Quando a temperatura caiu a menos de 5ºC em alguns pontos da cidade semana passada, um homem de 66 anos morreu na porta de um abrigo municipal na Zona Leste.

Ele havia passado a noite na rua e sofreu uma convulsão enquanto esperava para tomar o café da manhã que o abrigo oferece aos desamparados.

Pouco depois, chegando ao local, o padre Júlio Lancellotti acudiu uma pessoa sofrendo de hipotermia. “Se a situação aqui está assim, imagina por aí,” lamentou o padre que já viu de tudo, desta vez com a voz embargada.

A miséria nas ruas está tão sufocante que até os brutos choram.

Muito longe do conforto dos Jardins ou dos luxos da Faria Lima, que às vezes tolamente pensamos ser essenciais, há mais de três décadas o padre Lancellotti mergulha na tragédia social brasileira para fazer a obra que os cristãos reconhecem em Jesus e que os judeus chamam de Tzedaká – “justiça social” – um dos preceitos basilares da sua religião.

Como coordenador da Pastoral do Povo de Rua, o Padre é um Dom Quixote contemporâneo lutando contra gigantes reais: uma crise social endêmica ao Brasil, agora agravada pela pandemia.

Um Censo da Prefeitura publicado no início do ano contou 32 mil pessoas em situação de rua em São Paulo, dormindo nas calçadas, debaixo dos viadutos, nas praças e em outros espaços públicos. São quase 8.000 a mais do que o número registrado em 2019 – uma alta de 33%.

A Prefeitura e o Governo do estado debatem maneiras de lidar com a situação, mas o frio intenso chegou antes das soluções.

Os paulistanos enfrentam o maio mais gelado em três décadas, com os termômetros permanecendo abaixo dos 10° C durante a noite. Imagine você e sua família: na rua, sem teto.

Em meio à omissão dos governos, a caridade e a abnegação de voluntários são o que alivia o drama dos moradores de rua – e, em São Paulo, talvez a face mais pública desse trabalho solidário seja o padre Júlio.

Detentos, refugiados, pessoas LGBTQIA+ vítimas de preconceito, dependentes químicos sem lar: onde há marginalizados, o padre está lá, seguindo a máxima franciscana de levar esperança onde houver desespero.

“A gente tem que sair da insensibilidade para o aquecimento da caridade,” o padre disse numa noite fria recente. “Sair da hos-ti-li-dade para a hos-pi-ta-lidade.”  (Ele fala assim mesmo, separando as sílabas, como se explicasse algo complexo, mas terrivelmente simples.)

Nascido no Brás em 1948, filho de um comerciante descendente de italianos, Júlio Renato Lancellotti é pároco da Igreja São Miguel Arcanjo, na Mooca, desde 1986. Foi lá que iniciou seu trabalho pastoral com menores abandonados e moradores de rua.

Nos anos 1990, no auge da crise da segurança pública na Grande São Paulo, ia para a porta de uma unidade da antiga Febem ou para o portão de um presídio sempre que eclodia uma rebelião. Denunciava maus tratos ou a violência desmedida da polícia, que esta semana, muito longe dali, levou um Jesus – Genivaldo de Jesus.

A causa da vida do Padre Júlio é enfrentar os preconceitos contra os estigmatizados. A Casa Vida, que ele fundou para acolher crianças órfãs portadoras de HIV, teve como madrinha e apoiadora a princesa Diana.

Em sua trajetória, padre Júlio coleciona momentos como o beijo nos pés de uma transexual na Via Sacra do Povo de Rua, às vésperas da Páscoa em 2016 – quando as pessoas trans tinham uma fração da visibilidade de hoje.

No ano passado, o padre quebrou a marretadas os blocos de paralelepípedos “antimendigos” instalados pela prefeitura debaixo de um viaduto na Zona Leste.

“Mudam governos, mas a estratégia continua errada. Não podemos tratar os moradores de rua como uma questão de segurança pública”, o Padre Júlio disse ao Brazil Journal, comentando as recentes ações de dispersão da Cracolândia. “É necessária uma ação multidisciplinar, de assistência social, não de repressão e intimidação com a polícia. Acreditam que combater os sintomas vai resolver as causas. Essas ações mantêm a miséria, não levam à autonomia das pessoas.”

Padre Júlio acredita na necessidade de investir na locação social para abrigar as pessoas sem teto e realizar um trabalho de assistência que emancipe essas pessoas. “Os custos seriam menores do que as políticas atuais, de combate às consequências,” diz ele.

Na última edição da Brazil Conference, organizada pelos brasileiros alunos de Harvard e do MIT, o Padre falou no painel “Instigando Caminhos para Reverter a Pobreza no Brasil”, um dos mais concorridos.

“Muitas vezes o Poder Público fica parado no lugar esperando que as pessoas [desamparadas] venham,” ele disse numa entrevista recente.  “O movimento tem que ser o contrário: a gente tem que ir ao encontro deles onde eles estão. A verdadeira caridade não é burocrática, é diligente; ela vai ao encontro de quem precisa.”

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Como sair da inércia

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