Durante anos, a Localiza&Co foi aquela ação que a maioria dos gestores queria comprar – mas com um múltiplo que chegou a ultrapassar 40x lucro, muitos tinham medo de pagar caro.
Até que a empresa enfrentou um período dificílimo no pós-pandemia, em que as mudanças no mercado de veículos – e a maneira como o management reagiu a isso – afetaram os resultados e colocaram em dúvida as perspectivas para o negócio.
A ação chegou a cair quase 60% entre o fim de 2023 e o início de 2025. Mas era cedo para dizer que o preço estava razoável.
Até agora.
Uma combinação entre um cenário macro mais favorável, com a expectativa de queda da Selic, e os ajustes feitos pela locadora têm levado analistas e gestores a ficar mais otimistas com a empresa – ao menos no curto prazo.
Para o BTG Pactual, o bull case da Localiza “tem margem para upside”. O banco aumentou recentemente o preço-alvo da ação para R$ 55 (o papel negocia ao redor de R$ 44 depois de subir quase 40% no ano passado).

Uma pesquisa feita pelo Itaú BBA com gestores no começo de dezembro mostrou que 25% deles veem a Localiza com a large cap que mais deve valorizar nos próximos seis meses (em agosto, o percentual estava em 15%). Entre os estrangeiros, 22% têm essa expectativa, ante apenas 4% em agosto.
“Adotamos uma estratégia clara para recompor o ROIC spread e temos alcançado números consistentes,” o CEO Bruno Lasansky disse ao Brazil Journal.
O ROIC spread – que mede a diferença entre o retorno sobre o capital investido e o custo do capital – estava em 4,5 pontos percentuais no último trimestre reportado. Com isso, está acima dos 3,1 pontos de 2024 – mas ainda abaixo da média histórica de cerca de 8 pontos.
O maior problema da Localiza nos últimos dois anos foi a depreciação – a diferença entre o preço de compra e a estimativa do valor de venda dos carros, descontadas as despesas para vender.
Durante a pandemia, a falta de peças e componentes aumentou o preço dos carros novos. A reação da Localiza, segundo um gestor que investe na empresa há anos, foi reduzir as compras para evitar pagar caro e não conseguir repassar essa alta na venda.
A consequência foi que a frota envelheceu e o custo de manutenção subiu. Ainda assim, a empresa precisou comprar – e pagou caro.
A depreciação, que historicamente girava em torno de 5% a 7% ao ano, chegou a dobrar.
O impacto no lucro foi dramático. A Localiza é dona de uma frota de cerca de 630 mil veículos, com um valor total de aproximadamente R$ 50 bilhões. Se erra em 2% a estimativa de venda dos carros, o efeito contábil é de R$ 1 bilhão.
Para incorporar a nova realidade ao balanço, a empresa fez um impairment em 2024 – que assustou o mercado.
Nos últimos meses, com o mercado caminhando para a normalização, a depreciação voltou para cerca de 7% (o topo da banda histórica). “Operamos assumindo esse nível de depreciação e sendo conservadores na precificação,” disse Lasansky. “O que afeta a empresa não é o valor absoluto, mas a variação.”
A empresa fez mais um impairment no terceiro trimestre para incorporar os efeitos da redução do IPI para carros menos poluentes. Dessa vez, dentro do esperado.
Além disso, está “limpando” a base de veículos: os bem precificados estão substituindo os que foram comprados nos períodos problemáticos.
Do lado operacional, a empresa cortou custos, reduziu a quantidade de veículos de “uso severo” (como pick-ups para o agro), cujas margens são menores, agregou serviços aos alugueis para elevar o valor das diárias e investiu numa plataforma digital de locação que dispensa atendentes.
Foi um alívio.
“As safras bem precificadas estão ganhando espaço e a empresa foi mais cautelosa que o necessário. Do ponto de vista operacional, o case está ok,” disse o gestor que tem a ação.
Com o operacional ajustado, a queda de juros esperada para este ano – se acontecer! – tende a beneficiar a Localiza ao ampliar seu mercado endereçável, ou seja, a quantidade de pessoas com capacidade financeira para comprar e alugar carros.
Também reduz o custo do financiamento, o que tem um impacto relevante num negócio de capital intensivo como o da Localiza.
Segundo o BTG, nos últimos três anos a empresa investiu 58% de seu valor de mercado na compra de veículos. A despesa financeira consumiu 12% da receita nesse período, contra uma média histórica de 7%.
Um gestor estima que, se a Selic cair para 12%, a Localiza teria uma injeção de cerca de R$ 750 milhões no lucro líquido em 2026. O consenso de mercado aponta para um lucro de R$ 4,2 bilhões este ano, mais que o dobro de 2024.
Por fim, a ação negocia hoje em torno de 11 vezes o lucro esperado para este ano, menos da metade da média histórica, de 26x.
O que pode dar errado? Para alguns gestores, o médio prazo.
“A confusão passou, mas a preocupação com a tendência do negócio, não,” disse um gestor que não tem a ação.
A dúvida é qual será o impacto da maior entrada de carros chineses – elétricos e principalmente híbridos, todos com preços mais baixos – no mercado brasileiro, e como a empresa de Belo Horizonte absorverá isso.
Se as chinesas pressionarem o mercado a ponto de fazer o preço médio cair, a Localiza voltará a ter o mesmo problema de depreciação, com um estoque comprado a valores elevados e preços mais baixos na revenda.
Quando se ajustar, pode ser beneficiada, já que pagará menos para comprar carros – e, com preços mais baixos, o mercado endereçável também cresce.
“A questão é quanto tempo ela ficará enxugando gelo,” diz esse gestor que não tem a ação.
Segundo Lasansky, os ajustes dos últimos meses – com custos menores, margens maiores e precificação mais conservadora – prepararam a empresa para um cenário mais desafiador de preços.
Mas por enquanto, disse ele, não parece que os preços vão cair tanto assim. “As montadoras chinesas importaram dezenas de milhares de carros e poderiam ter vendido mais por valores menores, mas não fizeram isso.”
Uma dúvida é como será a depreciação de um carro elétrico ou híbrido. Lasansky disse que a Localiza desenvolveu um modelo proprietário para estimar isso. “Não tem problema se for maior, basta que esteja no nosso modelo, o que nos permite gerenciar o risco.”
Por fim, existe uma discussão sobre se as montadoras chinesas estão dispostas a vender para as locadoras – ou se preferem se concentrar nos consumidores finais, com margens maiores.
O CEO lembra que montadoras como BYD e GWM já inauguraram fábricas no Brasil. Com isso, além de competirem em pé de igualdade com outras montadoras instaladas aqui, também precisarão de escala para vender.
“Nisso, a Localiza pode ser um parceiro estratégico excepcional. Aguardem que em breve teremos novidades sobre esse assunto,” disse Lasansky.
Segundo pessoas próximas à empresa, a Localiza está negociando um contrato de compra de veículos com a BYD.






