Em seu discurso em Davos, Mark Carney disse o que o mundo inteiro estava pensando – mas o segredo do seu sucesso foi a forma como disse.
Ao longo de 15 minutos, o premiê canadense criticou o bullying do Governo Trump e apontou para um mundo em ruptura, em que “os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem.”
Foi aplaudido de pé – algo bastante incomum no Fórum – e a aprovação do seu governo subiu oito pontos, para 60%.
“O Canadá existe graças aos Estados Unidos. Lembre-se disso, Mark, da próxima vez que fizer suas declarações,” disse Trump, acusando o golpe horas depois.

Simon Langster, um speechwriter britânico, disse que Carney – que segundo o NYT escreveu o discurso sozinho – utilizou pelo menos seis recursos retóricos que remontam à Grécia e Roma antigas.
Esses recursos tornaram o discurso ainda mais eficaz e persuasivo.
Logo no início, Carney utiliza um tricólon, o encadeamento de três ideias – uma enumeração que dá ritmo e estimula a memorização e o engajamento do público. Veja:
Hoje falarei sobre o colapso da ordem mundial, o fim de uma ficção confortável e o início de uma realidade brutal onde a geopolítica das grandes potências não está sujeita a quaisquer restrições.
Com o tom do discurso estabelecido, Carney apresenta duas ideias opostas em uma mesma estrutura – uma antítese – para dar contraste e reforçar o abismo cada vez maior que separa os países “fortes” dos “fracos” hoje em dia.
Todos os dias somos lembrados de que vivemos em uma era de rivalidade entre grandes potências. Que a ordem baseada em regras está desaparecendo. Que os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem.
Carney, então, explicita o fim desta falsa ordem com uma analogia – comparando a passividade dos líderes globais de hoje com a dos cidadãos da União Soviética. Num grande achado para o discurso, o premiê canadense incorporou um texto escrito pelo checo Václav Havel em 1978 e intitulado O Poder dos Impotentes.
Havel fez uma pergunta simples: como o sistema comunista se sustentava? Sua resposta começou com um verdureiro. Todas as manhãs, esse comerciante coloca uma placa em sua vitrine: “Trabalhadores do mundo, uni-vos!” Ele não acredita nisso. Ninguém acredita nisso. Mas ele coloca a placa mesmo assim – para evitar problemas, para sinalizar submissão, para se dar bem com os outros. E como todos os comerciantes em todas as ruas fazem o mesmo, o sistema persiste.
Não apenas pela violência, mas pela participação de pessoas comuns em rituais que elas sabem, em particular, serem falsos. Havel chamou isso de “viver dentro de uma mentira”. O poder do sistema não vem de sua verdade, mas da disposição de todos em agir como se fosse verdade. E sua fragilidade vem da mesma fonte: quando uma única pessoa para de agir – quando o verdureiro remove sua placa – a ilusão começa a ruir.
É hora de empresas e países retirarem suas placas.
Além de apelar para o fantasma de um regime totalitário, o político usa termos pouco moderados como “ficção” e “ruptura”, para aumentar o senso de gravidade – uma hipérbole.
Durante décadas, países como o Canadá prosperaram sob o que chamávamos de ordem internacional baseada em regras. Aderimos às suas instituições, elogiamos seus princípios e nos beneficiamos de sua previsibilidade. Podíamos seguir políticas externas baseadas em valores sob sua proteção.
Sabíamos que a história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa. Que os mais fortes se isentariam quando lhes conviesse. Que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica. E que o direito internacional se aplicava com rigor variável dependendo da identidade do acusado ou da vítima.
Essa ficção era útil e a hegemonia americana, em particular, ajudou a fornecer bens públicos: rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a estruturas para a resolução de disputas. Então, colocamos a placa na janela. Participamos dos rituais. E, em grande parte, evitamos apontar as discrepâncias entre a retórica e a realidade. Esse acordo não funciona mais.
Deixe-me ser direto: estamos no meio de uma ruptura, não de uma transição.
A partir disso, o canadense faz uma metáfora com o mundo gastronômico, adaptando o significado das palavras “mesa” e “cardápio” para afirmar que as “potências médias” estão em risco.
As potências médias precisam agir em conjunto, pois quem não está à mesa [de negociações] está no cardápio. As grandes potências podem se dar ao luxo de negociar sozinhas. Elas têm o tamanho de mercado, a capacidade militar e a influência para ditar as regras. As potências médias, não. Mas quando negociamos apenas bilateralmente com uma potência hegemônica, negociamos a partir da fraqueza.
Finalmente, Carney lança mão de uma anáfora, a repetição de uma palavra ou expressão no início de frases sucessivas, dando peso a suas resoluções e ênfase ao que acredita que as “potências médias” precisam fazer.
O que significa para as potências médias “viver na verdade”?
Significa nomear a realidade. Pare de invocar a “ordem internacional baseada em regras” como se ela ainda funcionasse como anunciado. Chame o sistema pelo que ele é: um período em que os mais poderosos perseguem seus interesses usando a integração econômica como arma de coerção.
Significa agir de forma consistente. Aplique os mesmos padrões a aliados e rivais. Quando as potências médias criticam a intimidação econômica vinda de uma direção, mas permanecem em silêncio quando ela vem de outra, estamos mantendo a placa na janela.
Significa construir aquilo em que afirmamos acreditar. Em vez de esperar que a potência hegemônica restaure uma ordem que está desmantelando, crie instituições e acordos que funcionem conforme descrito.
E significa reduzir a influência que permite a coerção. Construir uma economia doméstica forte deve ser sempre a prioridade de todo governo. A diversificação internacional não é apenas prudência econômica; é a base material para uma política externa honesta.
Num mundo decididamente entrópico e de informação na velocidade da luz, as lideranças políticas precisam vender seu peixe para não ser engolidas por tubarões.
E nessa escolinha, Mark Carney já mostrou que é professor.
O discurso completo está aqui.











