A Vale e sua controlada de cobre e níquel, Vale Base Metals, realizaram ontem um encontro com investidores no Canadá durante o qual ignoraram totalmente as recentes especulações do mercado sobre uma potencial oferta inicial de ações da VBM.
A possibilidade de um IPO sequer foi mencionada pelos executivos das empresas em suas falas no Investor Day. Pelo contrário: os discursos buscaram reforçar a capacidade de autofinanciamento dos planos de expansão.
Na reta final do evento, o CFO da Vale, Marcelo Bacci, ainda disse que a mineradora e seus sócios minoritários na VBM, os sauditas da Manara Minerals, poderiam colocar dinheiro na companhia se necessário.
A VBM tem a meta de dobrar a produção de cobre, sua grande prioridade, passando das atuais 382 mil toneladas por ano para 700 mil toneladas em 2035.
“A companhia (VBM) tem hoje uma alavancagem muito baixa, portanto tem capacidade de se alavancar. Mas, fundamentalmente, se eles trouxerem oportunidades para crescer mais rápido, e além das 700 mil toneladas, tenho certeza de que a Vale e a Manara ficariam felizes em financiar,” disse Bacci. “Não é o cenário-base.”
A Vale Base Metals encerrou 2025 com um índice de alavancagem de 0,4x. Para perseguir suas metas, ela projeta um capex de US$ 1,6 bilhão neste ano, acelerando para US$ 2 bilhões a partir de 2027.
A VBM foi separada da Vale por meio de uma cisão concluída em 2024. A transação incluiu ainda a venda de uma fatia de 10% à Manara, joint venture do Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita com a Saudi Arabian Mining Company (Ma´aden).
Os planos da VBM agora focam em crescimento orgânico, com seus projetos no Pará e no Canadá, além de uma joint venture já anunciada com a Glencore.
A empresa também acelerou a exploração greenfield no Chile e no Peru, que representa um potencial upside para a produção atualmente prevista.
Durante o encontro com investidores, a companhia não citou perspectivas de fusões e aquisições.
No evento, a Vale projetou que a contribuição da unidade de metais básicos poderá representar de 30% a 35% de seu EBITDA no longo prazo, na comparação com 22% em 2025 e 26% projetados para este ano.
Em relatório recente, o analista do Bradesco BBI, Rafael Barcellos, estimou que a VBM pode responder por 38% do EBITDA e 34% da geração de caixa da Vale em 2031, considerados os atuais preços do níquel e cobre.
Com essas premissas, o Bradesco BBI tem preço-alvo de R$102 para a ação da Vale, mantendo recomendação de “compra”.
A expansão da representatividade da VBM dentro dos resultados será uma oportunidade de re-rating para a ação da Vale, disse o CFO, apontando que a empresa é “um pilar fundamental da estratégia.”
As especulações sobre um potencial IPO da unidade de metais básicos da Vale começaram ainda em 2021, mas foram engavetadas após a cisão da empresa. Neste ano, voltaram à tona em meio ao otimismo com o cobre e o níquel, e com uma rotação de investidores globais em direção a hard assets.
Para um gestor, a listagem poderia evidenciar o valor hoje “oculto” da VBM dentro da Vale, levando o mercado a precificar melhor a companhia, elevando seus múltiplos.
O níquel e o cobre, vistos como metais importantes para a transição energética, têm visto sua demanda impulsionada também pelos investimentos em data centers e pelos gastos militares.
A ação da Vale negocia hoje a 5x EV/EBITDA, mesmo múltiplo da Fortescue, que produz apenas minério de ferro. As peers Rio Tinto e BHP, que também têm operações relevantes de cobre, negociam a 6,5x e 6,9x, respectivamente.
Nas empresas puramente de cobre, os valuations chegam a uma média de 11x.
Mas, para uma analista, o valor potencial das operações de cobre e níquel é um argumento justamente para a Vale não fazer um IPO da VBM, mantendo 100% de sua participação na empresa.
“Será que um IPO é o melhor caminho? Se fizessem, até aproveitariam um boom, mas a Vale reduziria sua participação. Eu preferiria ver ela crescendo esse business, para diversificar além do minério de ferro.”
Essa analista, inclusive, avalia que a Vale deveria acelerar a expansão da VBM por meio de fusões e aquisições, participando da consolidação do setor.
“O que está acontecendo na mineração é que quem tiver o potencial de crescimento nesses minerais críticos é quem vai vencer o jogo.”
Na apresentação de resultados da Vale, em fevereiro, o CEO Gustavo Pimenta disse que “o foco agora é continuar entregando resultados” na VBM e que “eventuais transações no mercado de capitais serão avaliadas no momento adequado.”
Para a equipe da Genial Investimentos, o Investor Day da VBM “torna crível o argumento de ra-rating para o negócio de metais básicos” – mas não agora.
“Com o IPO fora da mesa, a execução é o único caminho para a cristalização de valor, e isso leva tempo”, escreveram os analistas. Para eles, é “uma jornada de uma década, ao invés de um catalisador de curto prazo.”











