Para 2026, a Lei Orçamentária Anual (LOA) revela um padrão de gasto concentrado em despesas financeiras, transferências sociais e instrumentos indiretos de indução setorial, com participação reduzida do investimento fiscal direto.

A análise da composição do gasto orçamentário complementa as tradicionais abordagens macroeconômicas ao apontar os diferentes canais de transmissão das despesas públicas, que influenciam a produção, emprego, consumo e crédito setoriais.

Essa leitura do orçamento fornece sinais aos tomadores de decisão nas empresas, analistas de mercado e instituições financeiras, por detalhar o consumo do governo, um dos componentes da demanda.

No gráfico seguinte, vê-se que a composição do gasto orçamentário para 2026, por função, realça o volume dos encargos especiais, com R$ 3,8 trilhões, que reúne gastos com o refinanciamento e serviço da dívida (R$ 2,8 trilhões), transferências constitucionais (R$ 628,6 bilhões), indenizações judiciais (R$ 122,3 bilhões), financiamentos com retorno (R$ 66,4 bilhões), dentre outros.

Destaca-se ainda a função previdência social, com R$ 1,2 trilhões. Esse quadro implica riscos fiscais e, de um forma geral, sustenta gastos públicos estaduais e municipais, bem como a demanda corrente de famílias, na direção de cadeias de bens de consumo. Em contraste, as funções relacionadas a gastos de políticas públicas para setores produtivos (agricultura, comércio, serviços, energia) apresentam participação reduzida no orçamento fiscal, implicando baixa indução direta setorial.

Grafico 1

Na desagregação por Grupo de Natureza da Despesa (GND), nota-se que, do total de R$ 6,3 trilhões da LOA 2026, há concentração em outras despesas correntes (R$ 2,6 trilhões), amortização da dívida (R$ 2,2 trilhões) e encargos financeiros (R$ 643,9 bilhões), enquanto pessoal e encargos sociais somam R$ 489,5 bilhões e os investimentos, apenas R$ 80,8 bilhões.

Trata-se de composição com forte peso de despesas obrigatórias e reduzido espaço para o investimento direto, que tende a depender mais da iniciativa privada e de instrumentos de alavancagem financeira. O gráfico seguinte corrobora esse panorama.

Grafico 2

Embora o orçamento fiscal apresente investimentos escassos, o orçamento das empresas estatais exerce influência sobre a dinâmica setorial. Os investimentos das estatais totalizam R$ 198 bilhões, dos quais R$ 193,4 bilhões são para infraestrutura, com quase 90% a cargo do grupo Petrobras, dinamizando cadeias de engenharia pesada, construção naval e indústria metalmecânica.

O orçamento também aloca recursos para reduzir custos financeiros e mitigar riscos que normalmente limitam investimentos ou o acesso ao crédito. Aqui, destacam‑se as subvenções econômicas, que na LOA 2026 somam R$ 25 bilhões, aplicados em: agricultura familiar, com R$ 9,7 bilhões; investimento rural e agroindustrial, com R$ 6,7 bilhões; e custeio agropecuário, com R$ 1,9 bilhão. Registrem-se ainda R$ 1,8 bilhão destinados ao desenvolvimento tecnológico e R$ 1,4 bilhão do PROEX, para financiamento das exportações. 

grafico 3

A integralização de fundos garantidores, que totalizam R$ 19,1 bilhões, permite a alavancagem financeira do crédito.

As maiores alocações concentram-se em fundos de poupança estudantil (R$ 11,5 bilhões), no FAR da habitação (R$ 5,8 bilhões), além de garantias ao crédito educativo (R$ 880,6 milhões), aportes em bancos internacionais (R$ 674,6 milhões), apoio a projetos ferroviários (R$ 237,1 milhões), e fundo de estruturação de concessões e parcerias público-privadas (com apenas R$ 22,7 milhões). Esse quadro sugere uma estratégia orçamentária de alavancagem voltada a operações mais padronizadas e de menor risco. É o que retrata o gráfico abaixo.

Grafico 4

Pelo visto, a LOA 2026 indica maior previsibilidade de fluxos para setores dependentes de transferências de renda e de crédito amparado por subvenções ou fundos garantidores.

Cadeias ligadas ao consumo e a infraestrutura, especialmente as vinculadas a investimentos do grupo Petrobrás, tendem a exibir maior sustentação, enquanto segmentos produtivos dependentes de indução direta seguem sensíveis à compressão fiscal.

Essa leitura do orçamento aprimora a avaliação de fluxos de caixa e de riscos setoriais, reduz incertezas na alocação do capital privado e na oferta de crédito, e amplia a capacidade de estruturar produtos, operações financeiras e modelos de negócio mais aderentes ao padrão de financiamento público.

Helder Rebouças é consultor de orçamentos e ex-diretor geral do Senado.