Com 30 anos de carreira, Marcelo Mesquita é mais conhecido como um experiente analista de mercado e co-fundador da Leblon Equities, uma gestora de ações que administra quase R$ 4 bilhões no Rio de Janeiro.

Mas ontem à noite, ele foi também a voz da razão.

Falando como conselheiro independente da Petrobras, as entrevistas dadas por Mesquita na noite de segunda-feira passarão à história como um dos discursos mais coerentes, didáticos e apaixonados sobre a relação do Brasil com suas estatais. 

Na GloboNews e na CNN Brasil, Mesquita disse que o País só terá sossego depois de privatizar “tudo que é estatal,” atacou o medo de se tocar nas “vacas sagradas” (Petrobras, Banco do Brasil e Eletrobras) e, na frase mais provocativa da noite, disse que o Presidente da República agora vai ter que mostrar “se é comunista ou capitalista.” 

Os comentários — repletos de exclamações e ênfase — são a ira sagrada de um analista que começou sua vida profissional analisando as privatizações das siderúrgicas e da Vale, e agora, no conselho da Petrobras há quase cinco anos, acompanhou de perto o trabalho de recuperação da terra arrasada empreendido pelos três últimos CEOs da empresa: Pedro Parente, Ivan Monteiro e Roberto Castello Branco. Um trabalho que poderá ser perdido se o Governo Bolsonaro mudar os rumos da empresa, que perdeu R$ 100 bilhões em dois dias com a troca de comando.

Nas horas seguintes, colegas de mercado deram parabéns a Mesquita pela coragem de dizer publicamente o que todo mundo pensa. (Um deles criou um sticker no Whatsapp, colocando sob a foto de Mesquita a legenda: “Bolsonaro é militar comunista”.) 

Mesquita já é vacinado em controvérsias.

Em 2003, no primeiro ano do PT no Planalto, Mesquita participava de um seminário sobre mercado de capitais quando disse, com a mesma honestidade de ontem, que “para acabar com a corrupção nos fundos de pensão, precisa privatizar as estatais.” Quando acabou de falar e desceu do pódio, Mesquita foi abordado pelo presidente de um dos maiores fundos de pensão do País.  

Dedo em riste, avançou sobre Mesquita: “Isso não vai ficar assim!” Dias depois, o UBS, onde Mesquita trabalhava, recebeu cartas de dois destes fundos de pensão. Diziam que não fariam mais negócio com o banco se Mesquita ainda estivesse lá.

No final, o analista conseguiu manter o emprego, mas foi demovido do cargo que ocupava.

Quase 20 anos depois, a coisa ficou assim: aquele presidente de fundo de pensão está preso, condenado por corrupção, e Mesquita continua dizendo exatamente as mesmas coisas, para um País que insiste em não ouvi-lo.

Abaixo, os melhores momentos da entrevista à GloboNews.

SÓ TEM UM JEITO

A reunião de amanhã do conselho não vai discutir muito isso nesse momento [o nome indicado pelo Governo] porque a governança da empresa exige que os órgãos de governança analisem o currículo da pessoa indicada para ver se ela se adapta a toda a legislação que existe hoje justamente para proteger a empresa de absurdos totais. 

Agora, para evitar absurdos, só a privatização! A discussão toda que existe hoje sobre como resolver esse problema que está acontecendo… é só privatizar tudo que existe no Brasil. Enquanto houver uma estatal no Brasil,a gente vai ter o Presidente da República com o poder de colocar quem ele quiser na presidência da estatal, com qualquer governança que for desenhada, por qualquer sistema.

Então, a gente tem que discutir a privatização para modernizar o Brasil. Esse é o primeiro ponto. Chegou a hora da verdade, da gente entender se o presidente Bolsonaro é comunista, como o PT que ele combateu, ou se ele é capitalista. E esse é o primeiro grande teste que está acontecendo.

Se fosse o PT, a gente já sabia que estaria nessa crise há dois anos atrás. Levou dois anos pra gente começar a descobrir agora como é o Bolsonaro. Eu acho que como ele tinha pouco conhecimento do mercado — e o Paulo Guedes realmente está estranho estar tão calado, ele devia estar se pronunciando — mas um exemplo de boa gestão do Paulo Guedes é a independência do Banco Central, que no fundo é uma privatização da moeda, que foi feita agora nesse projeto, que passou por vários governos de esquerda anteriores e nunca passou.

