e de alta resolução sobre fluxos de caixa recorrentes. Essa visibilidade é o ativo.

O PIX nunca foi desenhado para ser um centro de lucro. É gratuito ou quase gratuito no core, não permite captura de renda monopolista e é universal, interoperável e instantâneo. Sozinho, gera pouca receita direta apesar da margem e receitas crescentes com a escala.

Seu valor econômico está em transformar pagamentos em dados em tempo real, de alta frequência e totalmente rastreáveis. Para as empresas construídas crescentemente em torno dele, pagamentos viram informação econômica estruturada, que pode ser usada para avaliar risco, financiar recebíveis, embutir crédito e oferecer serviços financeiros e não financeiros adicionais.

Num País onde os juros têm permanecido elevados, a demanda por crédito das pequenas empresas foi fortemente reprimida. Nessas condições, nem o melhor conjunto de dados pode ser monetizado em escala.

O resultado é que essas plataformas acabam operando como quase utilities. Prestam serviços essenciais, mas crescem de forma linear, com pouco upside aparente. Para o investidor, parecem negócios úteis, mas pouco empolgantes. Mas essa percepção reflete a política monetária nos anos recentes, não o modelo de negócio.

Quando os juros começam a cair, a dinâmica muda de forma rápida e com impacto desproporcional. Pequenas reduções na taxa básica podem melhorar dramaticamente a viabilidade do capital de giro para PMEs. Ao mesmo tempo em que o risco de crédito cai, a volatilidade do caixa diminui, a taxa de default recua, e o retorno esperado destes clientes sobe.

O ponto principal é que essas plataformas não precisam se reinventar para aproveitar a mudança no ciclo de juros. Os dados, os fluxos transacionais e a infraestrutura já existem. O que muda é o ambiente econômico que permite, finalmente, ativar esse fluxo de informação.

O resultado é uma curva de receita que se inclina para cima de forma convexa. Ao cruzar certos limiares de juros, o crescimento acelera.

Isso gera um efeito duplo. As receitas ligadas a crédito e serviços financeiros podem crescer mais rápido que a economia como um todo, enquanto os múltiplos se expandem à medida que a opcionalidade futura se torna visível.

Empresas antes vistas como simples “IPs” passam a ser encaradas como plataformas financeiras importantes para pequenas empresas. O seu valor sobe não apenas porque a receita cresce. O modelo de negócio é reinterpretado e o valor da empresa cresce mais rápido do que a receita corrente.

A lição estratégica para essas fintechs é contraintuitiva. Diante de um ambiente monetário hostil, a resposta ótima não é expansão agressiva, mas paciência: preservar relacionamentos, manter densidade transacional e preparar produtos de crédito e novos serviços financeiros para o momento da virada do ciclo.

As empresas construídas sobre pagamentos e, em especial no contexto brasileiro, sobre os fluxos de caixa das PMEs, não são empresas tradicionais de pagamentos mas, potencialmente, de outros serviços, inclusive financeiros. Elas se beneficiarão de forma desproporcional do afrouxamento da política monetária e na retomada do crédito para pequenas empresas no Brasil.

Winston Fritsch foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda durante o Plano Real e é membro do conselho da IUGU, uma instituição de pagamento.