O apetite do CDPQ pelo Brasil continua alto.
Depois de pagar R$ 9,4 bilhões pelos ativos de transmissão da Equatorial no ano passado, o fundo de pensão canadense busca ativos para investir até US$ 2 bilhões por ano no País.
Nem mesmo as eleições de outubro diminuem o apetite do fundo – um gigante que administra US$ 350 bilhões no mundo, US$ 10 bilhões dos quais no Brasil, Eduardo Farhat, o managing director do CDPQ para a América Latina, disse ao Brazil Journal.
Para ele, o Brasil evoluiu bastante no setor de infraestrutura – e ainda pode ser beneficiado pela volatilidade causada por Donald Trump.

“O Brasil é um bom lugar para diversificar porque é pouco correlacionado com outras economias. O comércio exterior do Brasil é menos de 20% do PIB – às vezes 15%. Quando você compara com o México, é 85% com os EUA,” disse Farhat.
Entre as oportunidades que o CDPQ enxerga aqui, energia segue como destaque, mas Farhat acredita que transporte e saneamento terão mais espaço na carteira do fundo canadense.
No ano passado, o CDPQ anunciou o investimento de £ 1,7 bilhão por 20% da Sizewell C, uma usina nuclear de 3,2 GW no Reino Unido – seu primeiro investimento neste tipo de energia.
Segundo Farhat, a energia nuclear será indispensável para o mundo e o Brasil pode aproveitar esse bonde – especialmente com as reservas de urânio que o País tem. “Eu acho que se criou uma aura negativa [sobre a energia nuclear] no Brasil, que tem que ser um pouco exorcizada.”
Abaixo, os principais trechos da entrevista.
Quais os planos de investimento do CDPQ no Brasil?
Nosso objetivo é colocar de US$ 1 bilhão a US$ 2 bilhões todo ano no Brasil. A última vez que revisamos isso foi no horizonte de 2030. Meu CEO falou isso publicamente e não vemos motivo para mudar.
Mas se aparecerem mais oportunidades, temos tamanho para fazer investimentos de até US$ 5 bilhões em um ano.
A eleição de 2026 pesa na decisão?
Não é um driver pra mim. Estamos preocupados com a institucionalidade do País: preservação da legalidade, regulação e arcabouço, por exemplo. Se você tem uma concessão de 30 anos, um presidente mais alinhado ou menos alinhado é quase um custo pessoal.
O que mata investimento é atacar regulação. Em alguns lugares onde vimos isso acontecer, o custo é catastrófico: terra arrasada por 20 ou 30 anos. No Brasil, nossa experiência com regulação até hoje é superpositiva.
Os canadenses enxergam esse tipo de risco no Brasil?
A regulação é binária: ou existe ou não existe. E o Brasil tem preservado isso. A gente vê também evolução: contratos de concessões hoje são mais bem estruturados do que no passado.
Como o CDPQ vê o cenário global com Trump, tarifas e mais tensão geopolítica?
Qualquer investidor de longo prazo está revendo suas teses. A única coisa que dá pra garantir é que nunca mais vai ser como era.
Como um fundo canadense, naturalmente existe mais exposição aos Estados Unidos. Mas temos trabalhado para ser menos expostos ao mercado americano e nos internacionalizamos cedo: temos Nova York, Montreal, Londres, Paris, Mumbai, Singapura e Sydney. Isso dilui a importância de mercados específicos.
O Brasil pode atrair mais investimentos nesse cenário volátil?
O Brasil é um bom lugar para diversificar porque é pouco correlacionado com outras economias. O comércio exterior do Brasil é menos de 20% do PIB – às vezes 15%. Quando você compara com o México, é 85% com os EUA. Isso melhora a eficiência do portfólio: pouca correlação é valiosa.
Que setores da economia vocês consideram mais atrativos?
Buscamos investimentos de longo prazo, idealmente corrigidos pela inflação, com boa regulação. Infraestrutura naturalmente chama atenção porque existe um gap – e quando existe gap, temos papel em ajudar a fechar.
Vemos oportunidades em transmissão, geração e distribuição, mas também no setor de transporte.
O Brasil é continental e exporta muitas commodities: precisa de infraestrutura de transporte. Tem muita coisa acontecendo em ferrovias e rodovias.
Vocês já têm grandes investimentos em rodovias em outros países, mas não no Brasil. Por quê?
Olhamos mas não encontramos a melhor oportunidade, e não tendemos a entrar em transações pequenas. Para fazer sentido, tem que ter um tamanho mínimo: algo como US$ 600 milhões a US$ 1 bilhão de alocação.
O CDPQ fez um grande investimento em energia nuclear recentemente. Pode virar uma tendência global?
Eu acho um mercado interessante. É uma pena que o Brasil – com as reservas de urânio que temos – esteja tão limitado em termos de geração nuclear. É uma oportunidade perdida que poderia ser capturada: o urânio já está aí, não vai a lugar nenhum.
Hoje as tecnologias têm uma série de pesos e contrapesos para evitar acidentes. Eu acho que se criou uma aura negativa [sobre energia nuclear] no Brasil, que tem que ser um pouco exorcizada.
É possível mudar essa visão?
É preciso acabar com aquela visão de que energia nuclear tem que ser um monopólio estatal – que eu acho antiquada – porque “vai fazer uma bomba atômica”. Quando, na verdade, você pode fazer uma geração de energia totalmente passiva, muito inteligente, e explorar o potencial desse tipo de geração.
Você vê países como a França, com uma experiência excelente de energia nuclear. E vê o quanto custou para a Alemanha fazer o fechamento: ficaram muito expostos ao gás russo, na comparação. Por isso, é preciso repensar a regulação no Brasil.











