Em uma defesa enfática da soberania europeia, Emmanuel Macron criticou a irracionalidade do Governo Trump em seu discurso de hoje no Fórum Econômico Mundial de Davos.

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Horas depois de Trump vazar uma mensagem privada em que Macron dizia “não entender” as ameaças de Trump na Groenlândia, o presidente francês afirmou que a Europa entende a necessidade de entregar mais crescimento, mas que “prefere o respeito em vez dos valentões (bullies), a ciência em vez do negacionismo, e o Estado de Direito em vez da brutalidade”.

Usando óculos escuros espelhados por conta de uma irritação no olho, Macron começou sua fala com ironia, dizendo-se feliz de estar ali em um momento de “paz, estabilidade e previsibilidade”, no que descreveu como uma transição mundial de regimes democráticos para autocráticos.

Nessa linha, deu a primeira cutucada em Trump: disse que a França decidiu enviar tropas à Groenlândia em apoio à Dinamarca, indicando que a soberania europeia não é apenas teórica, mas prática e solidária entre aliados.

Macron disse ainda que os acordos comerciais propostos pelos EUA buscam “subordinar a Europa” e que o uso de tarifas como alavanca contra a soberania territorial é “fundamentalmente inaceitável”.

Ao mesmo tempo, o francês criticou a inação de seus colegas europeus perante a piora do cenário geopolítico, dizendo que isso condena a Europa à marginalização.

Em sua visão, o Velho Continente está espremido entre a tentativa de subordinação dos EUA e o excesso de capacidade produtiva da China, e precisa trabalhar em três pilares: proteção comercial e atração de investimento chinês; desburocratização de setores como AI e automotivo; e investimento em inovação, defesa e mercados de capitais, para manter a poupança dos europeus investida dentro da própria Europa.

Abaixo, um trecho do discurso de 20 minutos de Macron sobre a Europa e os EUA:

[Na Europa], temos um lugar onde o Estado de Direito e a previsibilidade ainda são a regra do jogo. E o meu palpite é que isso é amplamente subvalorizado pelo mercado. Para além do que é possível fazer em termos de ambição e investimento, a Europa — que às vezes é lenta demais? Com certeza! E que precisa ser reformada? Com certeza! — é previsível, leal e um lugar onde você sabe que a regra do jogo é apenas o Estado de Direito. Um bom lugar para o hoje e para o amanhã. 

Portanto, estamos comprometidos em 2026 a entregar esta agenda global, a fim de corrigir os desequilíbrios globais através de mais cooperação. E faremos o nosso melhor para ter uma Europa mais forte, muito mais forte e mais autônoma, baseada nos pilares que acabei de mencionar e também em mais investimento e compromissos com defesa e segurança, porque temos que investir muito mais.

Acreditamos que precisamos de mais crescimento, precisamos de mais estabilidade neste mundo, mas preferimos o respeito em vez dos valentões (bullies), a ciência em vez do negacionismo, e o Estado de Direito em vez da brutalidade. Vocês são bem-vindos à Europa e são mais do que bem-vindos à França.