O empresário Fabio Carvalho, que nos últimos anos se especializou em recuperar empresas em dificuldades, assumirá o controle do Grupo Abril, numa transação que marca uma troca de guarda cada vez mais comum na mídia tradicional — das famílias que a construíram para os outsiders que almejam salvá-la.


O contrato de venda da Abril — em recuperação judicial desde 15 de agosto — foi assinado hoje em São Paulo.  Os irmãos Giancarlo e Victor Civita, netos do fundador da empresa, receberão um valor simbólico de R$ 100 mil por um dos grupos de mídia mais influentes do País, passando adiante R$ 1,6 bilhão em dívidas com bancos, fornecedores e funcionários. 

A transação coloca Carvalho — um advogado carioca que estreou na vida empresarial há apenas 10 anos — no comando de títulos como VEJA e Exame, marcas anteriormente imbatíveis e que hoje sofrem com a pulverização do conteúdo e a migração da receita publicitária do papel para o digital.

Carvalho será o CEO do grupo e de todas as unidades operacionais até que outros profissionais sejam designados.  O CFO da Abril será Lucas Martinelli, sócio de Carvalho na sua Legion Holdings, o veículo a partir do qual Carvalho controla e reestrutura empresas como a Leader Magazine, uma rede varejista no Rio de Janeiro, e a Liq, a empresa de call center anteriormente conhecida como Contax.

Nos últimos cinco anos, a receita publicitária da Abril caiu mais de 50%, enquanto a receita com assinaturas ficou estável em termos nominais, com uma enorme substituição da assinatura impressa pela digital.  A venda em bancas caiu pela metade no mesmo período.

Mesmo depois de vender e fechar diversas marcas, a Abril ainda tem 15 títulos — entre revistas e sites — incluindo alguns que continuam sendo os líderes em suas categorias, como Claudia, Quatro Rodas e Superinteressante.

Apesar da manifestação de interesse de diversos grupos, os Civita resistiram a vender a empresa para políticos, igrejas e prepostos.  No contrato final, os herdeiros de Roberto Civita ainda impuseram uma lista de princípios editoriais que o novo controlador será obrigado a seguir. O contrato também veda a Carvalho revender a revista VEJA.

Na reta final, Carvalho estava competindo com um grupo formado por João Consiglio — um ex-banqueiro do Santander próximo a Fabio Barbosa, ex-CEO da Abril — e pela BRZ Investimentos, que estava montando um fundo de investimentos de impacto para o qual pretendia atrair famílias bilionárias.

Antes de ser efetivada, a troca de controle da Abril precisa ser aprovada pelo CADE e pelos três bancos credores da companhia: Bradesco, Itaú e Santander. (Os bancos detêm as marcas VEJA e Exame como garantia a seus créditos, assim como o prédio da Abril na Marginal Tietê.)

O novo controlador da Abril tem 41 anos, é casado há 13 e pai de gêmeos.  Começou sua carreira no Castro Barros Sobral, um escritório de direito societário, e fez mestrado em economia do direito em Cambridge.  Em seguida, foi trabalhar na Alvarez & Marsal — a consultoria especializada em turnarounds corporativos — de onde saiu ao comprar a Casa & Video, uma rede de lojas no Rio de Janeiro.

Carvalho costuma ler dois livros ao mesmo tempo (sempre um de ficção e um de negócios) e pratica ioga diariamente.

Nos últimos quatro meses, enquanto negociava a compra da Abril, Carvalho descobriu um câncer de intestino.  Passou por uma cirurgia, quimio e radioterapia, enquanto continuava as rodadas com os advogados dos Civita.  Os amigos dizem que o tratamento foi considerado um sucesso e ele se diz “novo em folha.”  

Carvalho tem laços históricos com o BTG, que está dando crédito para a transação. A Enforce, empresa do BTG que compra créditos de difícil recuperação, está negociando a compra dos créditos bancários da Abril. Se chegar a um acordo, passará a ser a maior credora da Abril no lugar dos bancos.

Apesar da dívida total da Abril ser de R$ 1,6 bilhão, este não será o valor devido por Carvalho. Em seu plano de recuperação judicial, a Abril propôs aos bancos credores —  detentores de R$1,1 bilhão do total — um desconto de 92% sobre o principal e o pagamento do saldo em 18 anos.

 
Se o plano for aprovado, Carvalho terá em mãos uma empresa que deve cerca de R$ 250 milhões — e geração de caixa negativa.

Segundo pessoas próximas a ele, o novo controlador não pretende ter uma postura ativa na parte editorial, e já começou a pensar em nomes para a posição de ‘publisher’. Na lista: profissionais com história ou experiência no jornalismo. Ele também terá que escolher nomes de peso para o Conselho Editorial, já que o atual é formado por membros da família Civita.

Metade da receita do Grupo Abril vem de seu negócio de mídia, a Editora Abril; a outra metade, de seus negócios de logística, a DINAP (que entrega revistas nas bancas) e a Total Express, que faz entrega encomendas.

Do faturamento da unidade de mídia, 40% vem da publicidade, 40% de assinaturas, e os outros 20% de serviços gráficos e de eventos como o Casa Cor.

Ao assumir a Abril, Carvalho terá que lidar com um drama humano.  Em agosto, a editora dispensou 804 jornalistas sem pagar verbas rescisórias nem a multa de FGTS. Há ainda 200 colaboradores freelancers na fila para receber. As dívidas trabalhistas somam R$ 100 milhões, e a Abril propôs quitá-las integralmente — até o teto de R$ 238,5 mil (250 salários mínimos) por funcionário – em 12 parcelas a partir da aprovação do plano de recuperação judicial.

Numa ironia para a empresa que quebrou em grande parte por não ter conseguido fazer sua transformação digital, seus ex-jornalistas seguem fazendo jornalismo… nas redes sociais. No perfil “Abril com Fome” – com 1.500 seguidores no Facebook, 900 no Instagram e um canal no YouTube chamado “Vítimas da Abril” — eles escrevem sobre a própria mobilização e o desenrolar das negociações.

Bruno Favoretto, 36 anos, dos quais um terço dedicado à Abril, era fã das publicações da editora na infância e escolheu o jornalismo sonhando em trabalhar na Placar. 

“Quando demitiram, falaram que iam pagar em dez vezes – o que já era ilegal – e iam dar um salário a mais. Era mentira. Pouco depois, ficamos sabendo pela imprensa que eles entraram em recuperação judicial e não iam pagar nem fazer homologação pra gente poder pagar seguro desemprego”, diz o jornalista que, por algum erro interno, não teve o nome incluído na lista dos credores. “Estou num limbo.” Paraplégico há quase 20 anos por uma bala perdida disparada pela Polícia Militar, convive com uma série de complicações e teme pela falta do plano de saúde. 

Este é o seu segundo calote – até hoje o estado de São Paulo não o indenizou pelo tiro que o atingiu.