A ação da Natura&Co despencou 15,5% hoje depois que a  companhia fez reuniões com diversos analistas do sellside para falar sobre os resultados do primeiro trimestre. 

“A Natura fez um quente/frio antes da divulgação de resultados para alinhar as expectativas do sellside…” disse um gestor.  “Quiseram evitar uma catástrofe na ação no dia da divulgação do resultado… mas acabaram antecipando a catástrofe para hoje.”

Para outro gestor, a Natura — que em novembro perdeu 20% de seu valor de mercado em um dia depois de um terceiro tri pavoroso — tem um problema de comunicação com os investidores.

“Cantaram a bola do resultado inteiro, que vem muito fraco, novamente. Em vez de fazerem isso de forma democrática com todo o mercado, fizeram um preview detalhado com o sellside,” ele disse. 

Apesar de um ‘soft guidance’ aos analistas antes do resultado ser uma prática comum no mercado, chamou a atenção neste caso o nível de detalhamento fornecido pela companhia e o fato das conversas terem sido concentradas no mesmo dia.

“Pelo jeito eles agendaram vários calls ao longo do dia, e quem ouviu primeiro foi vendendo forte,” disse um gestor. “Eles já vinham guiando mercado para baixo, dizendo que 1T22 seria bem fraco desde o momento que comentavam o 4T21. Mas pelo jeito vem mais fraco do que esperavam.”

Perto do fechamento do pregão, a XP publicou um relatório dizendo que espera um trimestre fraco para a Natura por conta dos desafios da Avon e da The Body Shop.

A XP está esperando que a receita líquida da Natura caia 14,5% em relação ao primeiro tri do ano passado e fique em R$ 8 bilhões. Já o EBITDA deve mergulhar 46%, e a margem EBITDA colapsar para 6,5% ante 10,2% no mesmo tri do ano passado.

A XP estima um prejuízo de R$ 222 milhões para a Natura no trimestre.

“Os números devem vir abaixo do consenso, mas já esperávamos um primeiro semestre difícil para a empresa. Só deveremos ver resultados mais concretos da reestruturação da Avon, o principal pilar do nosso ‘Buy’ na ação, a partir do segundo semestre,” escreveram os analistas Danniela Eiger, Gustavo Senday e Thiago Suedt, da XP.

A performance ainda fraca da companhia é explicada em grande parte pelo desempenho da Avon Internacional, que responde por 22% das vendas do grupo e deverá reportar no primeiro tri uma queda de 24% nas vendas líquidas, por conta do conflito Rússia-Ucrânia; a XP estima que os dois países respondam por cerca de 20% das vendas da operação. Além disso, houve também o impacto negativo do câmbio, já que o real se valorizou 25% em relação ao euro. 

Outro destaque negativo foi a The Body Shop, que hoje é 12% do grupo e deve ter queda de 25,5% nas vendas, com a operação do varejo físico ainda abaixo dos níveis de 2019 e o ecommerce desacelerando. 

Para a Natura&Co LatAm, que responde por 58% das vendas do grupo, a XP estima queda de 10% nas vendas líquidas. Segundo os analistas, um crescimento de cerca de 3,5% da Natura Brasil não foi suficiente para compensar o resultado ainda muito fraco da Avon LatAm, que deve ter queda de 17% nas vendas. 

A Natura fechou o dia valendo R$ 29,5 bi, com o papel a R$ 21,35.