Os preços no mercado de energia estão subindo há meses e operam no maior patamar em cinco anos, sob impacto de chuvas frustrantes e de uma estratégia das grandes elétricas de segurar as vendas de contratos de longa duração, diversas fontes do setor disseram ao Brazil Journal

Geradores com energia descontratada, como a AXIA e a Copel, estão preferindo aguardar, com a expectativa de que os preços possam subir ainda mais. Elas também têm aproveitando negociações lucrativas no mercado de curto prazo, que tem se tornado cada vez mais volátil, segundo as fontes e analistas. 

As chuvas nos reservatórios das hidrelétricas – a principal fonte de eletricidade do Brasil e cruciais para os preços – caminham para o quinto pior período de outubro a janeiro em quase 100 anos. Este mês, em pleno período chuvoso, que vai até o final de março, elas estão em 60% da média histórica, de 90% esperados.  

“Não parece que a tendência de preços de energia para cima esteja chegando ao fim,” escreveu esta semana o líder da cobertura de utilities do BTG, Antônio Junqueira. 

Os preços de contratos de longo prazo de energia convencional, de geração hidrelétrica, subiram 44% em 2025, avançam mais 3% na primeira semana de 2026, e são negociados a R$ 219 por megawatt-hora, o maior valor desde agosto de 2021, segundo a consultoria Dcide.

No mercado de curto prazo, os preços spot, dados pelo chamado Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), com variação horária, ficaram em média em R$ 223 por MWh em 2025. Em determinados momentos, no entanto, chegaram a superar R$ 1.000 por MWh, em mudança significativa frente a anos anteriores. Entre 2022 e meados de 2024, por exemplo, ficaram a maior parte do tempo entre R$ 50 e R$ 60 por MWh. 

A atual volatilidade nos preços de curto prazo decorre da acelerada expansão da geração intermitente, proveniente de usinas eólicas e solares. 

O novo padrão torna atraente para os geradores a hipótese de deixar energia livre, descontratada – uma estratégia antes descartada pelo maior risco de os preços spot ficarem baixos por longos períodos. “Em nossa visão, esse tradeoff mudou materialmente,” disse Junqueira, do BTG.

Empresas que têm usinas hidrelétricas, com maior flexibilidade para gerar energia em qualquer momento, e com energia descontratada para ser negociada nos momentos de preço elevado, tendem a se beneficiar mais. A Axia, a antiga Eletrobras, é uma das grandes vencedoras nesse cenário.

Outro fator que tem reduzido as vendas pelas grandes geradoras é a percepção de aumento de risco nas operações de comercialização de energia. Após a quebra recente de empresas como Gold Energia e 2W, cresceram as preocupações com as tradings menores, não associadas a empresas tradicionais do setor, disseram fontes do mercado.

“Grandes grupos pararam de negociar com comercializadoras independentes de energia. Isso tem atrapalhado a liquidez nos contratos de longo prazo, e ajudado a puxar os preços deles para cima,” disse o sócio-diretor da Armor Energia, Fred Menezes. “Além disso, está muito confortável para eles. Podem esperar e vender a energia no PLD (preço spot).”  

“Hoje, se você conversa com os geradores, contratos de longo prazo eles estão fazendo só marginalmente. Eles seguem com visão altista para os preços,” o analista de utilities da Reach Capital, Pedro Moura, disse ao Brazil Journal

Na visão de Moura, o mercado financeiro ainda não precifica totalmente esse cenário de preços de energia. “Essa questão pode ser um grande trigger para alguns nomes específicos,” disse.

O índice de elétricas da B3, IEE, valorizou 58,8% em 2025, o melhor desempenho desde 2009. Mas para Moura, o movimento esteve mais associado à redução dos juros longos – e no caso da Axia, que dobrou de preço no ano, a notícias específicas como o fim da disputa judicial com o governo e a venda da Eletronuclear.

Para Junqueira, do BTG, as utilities “ainda parecem mais interessantes que a maior parte dos setores.” Além dos fundamentos positivos no setor, como os preços de energia, ele considera que os papéis de elétricas devem ser mais protegidos diante de riscos eleitorais e podem se beneficiar da esperada queda da Selic.