A Shopee e a Shein têm se tornado cada vez mais assertivas no mercado brasileiro de ecommerce, fazendo investidores se questionarem o quanto as duas empresas asiáticas poderão mexer no queijo das incumbentes brasileiras.

As duas empresas têm apostado em preços baixos para ganhar mercado, ainda que, particularmente no caso da Shopee, isso signifique queimar caixa. 

Para os analistas do BTG Pactual, ainda é cedo para dizer se os dois novos players conseguirão assumir posições de liderança no País, mas a concorrência já aumentou.

A Shopee – que já tem o app de compras mais baixado no Brasil –  chegou ao País pouco antes da pandemia.

No início, apenas importava produtos e usava uma estratégia de frete grátis. Mas desde o ano passado, começou a fechar contratos com grandes vendedores locais.  A empresa  só começou a cobrar comissões dos sellers em fevereiro, com uma taxa de 5% que subiu para 12% em junho. 

A Shopee é controlada pela Sea Limited, de Singapura, que começou no mundo dos jogos eletrônicos e a partir daí criou braços no ecommerce, mídia e serviços financeiros. Os negócios interagem entre si: enquanto joga os games, o usuário recebe “moedas” para gastar na Shopee.  
 
Na chegada ao País, a empresa optou pela venda de itens variados e, pelo menos por enquanto, tem focado num tíquete médio baixo, de cerca de R$ 40. São itens que, até pelo custo de logística, interessam pouco às varejistas brasileiras.

Nesse formato, a empresa está trazendo para o ecommerce brasileiro um público que antes não acessava essas lojas virtuais, criando um novo filão de mercado e não ameaçando tanto as incumbentes.

Mas, com o passar do tempo, a Shopee deve migrar cada vez mais para uma diversificação de produtos. A empresa já planeja um centro de distribuição no Brasil. 

Apesar do barulho, a empresa ainda não é vista hoje como um concorrente direto para MELI, Magalu, Americanas e Via, tanto pelo tíquete médio baixo quanto pelo fato de ser frequentemente questionada em órgãos de defesa do consumidor por atrasos, falhas na entrega, e venda de produtos piratas. 

“O cliente do ecommerce brasileiro está cada vez mais se acostumando com uma qualidade melhor de serviços, por isso a Shopee ainda vai precisar ajustar muito a operação,” diz um executivo do setor. 

Para um gestor, enquanto os players de ecommerce no Brasil focam em GMV, a Shopee pensa em engajamento e ‘time spent’.

“O modelo de negócio da Shopee é focar em marketplace, ‘long tail’, ‘mobile first’ e em categorias de alta margem, como moda. O DNA é diferente, e da mesma forma que o Shopee venceu no Sudeste Asiático, parece que ela ‘pode’ vencer no Brasil”, diz.

Tanto a Shopee passou a ser um risco real, diz o gestor, que alguns analistas já estão mudando suas premissas de market share — na divulgação dos resultados da Magalu, alguns analistas avaliaram que o enfraquecimento das vendas teve um ‘fator Shopee’.

“É verdade que a estratégia inicial da Shopee aqui foi vender o que ninguém vendia, mas ela preocupa, porque ela não só vai querer como já está subindo na cadeia”, diz um analista. 

Ele acrescenta que a empresa tem um caminhão de dinheiro para isso; em setembro, a Sea Limited levantou US$ 6 bilhões com a emissão de ações e títulos conversíveis.

O Itaú BBA estima a Shopee deve fazer um GMV de R$ 12 bilhões no Brasil este ano, ou 7,5% do volume do ecommerce. Importante frisar que todas os números financeiros sobre a Shopee são estimativas, porque a empresa não publica dado nenhum.

Já a Shein vende roupas a preços baixos direto da China. Em maio, a empresa ultrapassou a Amazon como o app de compras mais popular no iPhone e no Android nos EUA.

Ano passado, a Shein vendeu quase US$ 10 bilhões em roupas, quase metade da receita da Inditex, a controladora da Zara. O  aplicativo da Shein tem mais de 22 milhões de usuários no mundo todo. Seu algoritmo vasculha a web e o próprio CRM da empresa para descobrir quais itens de moda estão sendo mais demandados pelos usuários. 

A Shein deve fazer mais de R$ 2 bilhões em vendas no Brasil este ano, o que já a torna um player relevante no segmento, segundo estimativas do BTG. 

Nesta história de sucesso, no entanto, não podia faltar uma pegadinha fiscal.

A empresa se beneficia de uma lei brasileira que isenta de impostos de importação produtos abaixo de US$ 50 — a maioria de seus itens. O preço competitivo compensa a demora de 30 dias para a entrega.