“Precisamos democratizar o elitismo,” defendia o jornalista Sérgio Augusto, ele mesmo um elitista democrático e, não por acaso, leitor e admirador do maior símbolo dessa corrente: a revista The New Yorker.

A publicação, uma das mais longevas e respeitadas do mundo, completou um século de atividade no ano passado e foi brindada com o documentário The New Yorker – 100 Anos de História, em exibição na Netflix. O filme não só mostra as entranhas da revista como comprova que apostar no refinamento, no bom gosto, no requinte – na inteligência do leitor – pode ser um bom negócio.

Produzido e dirigido por Marshall Curry (diretor do surpreendente A Night at the Garden, o curta documental sobre o comício nazista de 1939 no Madison Square Garden), The New Yorker – 100 Anos de História explora a história da revista mostrando em perspectiva o que pode ser destacado no passado, no presente e até no futuro.

Para entender a influência e a permanência de uma publicação que depois de um século – em mais de 5 mil edições – ainda mantém sua relevância e sua qualidade, é preciso conhecer seus bastidores.

Nessa usina de notícias e textos atemporais, a operação diária vem acompanhada de um excesso de zelo. A New Yorker é uma revista única por ser quase artesanal e, até chegar ao leitor, sua feitura passa por um processo “que se assemelha ao de uma colonoscopia”, compara o jornalista David Remnick, desde 1998 no comando da revista.

A New Yorker nasceu em fevereiro de 1925, numa Nova York marcada, entre outras coisas, pelo jazz, a Lei Seca e o surgimento da Máfia. Seu primeiro editor, Harold Ross, frequentador da famosa mesa do Hotel Algonquin, acreditava que o antídoto para qualquer crise era o humor, e que a saída era criar uma revista.

O símbolo daquilo a que Ross pretendia dar vida era Eustace Tilley, a caricatura de um pernóstico dândi de cartola que examina uma borboleta através de seu monóculo. Destaque na edição número 1, Tilley desde então figura em diversas versões de todas as edições comemorativas (a exceção foi a de 2017) e encarna, ainda hoje, da forma mais límpida, o retrato que Ross gostaria de imprimir na alma da revista. Uma publicação para “os sofisticados de Manhattan”, e não para “as senhorinhas de Dubuque” (uma cidade em Iowa), como definiu o próprio Ross.

O lado divertido e mundano mudaria depois da Segunda Guerra. Ross foi procurado por John Hersey, que pretendia fazer uma reportagem no Japão sobre o efeito da bomba atômica. Sua ideia – análises quase sempre baseadas em estatísticas sobre os impactos da explosão e a morte de centenas de milhares de inocentes – passava longe do que havia sido feito até então.

Hersey queria (e conseguiu) dar um rosto à dor. Selecionando personagens entre os sobreviventes – um padre, uma operária, um médico – o repórter não apenas aproximou as vítimas do leitor como também modificou a história da reportagem mundial, dando uma estrutura quase ficcional a um relato completamente verdadeiro.

Percebendo a grandeza do material, William Shawn, o editor que sucedeu a Ross e que por mais tempo comandou a revista, tomou a decisão inédita de dedicar toda a edição às 20 mil palavras escritas por Hersey. Era a reportagem Hiroshima.

O impacto foi devastador e imediato. Albert Einstein, por exemplo, encomendou mil exemplares para distribuir entre amigos e colegas.

A partir de então, The New Yorker adotaria uma nova postura. Pouco mais de uma década depois, outra grande reportagem, Primavera Silenciosa, de Rachel Carson, traria para o debate a importância dos temas ecológicos e da preservação da natureza.

A ela se seguiriam outros textos que entraram para a história, como o relato de James Baldwin, A Letter from the Region of My Mind. Publicado em 1962, no auge do movimento dos direitos civis, o ensaio deu uma nova dimensão à discussão sobre o tema (a ironia estava no fato de o texto ter sido publicado ao lado de um anúncio de uma marca de uísque em que um garçom negro servia a bebida numa bandeja a dois clientes brancos).

Maior repercussão ainda teria a incursão de Truman Capote – que, pouco mais de uma década antes, havia entrado como office-boy na revista – na reportagem policial, com seu relato sobre o assassinato de uma família em Kansas. No texto, Capote se permitiu excessiva liberdade e exagerou no uso de elementos ficcionais. O resultado literário foi excelente, mas jornalisticamente se mostrou frágil. Anos depois, Shawn se declarou arrependido por ter confiado tanto em Capote, determinando a partir de então uma atuação mais rigorosa por parte dos checadores. Hoje a revista tem mais de 30 profissionais somente nessa área.

Quase num estilo de Gay Talese – que curiosamente nunca esteve associado à revista – o documentário escrutina a redação, revela personagens (o veterano arquivista que trabalhou com quatro dos cinco editores, o crítico de cinema que parece um ermitão, o correspondente estrangeiro Jon Lee Anderson e o repórter Ronan Farrow, filho de outros dois símbolos de Nova York, Mia Farrow e Woody Allen), e alguns segredos e situações do cotidiano.  

Assim, o público toma conhecimento de reuniões de pauta onde são debatidos assuntos periféricos como o reexame do manual de redação e se a palavra “teenager” deveria ou não ter um hífen.

Há momentos mais elevados, como o processo de escolha dos cartuns (em que uma editora recebe aproximadamente 1.500 por mês, enxuga a lista deixando em uns 60 e levando à mesa de Remnick para que ele defina os entre 10 e 20 que serão utilizados), a definição da ilustração da capa e ainda como um texto é revisado linha por linha por uma equipe em busca da palavra que melhor se encaixe.

O que o documentário tem de fraco é o tom reverente, às vezes submisso. Curry trata Remnick com excessivo respeito, às vezes de forma quase temerosa.

Rara exceção se dá quando a equipe do documentarista acompanha a apuração da eleição de 2024, que consagraria Donald Trump diante de Kamala Harris. Simpática à candidata democrata, a redação não apenas acreditou na vitória de Kamala até quando foi possível (havia uma capa pronta em caso de vitória) como foi tomada por uma espessa melancolia com o anúncio do triunfo do republicano.

À exceção deste momento mais quente, todas as outras etapas do documentário confirmam como a revista e seus jornalistas vivem em uma espécie de bolha, infensa a pressões políticas ou econômicas. Talvez por isso, em nenhum momento a questão da sobrevivência da publicação é abordada. Não são esclarecidos dados como tiragem, número de assinantes, acessos pela internet.

Também não é ouvido o outro lado. Não há um depoimento crítico, sequer o registro de algum jornalista que tenha saído insatisfeito do emprego ou algum autor revoltado por ter tido um texto recusado.

Assim, em nenhum momento Remnick ou sua equipe são confrontados com situações desconfortáveis. Não há perguntas capciosas, tampouco questionamentos sobre as inevitáveis disputas e picuinhas internas, tão comuns em redações de qualquer parte do mundo. Enfim, o documentarista não age como a The New Yorker agiria em uma reportagem sobre a The New Yorker.

Isso dá margem para que se conclua que Remnick está à frente de uma redação tomada por um certo pedantismo, uma equipe arrogante que ocupa o Olimpo da imprensa mundial com a certeza de que desempenha a melhor função do mundo e sente uma atração por olhar para o próprio umbigo – ou, na melhor das hipóteses, de olhar o mundo pela perspectiva do próprio umbigo.

Ou, como define o próprio Remnick em dois momentos: “É incrível que este seja nosso trabalho,” ele diz no início do documentário. Mais adiante, conclui: “Se isso soa presunçoso, eu não me importo”.