ROUNDTABLE: A saúde na mira do crime organizado

O mercado ilegal de medicamentos no Brasil vive um momento sem paralelo com o avanço das canetas emagrecedoras. Estima-se que o comércio ilegal desses produtos movimente R$ 34 bilhões no País — o dobro do mercado legal.

Contrabando, falsificação, roubo de cargas, assalto a farmácias, produção irregular em escala industrial e vendas por plataformas digitais ampliam a circulação de produtos sem garantia de origem, qualidade ou segurança. 

“É crime organizado, pois existe um sistema grande e estruturado agindo na distribuição desses produtos ”, afirmou Sergio Mena Barreto, da Abrafarma, associação que representa as redes de farmácias. 

Para ele, a facilidade de anunciar e distribuir produtos por meio de redes sociais e plataformas digitais ampliou o alcance do mercado ilegal. “Agora é explícito, está nos nossos celulares, com mecanismos capazes de atingir milhões de pessoas.” 

Participaram também deste Roundtable Felipe Borges, diretor de Acesso e Assuntos Corporativos da Eli Lilly, e Ivo Bucaresky, ex-diretor da Anvisa.

Borges destacou os riscos dos injetáveis à base de GLP-1. “Qualquer produto que passe fora da cadeia regulada da Anvisa traz riscos para os pacientes. Não se sabe como esse produto foi fabricado, como foi transportado ou o que tem ali dentro. Não há informações sobre segurança, eficácia ou qualidade,” afirmou. 

Apenas no primeiro semestre de 2026, foram apreendidas 100 mil unidades contrabandeadas. Considerando uma taxa de apreensão estimada em 3%, o volume ilegal poderia chegar a 3 milhões de unidades.

Para Bucaresky, o enfrentamento do problema exige o envolvimento de toda a sociedade. “Temos que melhorar a regulação, mas ela, por si só, não vai bastar,” disse. O ex-diretor da Anvisa defendeu reforçar a fiscalização, envolver polícias e órgãos de defesa do consumidor e responsabilizar plataformas, influenciadores e profissionais de saúde que promovam ou vendam produtos irregularmente.