MATOSINHOS, Portugal — Diz-se que a melhor forma de se medir a notoriedade pública de alguém é perguntar a um taxista se conhece determinada pessoa.

Fiz esse exercício várias vezes quando regressava ao Brasil, na viagem do aeroporto ao hotel. Perguntava de diversas formas se conheciam o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, e a resposta era invariavelmente a mesma: não conheciam.

Contentava-me com a satisfação de saber que conheciam seu trabalho, suas obras, muitas delas já referências coletivas da cidade.
 
Paulo Mendes da Rocha era orgulhosamente um “arquiteto brasileiro”, “do mundo novo”, como tantas vezes o ouvi dizer com um certo sentido de otimismo.
  
No ano passado, quando doou à Casa da Arquitectura – Centro Português de Arquitectura, localizado aqui em Matosinhos, a totalidade do seu acervo profissional com cerca de 8.000 desenhos, 3.000 fotografias e slides e um conjunto de maquetes, Paulo respondeu às críticas de alguns dos seus pares lembrando que suas obras estão construídas no Brasil, seu legado maior. 

Obras como a Praça do Patriarca, a reforma da Pinacoteca de São Paulo, o ginásio do Clube Paulistano, a Galeria Leme, as casas do Butantã e Gerassi, o SESC 24 de Maio, e a sua obra-prima, o Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia, entre outras, são, no seu conjunto, das mais prestigiadas e reconhecidas em todo mundo, referências singulares da arquitetura respeitada, plena de sentido e coerência no mundo contemporâneo.
 
Esse um patrimônio do Brasil que necessita ser cuidado, uma razão de orgulho nacional que deve ser devidamente mantido.

Por outro lado existem, ainda, um conjunto de obras que necessitam ser terminadas e outros projetos que ficaram por construir, e que são um ativo que um país não pode desperdiçar ao deixar de executar.
 
Projetos como o Cais da Artes em Vitória, no Espírito Santo, a Praça de acesso ao Parque Ibirapuera em São Paulo, a Praça dos Museus da Universidade de São Paulo (USP), o Museu de Arte Contemporânea, Instituto de Estudos Avançados e Núcleo de Estudos da Violência, também da Universidade de São Paulo (USP), a ampliação do Museu Nacional de Belas Artes do Rio, entre outras, que são oportunidades únicas e singulares de ampliar esse patrimônio que tanto valoriza as cidades do Brasil.

Nascido em 1928, Paulo Mendes da Rocha iniciou sua atividade em 1955, e era, ao lado de Niemeyer, o mais premiado arquiteto brasileiro, recebendo ao longo da vida as mais altas distinções no domínio da arquitetura, incluindo o Prêmio Pritzker 2006, o Prêmio Mies van der Rohe de Arquitetura Latino-americana em 2000, o Leão de Ouro da Bienal de Veneza, o Imperiale Praemium em 2016 e a Medalha de Ouro Real de 2017 do Royal Institute of British Architects (RIBA). Este ano, foi agraciado com a Medalha de Ouro da UIA, cujo congresso se realiza em julho no Rio de Janeiro.
 
Paulo nunca se deixou impressionar, nem nunca alterou o seu modo de estar e trabalhar com tanta premiação. 

Morreu aos 92 anos deixando uma obra verdadeiramente universal, uma referência cultural que nos lembra o indizível —a arquitetura, quando idealista e corajosa, emana dimensão política.

Era um Homem Livre, verdadeiramente livre, no pensamento e na ação. Ambas estavam numa consonância verdadeiramente única, com uma coerência singular, própria de uma pessoa de inabaláveis convicções.

Firme na ação, tinha uma clareza de raciocínio e de expressão que tanto o caracterizaram nas tomadas de posição na defesa do bem público, da cidade para todos e na “arquitetura como forma de evitar o desastre”.
  
Suas intervenções públicas ficaram marcadas pela coragem e convicção com que defendia a democratização da cidade, a virtude do espaço público, da habitação e transporte coletivo e detrimento da habitação unifamiliar, dos condomínios fechados ou do uso abusivo do automóvel.

Amante de uma boa conversa, Paulo era um provocador inquieto; não deixava nunca o outro se acomodar nas convicções previamente adquiridas. Questionava e esperava o contraponto para voltar a contrapropor, e a conversa ia crescendo na proporção desta troca de ideias. Sabia ouvir, respeitava o outro, e rapidamente conseguia converter seu parceiro de conversa para seu ponto de vista sobre os diversos assuntos. Era um sedutor nato, capaz de cativar desde um chefe de Estado, um intelectual, uma criança, e com todos tinha a diplomacia de conseguir encontrar pontos em comum.

Lembro do João, meu filho de 12 anos, que ao saber da morte do Paulo se dirigiu a mim e, num pranto, me deu abraço dizendo “o Paulo morreu?!” como se do seu melhor amigo de escola se tratasse. Ambos trocavam argumentos em conversas deles quando dos seus vários encontros. Paulo sabia conquistar e interessava-se genuinamente pela pessoa do outro.

Paulo Mendes da Rocha era um pensador e leitor exímio das condições da contemporaneidade, sem que nunca delas ficasse refém.
 
Nunca ficou retido na realidade, seja ela qual fosse, nem na sua própria, nem na realidade social, econômica ou urbana na qual vivia ou para a qual trabalhava. Nunca se deixou aprisionar por ninguém, muito menos por tendências, grupos ou fações. Estava acima de tudo isso.

Essa condição de liberdade a que a arquitetura aspira, e que no caso aparece enormemente conquistada, se junta a uma outra condição, a do seu inconformismo, que faz de Paulo Mendes da Rocha uma personalidade capaz de produzir transformações, de fazer a mudança.

O seu legado vai para além do seu acervo documental doado ao mundo através de Portugal e da Casa da Arquitectura. O seu patrimônio maior são as obras que necessitamos cuidar e, acima de tudo, o seu pensamento universal, de grande exigência, que precisamos honrar e que é uma responsabilidade nossa na construção de um país e de um mundo mais justo, equilibrado e sustentável.

“Vivemos para continuar”, é uma responsabilidade que é de todos.

O Brasil deve isso ao Paulo Mendes da Rocha.

 

Nuno Sampaio é aquiteto, diretor-executivo da Casa da Arquitectura, Centro Português da Arquitectura.