Muito se fala do encolhimento da indústria de transformação. De fato, depois de atingir uma participação de 15% do PIB em 2004 (em valor adicionado), ela caiu para 10,7% em 2012, mantendo-se próxima desse patamar desde então.

Apesar das cifras, não parece correto falar em desindustrialização do país pelo menos até 2010. Isso porque, até então, a produção industrial doméstica caminhou pari passu com o resto do mundo – mas não com os países emergentes, pois, isolado das cadeias de valor, o Brasil não conseguiu se beneficiar como os asiáticos e o leste europeu da entrada da China na OMC no final de 2001. A queda da participação no PIB esteve mais associada à importância crescente do setor de serviços, aqui e no mundo.

Em que pese o fato de ações de um governo impactarem as gestões seguintes, vale a comparação dos resultados entre os mandatos presidenciais.

Com FHC e Lula, a produção industrial doméstica acompanhou, grosso modo, a produção global. Contrariando a visão de muitos, a apreciação cambial e os juros altos não impediram o bom desempenho. Foram tempos de avanço (moderado) da produtividade do setor.

O governo Dilma marcou uma grande inflexão – desindustrialização na veia. Justamente um período de grande ativismo de políticas de proteção e estímulo ao setor, como o Inovar-Auto e o aumento de renúncias tributárias e de barreiras ao comércio exterior. Não só deram errado, como prejudicaram a economia como um todo.

Nas gestões Temer e Bolsonaro, reduziu-se bastante o diferencial de crescimento, mas ainda estamos no prejuízo (Tabela 1). O país ainda sofre as consequências da gestão Dilma, que encolheu o potencial de crescimento do país. Vale lembrar o tombo de 32% no investimento entre 2013-16.

Tabela 1: Produção Industrial – variação (%)

Investigando o período de descolamento em relação ao mundo, desde o governo Dilma, nota-se que a produção e o consumo de bens industrializados – o chamado consumo aparente, que considera a produção menos as exportações e mais as importações – caminharam juntos (Tabela 2).

Tabela 2: Consumo e Produção de produtos industrializados por tipo de bem – variação (%)

A elevada aderência dessas variáveis indica que, em boa medida, o problema da indústria decorre da própria fraqueza da demanda de produtos industrializados, o que se traduziu na redução do peso desses bens no orçamento das famílias.

Erros de política econômica deprimiram a economia e sufocaram o consumo de massas. O quadro culminou na grande recessão de meados de 2014-16 e no aumento da desigualdade e da pobreza a partir de 2015.

Claro que não se pode perder de vista que parte da reduzida demanda por bens industriais é consequência do próprio encolhimento da indústria, por conta de seu impacto indireto no restante da economia.

É inegável a baixa competitividade externa da indústria, um setor que sofre mais com o custo-Brasil, a começar pela carga tributária mais elevada. Mas é importante apontar que erros na política econômica pioraram o quadro. Reflexo disso é o aumento da participação do produto importado no consumo de bens industrializados e a perda de dinamismo das exportações em relação ao contexto global.

Do lado das importações, sua participação oscilou em torno de 16% entre 1997-2010 e, desde então, segue tendência de alta, tendo atingido quase 23% em 2021, segundo a CNI. Cálculos preliminares indicam alta adicional em 2022. O movimento coincide, grosso modo, com o aumento do custo do trabalho denominado em dólares. Em outras palavras, o custo sobe e os produtos brasileiros perdem competitividade.

Os setores mais impactados, como têxtil e vestuário, são particularmente afetados pela concorrência com produtos chineses. Mais recentemente, desde a pandemia, os destaques ficam, naturalmente, para fármacos e de equipamentos de informática, com expressivo aumento da participação do importado, mesmo em meio à queda do custo do trabalho em dólar.

Já a exportação de manufaturas, depois de anos de vigor com FHC e Lula 1, passou ter no Lula 2 e Dilma desempenho pior que o total global. Com Temer e principalmente Bolsonaro, iniciou-se a recuperação (Tabela 3). Importante reconhecer os avanços na facilitação do comércio exterior ocorridos no governo anterior.

Tabela 3: Volume exportado – variação (%)

Não é coincidência que períodos de maior intervencionismo estatal estejam associados à pior performance relativa das exportações e aumento da participação dos produtos importados.

Em face desse quadro, convém afastar as políticas de proteção para “salvar” a indústria. Políticas setoriais parecem saídas fáceis, mas não são, especialmente em um país com quadro macroeconômico instável, ambiente de negócios tóxico e economia muito fechada. A agenda é outra, de remoção desses obstáculos.

Que venha a reforma tributária de criação do IVA, com tratamento equânime entre os setores. Será passo importante para um setor que, via de regra, tem maior carga de impostos, carregando também o peso de sua complexidade.

A indústria é particularmente impactada por erros de política econômica. O que o setor precisa é de governos que errem menos.

Zeina Latif foi secretária de Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo e é autora do livro “Nós do Brasil: nossa herança e nossas escolhas”.