O político piauiense-fluminense Wellington Moreira Franco é a confluência de muitas vertentes, algumas delas aparentemente díspares.
Amigo de infância do poeta Torquato Neto – o tropicalista talentoso e deprimido que se suicidou no dia em que fez 28 anos – Moreira Franco, ao contrário, sempre demonstrou menos poesia e mais pragmatismo.
Assim, na época da morte do colega, em novembro de 1972, ele já estava no Rio e, no mesmo ano, dava um rumo a suas pretensões políticas filiando-se ao MDB.
Moreira já era também, naquele momento, o genro do genro. Três anos antes, havia se casado com Celina Vargas do Amaral Peixoto, filha do almirante Ernani do Amaral Peixoto – genro de Getúlio – e de Alzira, a filha preferida do líder trabalhista.
Em um país avaro em relatos memorialísticos de nomes da política, dos negócios e da cultura, o livro Moreira Franco – Política como Destino mapeia a trajetória do ex-governador do Rio e recupera boa parte dos fatos ligados à geração de políticos que fez a transição da ditadura para a democracia. (Compre aqui)
O livro também se soma a outros relatos semelhantes, no estilo pergunta-resposta, de figuras como o general Ernesto Geisel e os senadores Affonso Arinos, Roberto Campos e Amaral Peixoto – alguns destes, por exemplo, integram os projetos do CPDOC (o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil) da FGV, referência na preservação da memória nacional.

Pelo MDB, Moreira Franco se elegeria em 1974, favorecido não apenas pelos laços familiares mas também pela surpreendente performance emedebista: o partido elegeu 16 senadores e formou bancadas representativas no Rio, São Paulo e Minas.
A escalada política seguiria com uma passagem pela prefeitura de Niterói e uma troca inesperada de partido. Com a abertura política, Moreira, seguindo orientação do sogro (já em um novo mandato de senador, agora biônico), deixou a oposição e aceitou o convite do General João Figueiredo para se filiar ao PDS. Começava assim uma proximidade constante com o poder oficial.
Com o apoio de Figueiredo, Moreira saiu candidato a governador. Perdeu mas ganhou. O favorito, como já indicavam as pesquisas, era Leonel Brizola, que foi eleito – mas Moreira conseguiu superar a lacerdista Sandra Cavalcanti e o chaguista Miro Teixeira.
Em 1986, fortalecido pela campanha e pelo tsunami eleitoral provocado pelo Plano Cruzado, Moreira chegou ao ponto culminante de sua carreira: o governo do Rio.
À frente de uma coligação que tinha o PMDB como eixo central e era sustentada por um espectro de apoios que ia do PCdoB do metalúrgico Edmilson Valentim ao PFL do ex-udenista Affonso Arinos – passando por brizolistas arrependidos como José Colagrossi – Moreira Franco pacificou o partido e se viabilizou.
Com essa força – e também com o apoio da Globo – Moreira Franco derrotou a mesma corrente política que o derrotara quatro anos antes.
Curiosamente, em seu relato ele dedica mais tempo à campanha derrotada do que à vitoriosa. Faz revelações óbvias, como o respeito pela conduta política do sogro (chamado sempre de senador), mas também revela surpresas.
A maior delas talvez seja a confissão sobre o bom convívio que teve com Brizola. Moreira admite que foram muitas as conversas entre ele, Brizola e Amaral Peixoto em que foram analisadas as possibilidades de marcharem juntos no PTB. “Somos todos galhos de uma mesma árvore, o trabalhismo de Getúlio Vargas,” admitiu.
Concluído o mandato em 1990, Moreira, nesse meio tempo, viu se confirmar a vitória de Ulysses na convenção do PMDB em 1989, sua posterior derrota na campanha presidencial e o surgimento de Fernando Collor, a quem não apoiou, votando em Lula naquele segundo turno.
Moreira Franco só voltaria ao primeiro plano com o governo FHC. Seria um dos líderes do PMDB que buscava compor com os tucanos. Teria dois mandatos como deputado, mas amargaria uma derrota para o Senado em 1998.
No governo Lula, Moreira, integrante do núcleo ligado a Michel Temer, tornou-se um dos articuladores do apoio do PMDB ao PT. Nomeado para uma das vice-presidências da Caixa, engajou-se na campanha de Dilma Rousseff.

É a partir desse momento – seja pela proximidade com os fatos recentes, seja pela avaliação dos personagens ainda tão atuais – que o livro ganha um rumo interessante.
Sobre Eduardo Cunha, Moreira lembra a definição feita por um amigo, a de que era alguém “com um tipo de inteligência que, pelos seus méritos, se transformava numa pessoa capaz, muito capaz. Capaz de tudo.”
Sobre Dilma, Moreira ressalta a inabilidade política da Presidente e os atritos provocados por seu temperamento, em especial nas reuniões ministeriais. “Se ela tivesse que enfrentar algo simples, ia buscar o conflito e sempre agravava o seu potencial fazendo crescer o problema”.
A situação de Moreira Franco – e a do Brasil – melhoraria com a posse de Temer. No novo governo, onde ocuparia dois novos ministérios, o da Minas e Energia e a secretaria-geral da Presidência, ele aumentou seu protagonismo.
Tamanha exposição colocou Moreira na mira. Detido após ter deixado o governo, em uma ação policial promovida pelo Ministério Público e pelo juiz Marcelo Brêtas, o ex-governador lembra que foi vítima não de uma detenção, mas “de um sequestro”. E conclui: “Com base nas condutas anteriores do Dr. Brêtas, eu seria mais uma vítima de suas arbitrariedades”.
O livro é enorme: 1.048 páginas. O entrevistado e os leitores ganhariam em tempo e qualidade se houvesse um trabalho melhor de edição, enxugando um pouco e dando mais objetividade ao extenso relato.
Mas ainda assim é interessante acompanhar o itinerário do jovem nordestino que veio para o Rio na década de 60, caiu na política estudantil de combate à ditadura e se transformou em militante político.
Hoje com 81 anos, Moreira faz um balanço pragmático de sua geração: “Conquistamos a democracia, mas perdemos a possibilidade de mudar o País.”











