A decisão do Museu de Arte Moderna do Rio de vender sua obra mais valiosa  um Jackson Pollock avaliado em US$ 25 milhões  gerou indignação no meio artístico e suscitou uma questão tão simples quanto delicada: o que quer que esteja errado com o MAM será resolvido com a venda de um quadro?

Os críticos dizem que a venda  mesmo que para montar um endowment fund que em tese garantirá independência financeira no longo prazo, como pretende o MAM  é, na verdade, um movimento para evitar o que o museu realmente precisa: um ajuste fiscal estrutural, resultado de um choque de gestão.

Perplexos com a decisão da venda, artistas, críticos e colecionadores do Rio de Janeiro estão se movimentando para pensar e propor soluções alternativas.

A venda de uma obra de arte é um sacrilégio para qualquer museu, e uma violação do código de ética do Conselho Internacional de Museus, o Icom, entidade que representa as maiores instituições do mundo.

No máximo, é aceitável vender quadros para comprar outras obras, dentro de um eventual novo direcionamento de acervo.

O quadro “No. 16” (1950) de Pollock, um óleo sobre aglomerado de 56,7 cm X 56,7 cm, foi doado ao MAM pelo bilionário Nelson Rockefeller em 1952. É a única obra existente no Brasil daquele que é considerado um dos artistas mais importantes dos EUA, ícone do expressionismo abstrato, movimento do pós-guerra que projetou a arte norte-americana no mundo. As pinceladas aleatórias de Pollock (técnica conhecida como “action painting”) simbolizam os ideais de liberdade e espontaneidade.

Há pouco mais de quatro anos, um outro Pollock, cerca de 20 cm maior que o do MAM e também chamado “No.16”, de 1949, alcançou US$ 32,6 milhões em um leilão.

O MAM Rio foi fundado em 1948 por um grupo de empresários e amantes das artes como Raymundo de Castro Maya, Walther Moreira Salles, Roberto Marinho e Niomar Moniz Sodré, que tinham como ambição criar o mais importante museu de arte moderna do hemisfério sul. Sua fundação foi acompanhada de doações de inúmeras obras-primas de artistas como Picasso, Miró, Salvador Dalí, Max Ernst, René Magritte e tantos outros.

 

Para abrigar essa grande coleção, os apoiadores do MAM mandaram construir uma imponente sede no Aterro do Flamengo  hoje um marco da arquitetura modernista  com 13 mil metros quadrados projetados por Affonso Reidy.

Em 1978, sobreveio uma tragédia. Um incêndio de causa nunca identificada devastou 90% do acervo, transformando em cinzas o sonho dos banqueiros e industriais dos anos 40 e 50.

A comoção com a tragédia mobilizou a sociedade, sobretudo os artistas. Amilcar de Castro, Nelson Leirner (que fez uma obra idêntica à sua que queimou), Celeida Tostes, Carlos Cruz-Diez e herdeiros de artistas como Farnese de Andrade doaram obras. Houve campanha internacional junto às embaixadas  e o museu recebeu esculturas e pinturas japonesas e gravuras de artistas alemães.

Na época, o movimento de doações contagiou o Rio de Janeiro e o museu foi inundado por visitantes que levavam desenhos dos filhos para ajudar na reconstrução do acervo. Tanta generosidade acabou levando à formação de uma coleção bastante irregular.

Ao anunciar a decisão de vender o Pollock na semana passada, o presidente do MAM, Carlos Alberto Chateaubriand, afirmou que a medida faz parte de um esforço para tornar o MAM “auto-sustentável pelos próximos trinta anos”. O plano prevê a criação de um PDE (Patrimônio com Destinação Específica), um fundo a ser depositado em uma instituição fiduciária, com regras rígidas para seu uso, gerida por um comitê e auditado pela PwC.

De acordo com a nota divulgada pela direção do MAM, o Pollock foi escolhido por seu valor monetário e por não ser brasileiro, não se enquadrando portanto na atual vocação do museu, de ser um espaço dedicado à arte moderna e contemporânea nacional.

Essa atual vocação começou em 1993, quando o MAM foi reinaugurado para abrigar, em regime de comodato, mais de 6 mil obras da coleção Gilberto Chateaubriand, uma das mais importantes coleções de artistas brasileiros, do modernismo aos dias atuais, com obras de Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Cândido Portinari, Victor Brecheret e Tarsila do Amaral.

