A companhia de águas e esgotos do Rio de Janeiro — uma estatal que muitas vezes parece não distinguir um do outro — transferiu hoje suas concessões à iniciativa privada num leilão que levantou R$ 22,7 bilhões com a venda de três dos quatro blocos à venda. 

O leilão — carregado de simbolismo — vem num momento em que o Rio de Janeiro tenta reerguer suas finanças e recuperar sua autoestima, e tem consequências para a saúde pública que transcendem em muito a esfera financeira.

298 anos depois da conclusão do Aqueduto da Carioca — mais conhecido como os Arcos da Lapa — que trouxe água encanada à cidade do Rio, cerca de 10% da população do Estado ainda não tem acesso a distribuição de água. 60% do esgoto ainda não é tratado. 

A Aegea — a segunda maior operadora privada do País, fortalecida depois que a Itaúsa comprou 10% de seu capital esta semana — foi a grande vencedora do leilão, levando dois dos quatro blocos ofertados. 

Para levar o bloco 1 — que engloba a Zona Sul do Rio de Janeiro e mais 18 municípios do Estado, incluindo São Gonçalo — a Aegea venceu outros três consórcios pagando uma outorga de R$ 8,2 bilhões, um ágio de 103% em relação ao preço do edital. 

Já o bloco 4, que inclui as regiões mais pobres do Centro e Zona Norte da Cidade Maravilhosa e outros 8 municípios de alta densidade demográfica, a Aegea levou com uma outorga de R$ 7,2 bi, um ágio de 187%. A segunda maior oferta foi da Equatorial Energia, de R$ 7,1 bi. 

No bloco 2, o vencedor foi a Iguá Saneamento, que pagou uma outorga de R$ 7,2 bilhões, um ágio de 129%. O bloco 3, que tinha uma outorga mínima de pouco mais de R$ 900 mi, não atraiu interessados.

Para a Aegea, o leilão de hoje deve dobrar ou triplicar o tamanho da empresa (dependendo das métricas utilizadas) e consolidar os planos para um IPO, provavelmente em 2022.  Além da Itaúsa, o GIC tem 20% do capital da companhia.

Os recursos do leilão são um alívio para os cofres do Rio, um dos estados com a situação fiscal mais frágil. Do valor total das outorgas, 60% serão pagos na assinatura do contrato, por volta de julho-agosto, outros 15% seis meses depois, e o restante dois anos depois.

O BNDES estima que os vencedores do leilão terão que investir R$ 33,5 bilhões nos próximos 35 anos para universalizar os serviços, mas as companhias podem entregar os investimentos exigidos com um capex menor, aumentando o retorno do investimento. 

Na coleta de esgoto, a meta é sair de 44% hoje para 90% em 20 anos. No tratamento, sair de 26% para 100% no mesmo prazo.

A projeção é que as concessões de hoje multipliquem por 10 o investimento anual que a CEDAE fazia nos quatro blocos. Enquanto a estatal investiu uma média de R$ 178 milhões por ano nos últimos dez anos, os novos operadores devem aportar uma média de R$ 2 bi/ano até 2031. 

“Isso é transformacional para o Rio,” disse o dono de uma gestora do Leblon. “Imagina essa Baía de Guanabara limpa. Isso aqui vai virar Sydney, só que muito mais bonita.”