Com mais de quatro décadas de carreira, Hélio de la Peña segue como um dos principais nomes do humor brasileiro. Neste episódio de The Business of Life, ele conversa com Nilton Bonder sobre sua trajetória, os parceiros de décadas e os projetos atuais — entre eles, uma biblioteca comunitária no Morro da Babilônia, no Rio.
Nascido Helio Antônio do Couto Filho, em 1959, cresceu na Vila da Penha, na zona norte do Rio. “Era um subúrbio praticamente rural, com muito terreno baldio,” diz. Filho de uma professora primária, foi alfabetizado pela mãe e estudou na rede pública até receber uma bolsa para o Colégio de São Bento.
Com a mudança, Hélio passou a conviver com uma realidade social diferente. “Era o único negro em um colégio de mil pessoas,” diz. Apesar do desconforto, a experiência ampliou suas perspectivas. “Aquela situação me proporcionou uma ambição,” diz. Tímido, bom aluno e especialmente habilidoso em matemática, chegou a dar aulas de reforço aos colegas.
No final dos anos 70, Hélio ingressou em Engenharia de Produção na UFRJ, onde conheceu Beto Silva e Marcelo Madureira. Os três participavam do movimento estudantil, mas se incomodavam com a postura dos militantes. “A gente começou a achar os caras sisudos, eles levavam as coisas a sério demais,” diz. Resolveram, então, criar um jornal humorístico para satirizar inclusive os próprios colegas.
Nascia o Casseta Popular. “Minha mãe tinha um mimeógrafo a álcool, porque ela era professora. A gente rodou o primeiro número no mimeógrafo a álcool, vendeu na faculdade, aí funcionou,” diz. Em 1986, o trio já havia se transformado em um grupo maior — e o jornal, em revista.
Dois anos depois, os integrantes do Casseta se juntaram aos de O Planeta Diário — criado por Hubert, Reinaldo e Cláudio Paiva — na equipe de roteiristas do TV Pirata, humorístico da Globo. Era o embrião do que se tornaria, em 1992, o Casseta & Planeta, Urgente!, o principal humorístico da televisão brasileira pelos 18 anos seguintes.
No programa, todos os integrantes tinham direito a voto, e os salários eram negociados em conjunto. “A gente sabia que o coletivo era mais forte do que qualquer um individualmente,” diz.
“Acho que fui o primeiro preto com um programa em horário nobre,” diz. A liberdade criativa do grupo permitia que interpretasse personagens independentemente da cor, numa época em que atores negros ficavam restritos a papéis estereotipados. “Então, eu podia fazer paródia do Fábio Assunção, entendeu? Da Malu Mader. O público comprava,” diz.
Após o fim da atração semanal e de outros projetos coletivos, Hélio passou a se dedicar ao stand-up, à literatura e a palestras corporativas. Também mantém uma biblioteca comunitária no Morro da Babilônia, no Rio. A iniciativa retoma a importância da educação em sua própria trajetória. “Retribuir um pouco para a sociedade o tanto que ela me deu,” diz.
Como lição de vida, Hélio recomenda “não ficar fechado no seu mundinho, na sua bolha.” O humorista também reconhece o papel das amizades na construção de sua carreira e em sua vida pessoal. “Eu não estaria aqui se não fossem meus parceiros de vida,” diz.
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