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Paul Volcker deixa uma legião de admiradores. Difícil imaginar alguém mais respeitado e querido. Vai fazer muita falta. Muito já se escreveu e ainda vai se escrever sobre sua longa trajetória. Limito-me hoje a algumas notas mais pessoais.

Tive a sorte de ter convivido bastante com ele em Princeton e, especialmente, no Grupo dos Trinta, que ele dirigiu por muitos anos. Meu primeiro contato com ele foi de longe. Fui estagiário do Federal Reserve Board, o banco central americano, no verão do norte de 1984. Eu estava na reta final para concluir meu doutorado e ele, no segundo mandato como chairman do Fed. Naquela época ele fumava charutos o tempo todo e às vezes era visto atravessando um túnel que liga os dois prédios do Fed em Washington. Com seus dois metros de altura, ele era carinhosamente conhecido como Tall Paul. Mal cabia no túnel.

Não tive contato pessoal com ele naquela época, mas estive por perto, ajudando a equipe em assuntos brasileiros (traduzindo, nada mais). Naquela altura dos acontecimentos, ele tinha um papel importante na gestão da crise da dívida externa dos países conhecidos à época como menos desenvolvidos (ainda são). Figura imponente, conhecido pela firme aderência a princípios claros, era também bem-humorado e amigo dos amigos. Em seus oito anos como presidente do BC americano conviveu com nove presidentes do Banco Central do Brasil, alguns por apenas uns poucos dias, alguns que ele admirava e com quem fez amizade, como Langoni e Pastore.

 
Sua vida foi dedicada a assuntos públicos. Filho de um austero administrador de um município do estado de New Jersey por mais de vinte anos, Volcker sempre teve no pai um exemplo de cuidado com a coisa pública, talvez o princípio mor de sua vida.

Do lado profissional, alguns episódios foram marcantes. Como alto funcionário do Tesouro americano viveu o fim do sistema de Bretton Woods, com sua paridade do dólar com o ouro. A suspensão da paridade ocorreu durante sua gestão (agosto de 1971). Preparando esta nota, li que este foi considerado por ele mesmo o mais importante evento de sua carreira. Eu sabia do peso que ele dava ao fim de Bretton Woods, pois ele sempre defendeu a volta de um sistema monetário internacional inspirado no que se tinha. Em sua visão, o não-sistema de taxas de câmbio flutuantes era um tanto caótico e levava a políticas pouco cooperativas.

 
Na leitura da maioria das pessoas, seu momento mais marcante foi a fase inicial de sua gestão como chairman do Fed. Naquele período ele pisou no freio monetário e quebrou a espinha dorsal da inflação americana, que andava na casa de dois dígitos. O trabalho começou com o que talvez tenha sido o último experimento com metas genuinamente monetárias. A consequência foi uma enorme volatilidade do mercado de juros nos dois anos a partir do final de 1980. Além de voláteis, as taxas de juros chegaram a 22%. Em função da confusão armada, as metas monetárias foram abandonadas. A economia colapsou, a inflação caiu e nunca mais atingiu níveis semelhantes. Como efeito colateral, devedores em dólar mundo afora voaram pelos ares, começando pelo México em 1982 e chegando a nós no que acabou sendo o início da década perdida.

Quando cheguei ao Banco Central no início de 1999, com a ideia de implantar aqui um sistema de metas para inflação, perguntei a Volcker sua opinião. Ele respendeu: “I do not like inflation, I do not like deflation… I guess I like ‘flation’!” 

Volcker sempre olhou com ceticismo a liberalização dos mercados financeiros, em particular dos bancos. Odiava derivativos. Por muitos anos, divertia-se em dizer que as máquinas de caixa eletrônico foram a inovação mais importante dos bancos. Para ele, bancos são subsidiados pela existência de um emprestador de última instância e de um seguro para depósitos. Em função disso, via como necessidade absoluta a limitação dos riscos que os bancos correm. Não me lembro bem, mas imagino que ele tenha sido contrário à liberalização dos bancos de investimento, que no período que antecedeu à grande crise de 2008-9 se alavancaram imensamente.

 
Tive a honra de ser um de dois co-autores dele num relatório do Grupo do Trinta que ele coordenou em 2009. Neste relatório ele apresentou a regra que ganhou seu nome e ainda vigora em forma mais branda até hoje: bancos não podem operar alavancados com capital próprio. O desafio da regulação de instituições financeiras segue vivo, mas Volcker foreneceu um norte que ele considerava essencial tanto do ponto de vista técnico quanto ético: o mercado não pode operar ficando com os ganhos e socializando as perdas. Ele entendia isso como um problema que mais adiante estaria na raiz do descontentamento com a democracia liberal, hoje ameaçada por algumas de suas próprias falhas.
Volcker seguiu engajado até o fim na vida pública do planeta, sempre na ponta do bem. Nunca perdeu a capacidade de analisar e, sobretudo, de se indignar. Deixa imensas saudades.
 
Arminio Fraga presidiu o Banco Central do Brasil e fundou a Gávea Investimentos.