Hoje o MAM abriga, além da coleção Chateaubriand, um acervo próprio com 7.606 obras, com destaque para esculturas de Brancusi, Giacometti e Henry Moore, que escaparam do incêndio, e a coleção Joaquim Paiva, também em regime de comodato, com 1.963 fotografias de artistas de diferentes gerações e nacionalidades, incorporada em 2006.

O professor de história da arte Paulo Sérgio Duarte considera “estranho que entre milhares de obras que permanecem em comodato e que pertencem ao herdeiro e presidente do MAM, nenhuma seja colocada à venda, e que se escolha exatamente uma obra do acervo.”

A decisão do MAM de vender o Pollock foi chancelada pelo Ministério da Cultura, que soltou uma nota elogiando a iniciativa da instituição de “olhar para o futuro, alinhando-se com as tendências internacionais de excelência em gestão de museus”.

O apoio oficial deixou muitos dos que se opõem à medida com receio de criticar para não se indispor com Brasília. Mas a mais dura crítica até agora partiu de um órgão do próprio MinC, o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), presidido por Marcelo Araújo, que pediu abertamente a suspensão da venda. Já a representante do Icom no Brasil, Maria Ignez Mantovani, recebeu a notícia com “tristeza e perplexidade.”

A ideia do fundo patrimonial é garantir a independência financeira da instituição sem precisar correr atrás de leis de incentivo e patrocinadores que não são muitos no Rio de Janeiro em crise. Hoje, o MAM tem um déficit da ordem de R$ 1,5 milhão ao ano. O museu mantém uma programação de exposições e uma cinemateca ativa, com mais de 7500 filmes. Além dos custos operacionais de manutenção do acervo, a direção argumenta que o próprio prédio modernista demanda uma manutenção cara e constante.

O debate sobre o Pollock é, também, um debate sobre a relação entre Chateaubriand e o museu e sua direção.

Críticos da venda do Pollock vêem um conflito de interesse numa direção encabeçada por um colecionador cujas obras estão em comodato na instituição. Pelo regime de comodato, cabe ao museu arcar com os custos para armazenar, conservar e assegurar as obras  o que por si só ajuda a valorizar toda a coleção.

O Brazil Journal conversou com muitas pessoas que não quiseram se manifestar publicamente com receio de se indispor com Gilberto Chateaubriand, um mecenas nonagenário muito querido no mundo da arte.

Aqueles que se opõem à venda do Pollock apontam que um museu parecido com o MAM já esteve em situação muito pior e saiu da crise sem vender uma obra.

Em 2013, o Museu de Arte de São Paulo (MASP) se encontrava numa situação ainda mais dramática, com uma dívida de mais de R$ 40 milhões e um público declinante. A direção do MASP tentou um empréstimo com Alfredo Setúbal, hoje presidente da Itaúsa, mas teve o pedido negado.

Alfredo fez melhor: liderou um processo de reestruturação que culminou numa mudança no estatuto do museu (preparada por Alexandre Bertoldi, sócio-gestor do escritório Pinheiro Neto) e numa troca na direção, que passou a ser comandada por Heitor Martins, um sócio sênior da McKinsey que já havia reestruturado, com sucesso, a Fundação Bienal.

O MASP criou um conselho deliberativo com 80 integrantes contribuintes (empresários, executivos e profissionais liberais) e outros três da esfera pública, além de um grupo de patronos e jovens patronos  esta última medida para estimular a participação da nova geração.

De acordo com pessoas que participaram do processo, nunca se cogitou vender uma obra. Quatro anos depois, o MASP hoje é superavitário e arrecada R$ 40 milhões por ano. Um quarto vem de patronos, conselheiros e outras doações de pessoas físicas. Outro quarto vem de bilheteria e outras receitas operacionais. Os patrocínios representam quase a metade, e o museu conta ainda com R$ 2 milhões da prefeitura. Em 2017, teve o seu segundo maior público da história: 460 mil visitantes.

 

SAIBA MAIS:

O que faz um Pollock valer milhões?  (2/2/2014)

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