Então, está errado dizer que não está sendo feito nada. Mas existe um problema hoje sim, que tem que ser discutido no âmago, no cerne, que são as estatais. Os Estados Unidos não tem estatal de petróleo, é rico, não falta petróleo e não tem greve de caminhoneiro. 

País que tem greve de caminhoneiro é país que tem estatal de petróleo!

E essa coisa de ‘o petróleo é nosso’, quem falou disso foi o Getúlio Vargas, que é um fascista ditador, que ficou 15 anos. Então, vamos ver se agora vamos falar de petróleo é nosso, que é uma coisa comunista e fascista, ou se vamos falar de um país que vai caminhar para privatizações, liberalismo e desenvolvimento, geração de riqueza para o povo.

O RISCO JUDICIAL

A gente tem uma lição que foi o que aconteceu nos últimos anos.  Quando houve a intervenção da senhora Dilma, o País teve que pagar US$ 3 bilhões a investidores que foram prejudicados pela intervenção. E é por isso que se criou toda uma governança na empresa para protegê-la desse tipo de coisa. Nos últimos quatro anos ela esteve bem defendida e andou na linha. Agora, ter andando na linha não quer dizer que ela vai continuar andando na linha. Temos que continuar vigilantes… o conselho tem que estar vigilante, os investidores, a imprensa, os eleitores. 

Não são só os caminhoneiros que votam no Brasil. Todas as pessoas votam. Por que querem só a gasolina barata? Porque a escola não tem que ser barata? Por que o hospital não tem que ser barato? A batata? O arroz, o feijão… tudo tem que ser barato! Por que só a gasolina é diferente do resto? 

Temos que arrumar o debate nesse País.

QUALIFICAÇÕES DO INDICADO

Uma pessoa que foi Ministro da Defesa e comandante das Forças Armadas do País deve ser uma pessoa preparada, e eu não sou preconceituoso de achar que um advogado não pode ser presidente de uma empresa, ou um psicólogo, um jornalista. 

Acho que toda profissão tem gente boa e ruim, honesta e desonesta. É um preconceito achar que porque é militar é ruim.

Agora, tendo dito isso, independente da profissão que o sujeito teve para sentar nessa cadeira, ele tem que respeitar a lei, e ele tem que seguir o que o colegiado define, a estratégia da empresa. E a estratégia da empresa é ser uma empresa, não uma autarquia. 

O que o governo quer fazer — para dar qualquer coisa para alguém — ele faz diretamente com o Orçamento federal, com uma autarquia, não faz com uma empresa. E isso é um caso encerrado na história do Brasil. Se a gente voltar cada vez aos mesmos erros do passado, não vamos evoluir como sociedade, e os pobres não vão sair da pobreza. A gente vai continuar a chafurdar, e a origem é ser estatal. 

Porque não tem nenhuma surpresa de um dia o Presidente da República… Você sabe qual foi a média de duração dos presidentes da Petrobras desde Getúlio Vargas até hoje? De 1,7 ano de vida. Por quê? Porque quem senta na cadeira da Petrobras, que é a maior empresa do hemisfério sul, que é quase 15% do PIB brasileiro de forma indireta, tem um poder enorme! São quase 100 mil cargos em todo Brasil. Tem uma pressão política de governadores, de prefeitos, de fornecedores, de clientes, enorme. É muito poder numa pessoa só, e isso não faz sentido! Tem que se descentralizar o poder para se desenvolver.

É por isso que hoje tem o COPOM.  Por isso que hoje tem independência do Banco Central, que é pra tirar o poder das pessoas que querem mandar.

A Petrobras não pode ficar na mão dos políticos!  Isso o Senador Tasso Jereissati mandou bem na carta [que enviou ao conselho].  Nessa Lei das Estatais, nós tentamos tirar as estatais das mãos dos políticos porque a gente viu que esse é um mecanismo de toda corrupção que existe no País.  Agora, ninguém discute privatização! 

Dizem: ‘Petrobras, Banco do Brasil e Eletrobras são vacas sagradas — o resto pode vender.’ 

