Além da disputa das escolas de samba pela nota 10 na Marquês de Sapucaí, outra competição agita o Carnaval carioca: qual camarote vai fazer mais barulho durante a festa.

Os 18 camarotes tentam se diferenciar pelos mimos que oferecem e pelas celebridades e personalidades que conseguem atrair: um “famoso” certo – e no timing certo – pode representar dezenas de matérias em colunas sociais e sites de fofoca, elevando o status do camarote como um espaço desejado. 

Há algum tempo não basta mais um open bar caprichado ou um cardápio assinado por um chef estrelado.

Isso virou commodity.

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Os camarotes da Sapucaí agora fazem lounges ultra-VIP que chegam a ser equipados com máquinas de estética que custam milhões de reais e organizam shows de artistas nacionais e internacionais. Para custear isso, ingressos que podem chegar a R$ 20 mil por noite. 

Trata-se de um motor relevante para o Carnaval carioca, que estima movimentar cerca de R$ 6 bilhões em 2026. 

“A exclusividade vende. Nosso camarote se tornou um grande evento dentro de um evento ainda maior,” o CEO e fundador do Nosso Camarote, Santiago Vieira, disse ao Brazil Journal.

O Nosso Camarote nasceu em 2017 quando Vieira e alguns amigos – incluindo Gabriel David, o atual presidente da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro – decidiram empreender na área. 

Entre os primeiros investidores estavam o ex-jogador Ronaldo Nazário e Carol Sampaio, uma das maiores promoters da noite carioca. Resultado: o espaço lotou de celebridades – e o negócio escalou.

Hoje, o Nosso é o maior camarote da Sapucaí e deve receber cerca de 20 mil pessoas ao longo de todos os dias de festa, atraindo patrocinadores do porte de Bradesco, Ambev, Reserva e Pernod Ricard.  

Ronaldo, Gabriel e Carol saíram da sociedade, mas Vieira segue com a barriga no balcão – e recentemente atraiu João Silva, filho do apresentador Fausto Silva, para o quadro de acionistas.

O Nosso – que Vieira define como “uma empresa de hospitalidade” – deve faturar R$ 150 milhões este ano, com o Carnaval representando cerca de 30% do total. O Nosso também organiza um camarote no GP de Fórmula 1 de São Paulo – e deve estrear em Miami neste ano.

Entre os artistas convidados para fazer shows no Nosso durante o Carnaval deste ano estão Anitta e o rapper americano Ne-Yo.

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“Não somos apenas o ‘Nosso’ no Carnaval. Criamos um produto que é relevante no ano inteiro e queremos levar o que aprendemos na Sapucaí para outros lugares, como a Fórmula 1,” disse Vieira. 

A estratégia de Vieira é a mesma do camarote N1, um dos mais antigos da Sapucaí. 

Criado há 35 anos e operado pela Holding Clube, o N1 organizou sua própria festa de réveillon em Barra de São Miguel, em Alagoas, e também fez um camarote no Tomorrowland em São Paulo, o maior evento de música eletrônica do mundo. 

Mas o Carnaval continua sendo o principal ativo – movimentando R$ 50 milhões dos R$ 60 milhões de receita que a Holding Clube espera ter esse ano. 

Tocado por Tatianna Oliva, que também comanda a agência Cross Networking, 30% do faturamento do N1 no Carnaval vem dos patrocínios.

Entre as marcas que bancam o N1 estão Havaianas, Colcci, Brahma, Domino’s, BYD e Cacau Show.

Segundo Tatianna, o diferencial do N1 está menos na grandiosidade do espaço e mais na tradição. “O N1 tem um público que gosta de estar com a turma dele lá e tem orgulho de estar,” disse.

Ela sustenta esse argumento com o licenciamento dos produtos. Nos últimos anos, o espaço passou a vender – e licenciar – produtos próprios, monetizando o nome fora da Sapucaí. 

Um exemplo é uma collab com a Tuc Sunglasses em um óculos vendido o ano inteiro e que gera royalties recorrentes, bem como uma parceria com a Stanley para copos personalizados e uma bolsa “modelo Número 1” com a Nannacay – que custa R$ 1,4 mil. Agora, Tatianna prepara um perfume exclusivo em parceria com a EAUX Parfums, pensada para virar parte da identidade sensorial do espaço.

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“Eu tenho que fazer um trabalho de ir além da Marquês de Sapucaí: o Carnaval vai continuar sendo um grande asset, mas não sei se ele vai continuar sendo a força motriz do negócio,” disse Tatianna.

Um ex-sócio do N1, Alvaro Garnero, hoje é dono do Alma, um dos espaços mais novos da Sapucaí. 

O camarote está indo para seu segundo Carnaval – o primeiro, em 2025, foi somente para convidados. Para fechar a conta, Garnero teve o patrocínio do Banco Master e também da companhia aérea Air Europa, mas ambos não estão mais entre os apoiadores (o primeiro por razões óbvias).

Garnero disse que a estratégia do Alma foi primeiro construir marca, depois abrir venda. A ideia, segundo ele, foi criar desejo e posicionamento premium antes de escalar. 

Em 2026, o Alma abriu comercialização já com um tíquete alto – começando entre R$ 10 mil e R$ 12 mil no Sábado das Campeãs – e afirmou ter batido recorde de vendas logo no início da abertura. 

A ideia do Alma não é competir por volume, mas por exclusividade – e especialmente pelos gringos. “Temos vários PRs gringos para atrair esse público,” disse Garnero. 

Ele diz que cerca de 37% do público do Alma é estrangeiro, e que a ambição é fazer um movimento ainda mais global no futuro, aproveitando sua experiência com a marca Café de La Musique – que já teve operação em Mônaco durante a Fórmula 1.

Para atrair os estrangeiros, Garnero aposta numa combinação de escolas de samba e música eletrônica internacional dentro do Alma. 

“A estrela são as escolas de samba, mas também estamos trazendo os caras mais hypados da música eletrônica e do brazilian soul,” disse Garnero, que este ano convidou para tocar nomes como Black Coffee, Maxa, Gilsons e Marcelo D2. 

Além disso, o Alma terá um spa no seu camarote voltado para seus clientes mais exclusivos. O espaço terá cadeiras equipadas com máquinas da Fotona, uma tecnologia de laser usada por dermatologistas de alto padrão e que pode custar até R$ 2 milhões por equipamento. 

Segundo ele, os aparelhos são voltados para tratamentos de flacidez, estímulo de colágeno, protocolos corporais como abdômen e glúteos, além de alívio de dores musculares e procedimentos faciais

“Se eu fosse montar um spa desse fora dali, custaria mais de R$ 5 milhões,” disse.

Afinal, por que não aproveitar o Carnaval para cuidar dos glúteos?