Um brasileiro entra em uma loja em Lisboa e pede um café. Escaneia um QR Code e paga com Pix. O valor sai instantaneamente da sua conta em reais, mantida no Brasil. A confirmação aparece na tela em segundos. Para ele, a experiência é idêntica à de um pagamento feito em qualquer cidade brasileira.
Situações como essa já acontecem em regiões com grande presença de turistas brasileiros e levantam uma pergunta natural: o Pix virou um meio de pagamento internacional?
A resposta curta é não – e é justamente aí que começa a parte interessante da história.
Do ponto de vista técnico e regulatório, não existe Pix Internacional. Ele funciona exclusivamente em reais e não possui qualquer interconexão com sistemas de pagamentos instantâneos de outros países.
Não há liquidação em moeda estrangeira no trilho Pix, nem interoperabilidade entre bancos centrais. Tampouco existe um arcabouço multilateral, como ocorre com as redes globais de cartões.
Ainda assim, a experiência existe. E para descrevê-la, dei a esse fenômeno o nome de Pix Roaming, por analogia ao uso do celular fora do País: a infraestrutura permanece doméstica, mas a experiência acompanha o usuário no exterior.
As três formas de pagar no exterior — e onde está a diferença real
Ao viajar para o exterior, o brasileiro tradicionalmente utiliza três formas de pagamento: cartão de crédito internacional, papel-moeda (ou cartões pré-pagos) e, mais recentemente, o que batizei de Pix Roaming.
Embora todas permitam concluir a compra, elas operam sob lógicas muito diferentes de autorização, liquidação e experiência.
No cartão de crédito internacional, a autorização é instantânea, mas a liquidação ocorre dias depois. Para o usuário, o processo funciona, mas é opaco: o valor final só se torna claro depois, e bloqueios antifraude são comuns fora do padrão habitual de consumo.
Alternativas como papel-moeda ou cartões pré-pagos reduzem a incerteza com o câmbio, mas introduzem outras fricções e custos, tornando-se soluções funcionais porém pouco eficientes.
O Pix Roaming parte de uma lógica distinta. O usuário autoriza o pagamento em reais, no aplicativo do seu banco brasileiro, e visualiza o valor final no momento da transação. O Pix liquida apenas no Brasil; a fronteira é atravessada fora do trilho, por processos privados de câmbio e liquidação internacional.
O resultado é uma experiência mais simples, previsível e alinhada ao comportamento de pagamento que o brasileiro já incorporou ao dia a dia.
O Pix não cruza fronteiras — a experiência, sim
Do ponto de vista operacional, o Pix liquida exclusivamente no Brasil, em reais, para uma empresa brasileira — normalmente um PSP (Prestador de Serviços de Pagamento) participante do ecossistema Pix. Não há qualquer liquidação internacional no trilho Pix.
A etapa internacional acontece depois. Esse PSP executa todo o trabalho necessário para que o lojista receba: consolida pagamentos, fecha o câmbio e realiza a liquidação na moeda do país onde o estabelecimento opera, utilizando seus próprios processos e arranjos de pagamentos internacionais.
Em alguns casos, esse processo pode incluir o uso de stablecoins lastreadas na moeda que o lojista deseja receber, transferidas internacionalmente em segundos e convertidas no destino para a moeda local. Esses mecanismos ficam totalmente fora da experiência do usuário e não fazem parte do Pix em si.
O ponto central é simples e poderoso: o Pix não cruza fronteiras; quem cruza fronteiras é a liquidação internacional, executada pelo PSP fora do Pix.
Esse mesmo modelo já aparece também no fluxo inverso. Turistas estrangeiros — como argentinos em viagem ao Brasil — conseguem pagar em estabelecimentos brasileiros com uma experiência muito semelhante à de um Pix, utilizando o aplicativo do seu banco ou carteira no país de origem. Mais uma vez, o Pix permanece doméstico; o que se internacionaliza é a experiência, sustentada por processos privados de câmbio e liquidação.
O que é o Pix Roaming — e o que ele não é
O Pix Roaming não é um sistema de pagamentos internacional, nem uma iniciativa oficial entre bancos centrais. Ele não substitui as redes globais de cartões e não cria um novo trilho regulatório.
Ele é, acima de tudo, a exportação da experiência Pix.
Mais que uma inovação técnica, o Pix Roaming revela algo estratégico: o Pix se tornou o padrão mental de pagamento do brasileiro. É a referência de simplicidade, velocidade e previsibilidade. Ao viajar, o usuário não quer aprender um novo meio de pagamento — quer levar consigo a experiência que já domina.
Isso cria uma inversão silenciosa mas profunda. Antes, o consumidor se adaptava à infraestrutura internacional. Agora, os modelos operacionais e de experiência passam a se adaptar à expectativa do consumidor brasileiro.
O Pix pode não ser internacional como trilho, mas já é internacional como comportamento — e isso muda a lógica da competição em pagamentos.
É a primeira vez que temos um meio de pagamento instantâneo e doméstico competindo com as soluções que dominam os pagamentos internacionais.
Edson Santos é fundador e sócio da Colink Business Consulting e tem mais de 25 anos de experiência em meios de pagamento e serviços financeiros. É o autor de ‘Do Escambo à Inclusão Financeira’ e coautor de ‘Payments 4.0 – As forças que estão transformando o mercado brasileiro.’