Ora, não conseguem nem vender o resto!  Tem que começar é pelas vacas sagradas, aí depois vem o resto.

RENUNCIAR OU FICAR?

Quando começa o tiro numa batalha, o mais fácil é sair. Sö que alguém vai ter que morrer na batalha, alguém tem que ir pra batalha… hoje, temos um conselho de alto nível, de pessoas qualificadas. Inclusive os colocados pelo Bolsonaro. Ele colocou, por exemplo, o professor Nivio Ziviani, que é um cientista que escreveu o livro onde o Google se inspirou para ser criado. Uma pessoa extraordinária que está lá doando sua vida, seu currículo para a empresa, para fazer a transformação digital do negócio… além de outros também muito qualificados.

O que é mais fácil para a vida pessoal de todos que estão ali? É pedir demissão, fazer um protesto, bater o pé como se fosse uma criança. Mas não é isso o que a gente quer. Queremos o melhor para a empresa. E o que é melhor para a empresa? Que tenha continuidade, porque as pessoas que estão ali sabem o que vinha sendo feito. Como a empresa estava indo de prejuízo para lucro, como ela aumentou a produção, como ela está desenvolvendo o pré-sal, que é uma riqueza brasileira inimaginável como Carajás. E precisa ter um custo de capital baixo para fazer isso. Quando a ação da empresa despenca, o custo de capital da empresa está subindo. Vai ser mais difícil tirar o petróleo do chão. 

O petróleo não jorra do chão. Custa muito dinheiro tirar o petróleo do chão. E isso não cai do céu. Isso vem dos investidores, dos aposentados do Banco do Brasil, dos aposentados da Caixa, dos fundos de pensão, de previdência, que é quem está dando dinheiro para a Petrobras para ela tirar o pré-sal do chão. 

Aí quando você faz uma loucura dessas, o custo de capital aumenta e fica mais difícil tirar o petróleo do chão, e é por isso a gente fica um País pobre e não saímos desse ciclo negativo!

O mais fácil era todo mundo pedir demissão em protesto, mas eu acho que não é isso que será feito. As pessoas são responsáveis. Elas vão esperar a chegada do General Silva e Luna. Não analisei ainda o dossiê da governança que está sendo preparado sobre a vida dele. Vamos analisar à luz da Lei das Estatais e vamos votar. 

Agora, eu acho muito difícil resistir a um nome indicado pelo Presidente, mas podemos fazer com que ele ande na linha como ele tem que andar. E se ele não andar na linha, vamos estar nós aqui gritando de novo, a imprensa vai estar vigiando e o eleitor vai estar lá para mudar as coisas. 

SE O RUMO DA COMPANHIA MUDAR….

[Se o governo decidir trocar o conselho todo], aí vamos ter uma confusão danada. Vai escalar a confusão. Eu tenho a impressão que o Presidente Bolsonaro não deve querer botar fogo no barco. Eu acho que ele quer conduzir o País para a riqueza, para a calma, para o desenvolvimento. 

Quero crer que ele não quer colocar fogo no sistema econômico, botar fogo no próprio governo dele. Porque esse tema — como a Petrobras é muito grande — pode ser o estopim do fim do governo dele, como foram as pedaladas da Dilma, como foi a política econômica alternativa do senhor Mantega… esse é o início deste flerte. Mas quero crer que as coisas vão se acalmar.  Pode ter sido uma coisa pessoal do Presidente Bolsonaro com o presidente Castello Branco, e agora vem uma outra pessoa.

O general Silva e Luna foi Ministro da Defesa do País, foi comandante do Estado Maior, não é possível que não seja uma pessoa preparada. Tenho certeza que ele tem bom senso, tenho certeza que é um patriota, que vai querer o melhor e que vai aprender, quando sentar na cadeira de presidente da Petrobras, as regras internas da empresa, as regras do estatuto, as regras de mercado, e todo tipo de limites regulatórios que existem hoje dados pela CVM, pelo TCU, pelo Departamento de Justiça americano. A gente tem um acordo com o DOJ para acabar com a class action (que foi o primeiro grupo de investidores que perdeu dinheiro lá atrás quando se controlou o preço da gasolina). Lá atrás, não tinha como responsabilizar os culpados, mas agora tem: todos os funcionários respondem no CPF, na pessoa física.