Alexandre Muller passou os últimos 23 anos cobrindo o mercado de crédito: foi analista do UBS e do BTG antes de entrar na JGP para criar a área de crédito na gestora de André Jakurski.

Agora, aos 43, Muller está deixando de ser apenas gestor para se tornar empresário.

No ano passado, ele liderou o management buyout da JGP Crédito, assumindo o comando do negócio com planos ambiciosos – incluindo a entrada em novas classes de ativos e a expansão da base de investidores.

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Seu principal benchmark é a Apollo Global Management, a gigante americana fundada por Leon Black em 1990 e que é uma das maiores gestoras de crédito privado do mundo, administrando mais de US$ 1 trilhão em ativos.

“O que mais me inspira neles é a adaptação constante do modelo de negócio,” Muller disse ao Brazil Journal

“Eles nasceram como uma empresa de turnaround, depois se verticalizaram como seguradora, depois expandiram para asset management com originação proprietária. É uma inovação constante. No Brasil, tivemos muito pouca inovação na indústria de gestão em termos de produtos e cultura. Queremos trazer um pouco disso.”

A Leto Capital – como a gestora foi rebatizada – tem R$ 23 bilhões em ativos sob gestão, dos quais R$ 15 bi estão em fundos de crédito líquido e o restante em crédito estruturado. 

Na nova fase da gestora, o plano é focar cada vez mais nos produtos estruturados, onde Muller enxerga a maior oportunidade de crescimento dadas as perspectivas para este perfil de crédito. 

“Quando começamos a JGP Crédito em 2014, para cada R$ 1 financiado pelo mercado de capitais tínhamos R$ 4 financiado pelos bancos. Hoje, essa relação já é de 1 para 1, mas nos EUA é de 4 para 1,” disse Muller. “Acreditamos que o estoque de crédito via mercado de capitais pode duplicar no Brasil em cinco anos e esperamos estar na vanguarda desse movimento.”

A Leto tem nove verticais estratégicas – infra crédito, infra private equity, offshore, agro, securitização, high grade, high yield, special sits e ETFs – e mais de 50 fundos diferentes. O flagship tem mais de 12 anos, R$ 1 bi em ativos e é focado em crédito líquido. 

Recentemente, a gestora entrou no mercado de ETFs lançando seu primeiro fundo passivo – que tem R$ 250 milhões em ativos e é focado em investidores institucionais, investindo em ativos que podem ser usados como margem na B3. 

“Esse ETF permite que os fundos troquem suas margens na B3 que estão em LFT por cotas desse ETF, que vai ter um rendimento maior, com estimativa em CDI + 0,9%. Queremos focar muito nesses ETFs B2B, que ainda é um mercado muito pequeno e com muito potencial,” disse ele. 

O mercado de ETFs de crédito ainda está saindo das fraldas: hoje existem apenas três ETFs de crédito no Brasil, que juntos têm cerca de R$ 1 bilhão em ativos, menos de 1% do estoque de ETFs do País.

Para o ano que vem, Muller acredita que as verticais de maior crescimento serão os ETFs e FIDCs – o primeiro pela migração dos assessores de investimento para o modelo fee based, o que está demandando produtos mais eficientes; e o segundo pelo fato das possibilidades de securitização serem enormes e pelo instrumento ter se provando seguro do ponto de vista das garantias.

“Tivemos dois exemplos recentes que mostraram a segurança desse instrumento, que foram o FIDC da Light e da Belagrícola. Ambos foram respeitados nos processos de recuperação judicial das companhias,” disse Muller. 

A Leto tem R$ 2 bilhões em FIDCs – cerca de 10% de seu AUM. 

Outra frente prioritária para os próximos anos é a vertical de private equity, que a Leto acaba de lançar com a chegada de Pedro Guedes, que veio da Vinci.

“Nossa cabeça é de migrar cada vez mais de produtos de alfa tradicional, como o crédito líquido, para produtos de alfa alternativo, como FIDCs e private equity, e de beta tradicional, como os ETFs. É aí onde estamos vendo mais demanda,” disse Muller.

A vertical de private equity deve lançar seu primeiro fundo em setembro. O objetivo será comprar equity de empresas de infraestrutura ou financiar projetos de infra diretamente – aproveitando o pipeline de mais de 500 projetos de infra no Brasil nos próximos anos.  

A estratégia da Leto é reflexo do cenário desafiador no mercado de crédito. Muller nota que o endividamento das famílias tem crescido muito nos últimos anos, o que tende a reduzir o PIB potencial do País via impulso de crédito. 

O gestor também enxerga um cenário preocupante nas PMEs, cuja inadimplência média saltou de 2% para cerca de 7% nos últimos quatro anos. 

“Vimos um movimento muito grande de deterioração das empresas menores e de forte resiliência das grandes empresas. O que achamos que vai acontecer é um aumento de concentração em vários setores, principalmente nos que têm acesso a capital,” disse Muller.

O executivo nota que empresas como Rede D’Or e Localiza dobraram seus market shares, dado que empresas menores naqueles setores não conseguem rentabilizar seu negócio. 

“Isso é preocupante, porque as grandes empresas estão ficando cada vez mais dominantes e ganhando muito poder de mercado. Isso ajuda elas a repassar na ponta o custo de capital e preserva a qualidade do balanço, mas quando a Selic cair não necessariamente essas empresas vão baixar o preço, o que pode gerar uma persistência inflacionária.”

Neste contexto, a Leto está tomando cuidado redobrado para emprestar para empresas menores – focando mais nas líderes de mercado. Nas PMEs, a prioridade tem sido trabalhar com estruturas garantidas, como os FIDCs.