O presidente eleito do Chile, José Antonio Kast, escolheu o economista Jorge Quiroz – um fervoroso defensor da disciplina fiscal e da redução dos obstáculos à iniciativa privada – para ser o coordenador da agenda de reformas de seu governo.
PhD pela Duke University e um dos mais respeitados consultores do Chile, Quiroz já ocupou cargos de direção em diversas empresas e foi o responsável pela elaboração do programa de governo de Kast. Agora será um Ministro das Finanças com influência direta sobre as outras pastas da área econômica.

O direitista Kast assume o Palácio de la Moneda em 11 de março, sucedendo o esquerdista Gabriel Boric.
Para Quiroz, o Chile precisa de um novo ciclo de reformas pró-mercado para elevar seu crescimento potencial e superar a estagnação. Ele defendeu reduzir o equivalente a US$ 6 bilhões em despesas públicas nos próximos 18 meses, fazendo isso por meio de uma redução de burocracia e de regulamentações, além da supressão de políticas consideradas pouco eficientes.
Segundo o jornal La Tercera, o projeto de Quiroz “prevê uma espécie de supraministério” com influência sobre todas as pastas do setor econômico, impactando as políticas públicas elaboradas pelos ministérios do Trabalho, da Economia, do Meio Ambiente, da Energia e de Mineração.
“Isso colocaria sob sua responsabilidade todas as questões relacionadas aos três pilares estabelecidos desde o início de sua atuação como coordenador econômico da campanha: desregulamentação, ajuste fiscal e impostos,” disse o jornal chileno.
Na avaliação de Quiroz, o modelo econômico chileno está esgotado e condena o PIB a não crescer mais do que 2% ao ano. O novo ministro quer triplicar essa taxa com um choque de produtividade, com políticas de incentivo ao investimento privado.
“Faremos o que for necessário para recuperar o crescimento econômico do Chile,” tem repetido o novo ministro em seus encontros com empresários e investidores.
O engenheiro agrônomo e empresário Daniel Mas será o Ministro da Economia e Mineração, acumulando duas pastas que antes eram autônomas. Ele é presidente do Grupo Ecomac, fundado por seu pai e que controla empresas de construção e do setor financeiro.
O Chile é o maior produtor mundial de cobre e o segundo de lítio – dois minerais indispensáveis para a indústria de tecnologia e a transição verde. O novo ministro defende a simplificação regulatória para destravar os investimentos na mineração e na infraestrutura.
Em outro aceno pró-mercado, Kast nomeou o empresário Francisco Pérez Mackenna para as Relações Exteriores. Pérez Mackenna é CEO há quase 30 anos de uma das maiores holdings do país, o Grupo Quiñenco, com participações relevantes no setor bancário, na indústria de bebidas, distribuição de combustíveis e transporte. Ele acaba de renunciar ao cargo para ir para o Governo.
O economista Tomás Rau, professor da Pontificia Universidad Católica de Chile (UC), foi designado como ministro do Trabalho e Previsión Social. Tem doutorado pela Universidade da Califórnia em Berkeley, quando foi orientado pelo Nobel David Card. Caberá a ele desenhar as reformas destinadas a dar mais flexibilidade ao mercado de trabalho e reduzir a informalidade.
O enfoque do novo governo será notadamente diverso do de Boric, cuja agenda foi centrada em políticas de redistribuição de renda – além da malfadada reforma constitucional, que acabou não acontecendo.
Em um relatório, a gestora Credicorp Capital afirmou que a composição ministerial “permite ao presidente eleito transmitir um forte sinal de independência política, conferindo aos tecnocratas um papel predominante em relação aos perfis políticos tradicionais.”
“O foco principal parece ser a eficiência e os resultados objetivos, priorizando a formulação de políticas analíticas e rigorosas em detrimento da lealdade partidária,” disse a Credicorp. “A estratégia central visa a credibilidade por meio de políticas baseadas em evidências, orientadas por resultados de longo prazo, em vez de ganhos eleitorais de curto prazo ou pressão populista.”
Ainda segundo a consultoria, a equipe econômica deseja fortalecer a confiança do mercado por meio de medidas de equilíbrio fiscal e ferramentas de gestão do setor privado para modernizar o Estado, reduzir o desperdício e implementar regulamentações mais eficazes.
Ao menos no papel, soa aos investidores como uma filarmônica afiadíssima e entrosada.
Os spreads dos títulos soberanos do Chile caíram a 86 pontos – o menor nível desde 2007, segundo a Bloomberg.
Boric promoveu aumento de gastos, e a dívida pública foi a 43% do PIB – o maior patamar desde os anos 80, mas ainda assim extremamente baixa para os padrões latino-americanos. No Brasil, o endividamento bruto atingiu 79% do PIB. (Tudo sob controle!)
O conservador Kast terá um gabinete com 24 ministros, apenas um a menos do que a composição atual. Não reduziu o total para 16, como prometera. (O gabinete de Lula tem 38 ministros.)
As críticas mais contundentes recaíram sobre as indicações de dois ex-advogados do ditador Augusto Pinochet: Fernando Barros, para a Defesa, e Fernando Rabat, para Justiça e Direitos Humanos.
Uma preocupação dos analistas é a ausência de nomes com maior traquejo político nas principais pastas. Ximena Rincón, indicada ministra de Energia, é uma política centrista mas pertence ao pequeno Demócratas, com pouca representatividade no Congresso.
A Segurança Pública – um dos temas centrais na campanha eleitoral – ficará a cargo da jurista e promotora Trinidad Steinert, que indicou como prioridade o enfrentamento ao crime organizado e à imigração ilegal.
Entre os novos ministros, 16 não são ligados a nenhum partido. (Leia de novo e morra de inveja.)
Dois são do Partido Republicano, de Kast, e os demais ficaram com partidos que apoiaram o novo presidente.
A falta de “poder legislativo” pode levar ao impasse no Congresso, aumentando a instabilidade institucional, alertou a Credicorp.
“Além disso, políticas tecnicamente sólidas muitas vezes correm o risco de serem percebidas como socialmente insensíveis.”











