Os impérios ascendem e depois de algum tempo entram em decadência, em um padrão relativamente previsível. É o Grande Ciclo, como afirma Ray Dalio. Nesse ciclo, há períodos pacíficos, inovadores e prósperos, mas existem as fases de conflito e depressão, com grande disputa por riqueza e poder. 
 
Fundador do maior hedge fund do planeta, o Bridgewater Associates, com US$ 140 bilhões sob gestão, Dalio mergulhou na história dos últimos cinco séculos e escreveu Princípios Para a Ordem Mundial em Transformação: Por Que as Nações Prosperaram e Fracassam (Intrínseca; 560 págs.), que acaba de chegar às livrarias.
 
“Os novos tempos serão radicalmente diferentes daqueles em que vivemos, embora semelhantes a muitos outros períodos da história”, Dalio anuncia logo na introdução. “Como sei disso?  Porque sempre foi assim.” 
 
Ele nota a confluência de fatores inéditos – como dívidas gigantescas num ambiente de juros próximos de zero, sérios conflitos sociais e políticos dentro dos países, motivados pela disparidade de riqueza, e o surgimento da China como nova potência mundial, desafiando os Estados Unidos. 
 
Segundo Dalio, a última época parecida com o atual período foi entre 1930 a 1945, “e isso me pareceu preocupante.” 
 
Em sua avaliação, a História mostra que o sucesso de todos os países depende de sustentar as forças de consolidação sem gerar os excessos que levam a suas quedas. “Os países realmente bem-sucedidos têm conseguido fazer isso em grande escala por 200 ou 300 anos”, afirma. “Nenhum país conseguiu fazer isso eternamente.”

Abaixo, o Brazil Journal traz um trecho do capítulo “Relações e Guerras entre Estados Unidos e China”. 
 
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O destino e suas manifestações do Grande Ciclo colocaram esses dois países e seus líderes nas posições em que estão atualmente. Esses fatores levaram os Estados Unidos a passar pelos sucessos mutuamente reforçados do Grande Ciclo, o que resultou em excessos que causaram o enfraquecimento em várias áreas.

Da mesma forma, levaram a China a passar por quedas do Grande Ciclo, o que resultou em condições insuportavelmente ruins que causaram mudanças revolucionárias e também as recuperações mutuamente reforçadas em que a China está agora. Portanto, por todas as razões clássicas, os Estados Unidos parecem estar em queda e a China, em ascensão.

O destino e o grande ciclo de endividamento levaram os Estados Unidos a se encontrarem agora na fase do ciclo moratório do ciclo de endividamento de longo prazo, na qual o país tem muita dívida e precisa rapidamente produzir muito mais dívida, a qual não pode pagar com moeda forte. Portanto, precisa monetizar sua dívida da maneira clássica do ciclo moratório, imprimindo dinheiro para financiar os déficits do governo.

De maneira irônica e clássica, estar nessa posição ruim é a consequência dos sucessos dos Estados Unidos, que levaram a esses excessos. Por exemplo, é por conta dos grandes sucessos globais dos Estados Unidos que o dólar americano se tornou a moeda de reserva dominante do mundo, o que permitiu ao país tomar empréstimos em excesso do restante do mundo (incluindo da China), colocando-o na tênue posição de dever muito dinheiro para outras nações (incluindo a China), o que deixou esses outros países na posição tênue de deter tal dívida excessiva e crescente, a qual o país devedor está monetizando e pagando taxas de juros reais significativamente negativas para seus detentores.

Em outras palavras, é por causa do clássico ciclo da moeda de reserva que a China quis economizar muito na moeda de reserva mundial, levando-a a emprestar bastante aos americanos, que tanto queriam tomar empréstimos, o que levou os dois países a esse estranho e grande relacionamento de devedor-credor enquanto essas guerras acontecem entre eles.

O destino e a maneira como funciona o ciclo da riqueza, sobretudo sob o capitalismo, efetivaram os incentivos e recursos necessários para que os americanos fizessem grandes avanços e gerassem muita riqueza — eles acabaram criando grandes lacunas de riqueza, que agora estão provocando conflitos e ameaçando a ordem e a produtividade internas imprescindíveis para que os Estados Unidos continuem fortes.

No caso da China, foi a clássica confluência entre o colapso das finanças devido a dívidas e moeda fraca, conflitos internos e conflitos com grandes potências que levou à queda financeira de seu Grande Ciclo no mesmo período em que os Estados Unidos estavam ascendendo, e foi o extremismo dessas condições terríveis que gerou as mudanças revolucionárias que acabaram levando à criação de incentivos e abordagens de capitalistas de mercado que provocaram os grandes avanços, a grande riqueza e as grandes disparidades de riqueza da China, com as quais o país está, compreensivelmente, cada vez mais preocupado.

De maneira semelhante, o destino e a maneira como funciona o ciclo de poder global colocaram os Estados Unidos na infeliz posição de ter que escolher entre lutar para defender sua posição e ordem mundial existente ou recuar. Por exemplo, como os Estados Unidos foram os vencedores das batalhas no Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial, e não qualquer outro país, terão que escolher entre defender Taiwan — uma ilha que a maioria dos americanos não sabe onde fica e cujo nome nem sequer consegue soletrar — ou recuar. É por conta de tal destino e ciclo de poder global que os Estados Unidos agora têm bases militares em mais de setenta países para defender sua ordem mundial, embora isso seja antieconômico.
 
A história mostra que o sucesso de todos os países depende de sustentar as forças de consolidação sem gerar os excessos que levam a suas quedas. Os países realmente bem-sucedidos têm conseguido fazer isso em grande escala durante duzentos a trezentos anos. Nenhum país conseguiu fazer isso eternamente. 
 
Até agora, vimos a história dos últimos quinhentos anos com foco principal nos ciclos de ascensão e queda dos impérios com moeda de reserva holandês, britânico e americano, e de modo breve nos últimos 1.400 anos das dinastias da China, o que nos trouxe até o presente. O objetivo é mostrar onde estamos no contexto das histórias gerais que nos conduziram até aqui e ver os padrões de causa e efeito no funcionamento das coisas para que possamos ter uma perspectiva melhor de onde nos encontramos. Agora, precisamos nos aproximar e olhar com mais detalhes para o ponto em que nos encontramos, na esperança de não perdermos de vista o cenário geral. Conforme fazemos isso, acontecimentos que em retrospecto parecem pequenos e imperceptíveis — Huawei, sanções em Hong Kong, fechamento de consulados, movimentação de navios de guerra, políticas monetárias sem precedentes, lutas políticas, conflitos sociais e muitos outros — vão parecer bem maiores, e vamos nos encontrar no meio da tempestade desses eventos que nos atingem todos os dias. Cada um deles valeria uma análise de mais de um capítulo, o que não pretendo fazer, mas vou tocar nas principais questões.

A história nos ensinou que existem cinco principais tipos de guerra: 1) comerciais/econômicas; 2) tecnológicas; 3) geopolíticas; 4) de capital; 5) militares. A essas eu acrescentaria mais duas: as 6) culturais; 7) a guerra contra nós mesmos. Embora todas as pessoas sensatas desejem que tais “guerras” não estivessem ocorrendo e, em vez disso, que houvesse cooperação, devemos ser práticos e reconhecer que existem.

Deveríamos usar casos históricos do passado e nossa compreensão dos desenvolvimentos reais conforme estão ocorrendo para pensar no que é mais provável que aconteça a seguir e como lidar bem com isso.