A discussão sobre inteligência artificial evoluiu rápido demais para quem tentou acompanhá-la apenas pelo noticiário ou por pilotos isolados. Em pouco tempo, saímos do fascínio com modelos generativos para um dilema mais profundo e desconfortável: como transformar essa capacidade em vantagem competitiva sustentável.

Nos últimos dois anos, muitos líderes fizeram a pergunta certa, mas, em muitos casos, tarde demais: como eu coloco a GenAI na minha organização? Para 2026, essa pergunta já não é suficiente. A questão agora é outra: como eu reescrevo a forma como minha organização trabalha, decide e entrega valor em um mundo “AI First”?

Este artigo é uma tentativa de oferecer um mapa direto para líderes que precisam acelerar com profundidade, sem hype ou ilusões.

O que de fato significa uma agenda AI First

Não é comprar ferramentas nem criar um laboratório isolado. E, definitivamente, não é espalhar copilotos sem redesenhar todo o sistema.  AI First significa priorizar decisões, jornadas e produtos que se tornam estruturalmente melhores quando a IA deixa de ficar apenas na borda e passa a ocupar o centro da operação.

Na prática, isso altera quatro componentes do sistema operacional da organização.

Decisão. A IA reduz drasticamente o custo de previsão. Quando prever fica barato, decidir muda de natureza. As decisões podem ser mais frequentes, mais informadas e mais distribuídas. O gargalo deixa de ser informação e passa a ser desenho de autoridade, confiança e governança.

Trabalho. O trabalho deixa de ser apenas assistido e passa a ser parcialmente orquestrado. Agentes começam a assumir sequências inteiras de tarefas, coordenando fluxos, priorizando ações e aprendendo com os resultados. Isso não elimina pessoas; redefine onde o julgamento humano é realmente crítico.

Software. O software deixa de ser apenas regra codificada. Ele passa a combinar regras, dados, modelos e feedback vivo. Sistemas deixam de ser estáticos e passam a evoluir em ciclos contínuos.

Resultado. O valor deixa de ser um ganho pontual de eficiência. Ele se transforma em um ciclo permanente de aprendizado e otimização. Empresas AI First não “implementam” IA. Elas operam em loops contínuos de decisão, execução e aprendizado.

A transição mais negligenciada: de copilotos para agentes

Em 2024, copilotos dominaram o discurso. E isso fez sentido. Eles são o primeiro passo intuitivo para produtividade individual e adoção cultural. A virada real, porém, acontece agora, com a ascensão da IA agêntica. Não por modismo, mas por lógica econômica. Copilotos aceleram tarefas. Agentes coordenam resultados.

Essa diferença muda tudo.

Ela afeta atendimento, operações, back office, engenharia, risco e compliance, comercial, CRM, finanças e planejamento. Sempre que há fluxo, decisão recorrente e aprendizado possível, agentes passam a fazer mais sentido do que interfaces assistivas.

Empresas que tratam agentes como “mais uma automação” tendem a perder o principal ponto de inflexão desta década. As que os desenham como capacidade organizacional criam um baseline de performance difícil de copiar.

As três decisões de liderança que mais importam agora

Escolher onde a IA muda o jogo de verdade. O C-level precisa evitar uma armadilha comum: inventariar dezenas de casos de uso sem priorizar os poucos que realmente reescrevem o resultado. Uma boa regra prática é focar jornadas em que a IA possa atuar em sequência, e não apenas em uma etapa isolada. Valor sistêmico vem de encadeamento, não de ganhos pontuais.

Definir arquitetura e governança cedo. Sem isso, a organização caminha rapidamente para dois extremos igualmente perigosos: uma feira de pilotos desconectados ou um risco sistêmico de dados, segurança e reputação. Governança AI First não precisa ser lenta. Precisa ser clara, deixando explícito quem decide, quais dados podem ser usados, como medir impacto, como auditar decisões e como desligar sistemas quando necessário.

Construir capability como vantagem competitiva. Em 2026, o ativo estratégico mais raro não será acesso a modelos. Isso será commodity. O diferencial estará na capacidade de identificar casos de alto valor, integrar IA ao core do trabalho, medir impacto real, escalar com segurança e evoluir funções, talentos e incentivos. Empresas que internalizam essa capacidade deixam de depender de ondas tecnológicas externas. Elas passam a surfar qualquer uma.

A janela entre 2024 e 2026 não é sobre experimentar IA, mas sobre decidir que tipo de organização você será quando ela deixar de ser opcional. No fim, AI First não é uma agenda tecnológica, e sim uma agenda de liderança.

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A partir de conversas recorrentes com CEOs, CIOs e membros de C-level, montei uma trilha curta de leitura para responder a uma pergunta que tenho ouvido com frequência: por onde começo para entender IA, IA agêntica e tomar decisões melhores para 2026?

  • Agentic Artificial Intelligence, de Pascal Bornet e colaboradores — para entender o que muda quando sistemas planejam e executam com autonomia.
  • Reshuffle, de Sangeet Paul Choudary — para enxergar quem captura valor quando a IA reorganiza a economia do conhecimento.
  • Co-Intelligence, Ethan Mollick — para trazer IA ao cotidiano do líder com pragmatismo.
  • AI Leadership Handbook, de Andreas Welsch — a ponte entre visão, governança e escala.
  • Competing in the Age of AI, de Marco Iansiti — a base para conectar IA à estratégia e operar em loops de aprendizado.
  • Supremacy, de Parmy Olson, e The Thinking Machine, de Stephen Witt — o contexto industrial e por que infraestrutura virou pauta de CEO.
  • The Coming Wave, de Mustafa Suleyman — o contrapeso de risco, governança e papel institucional.

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Rafael Siqueira é sócio da McKinsey e líder de McKinsey Technology na América Latina.

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