Uma operação de inteligência conjunta entre o México e os EUA deu fim a uma caçada de décadas, que tinha como alvo um dos traficantes mais procurados do mundo – e cuja cabeça estava a prêmio por US$ 15 milhões.
Rastreando uma das amantes do criminoso, forças militares mexicanas localizaram Nemesio Oseguera Cervantes, vulgo El Mencho – o fundador e chefe do Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), uma das principais organizações criminosas do México.
O traficante e seus guarda-costas reagiram e tentaram fugir, mas segundo o secretário de Defesa do México, foram gravemente feridos e morreram quando levados para o hospital.
A operação demonstrou que o Governo de Claudia Sheinbaum vem trabalhando ao lado dos EUA depois das ameaças de Donald Trump de realizar ações militares unilaterais contra as organizações criminosas mexicanas – sobretudo no que diz respeito ao tráfico do fentanil e de imigrantes, dois dos principais alvos da política de segurança pública do Presidente americano.

Numa coletiva de imprensa hoje pela manhã, Sheinbaum destacou que embora Washington tenha fornecido informações que ajudaram a localizar o chefão, os militares mexicanos atuaram de maneira autônoma.
“É muito importante ressaltar que as operações são realizadas por forças federais,” afirmou. “Não há envolvimento de forças americanas, mas sim uma troca significativa de informações.”
Trump, em suas redes sociais, disse que o “México precisa intensificar seus esforços no combate aos cartéis e às drogas!”
Ex-policial, Oseguera – morto aos 59 anos – iniciou sua trajetória no narcotráfico ainda na juventude, como imigrante ilegal nos EUA. Vendia heroína em bares e discotecas de São Francisco.
Foi preso e deportado mais de uma vez. São desse período, há mais de trinta anos, as poucas fotos até então conhecidas do criminoso – e estampadas nos anúncios de ‘Procurado’ com uma recompensa que recentemente chegou a US$ 15 milhões.
A partir daquele período, não houve novos registros fotográficos – e, de pequeno traficante, Oseguera emergiu como um dos criadores e líder de uma das mais poderosas organizações criminosas do México.
Com ramificações nos EUA e em outros países do continente, o cartel é um dos mais atuantes no comércio ilegal de fentanil – o grande alvo da repressão de Trump, ao lado dos imigrantes ilegais.
O Cartel de Jalisco tem também um histórico de dezenas de atentados contra autoridades, extorsão de empresários e pequenos comerciantes, roubo de combustível, sequestros e execuções aos montes – incluindo diversos assassinatos de políticos, juízes e militares.
Em 2020, o então Secretário de Segurança da Cidade do México, Omar García Harfuch, sobreviveu a um ataque ordenado por El Mencho. Também ex-policial, Harfuch é hoje secretário de Segurança Cidadã.

De maneira similar às facções e milícias brasileiras, os cartéis mexicanos dominam áreas inteiras onde o Estado perdeu o controle territorial. O Cartel de Jalisco, uma força paramilitar altamente municiada por armas trazidas dos EUA – atua como um poder paralelo, cobrando pela proteção, vendendo serviços, distribuindo remédios e alimentos aos mais pobres.
No domingo, logo depois da confirmação na notícia da morte do chefão, uma violenta onda de atentados aterrorizou diversas regiões do estado de Jalisco – mundialmente famoso por seus balneários no Pacífico e por ser o berço da tequila e dos mariachis.
Em Puerto Vallarta, cidade litorânea de pouco menos de 600 mil habitantes na costa do Pacífico repleta de resorts frequentados por americanos e canadenses, os criminosos incendiaram lojas, carros e ônibus.
Guadalajara, a terceira maior cidade do país e capital do estado, foi tomada pelo terror. Houve ainda represálias dos traficantes em diversas outras cidades.
Segundo o Governo do México, mais de trinta criminosos e suspeitos perderam a vida na operação de captura de El Mencho e nos conflitos armados que se seguiram à sua morte. Na Guarda Nacional, o número de mortos chegou a 25. Houve ainda mortes de civis, entre eles uma mulher grávida.
O pesquisador Will Freeman, do Council on Foreign Relations, disse ao Wall Street Journal que a violência na reação denota uma tentativa de os criminosos imporem uma “linha vermelha”.
“Eles deram uma resposta calculada quando o Estado ultrapassou esses limites,” disse Freeman. “Isso mostra que havia um plano em ação.”
Apesar de a morte de El Mencho ter sido festejada pelas autoridades como um golpe decisivo contra uma das mais poderosas organizações criminosas, analistas dizem ser improvável que a queda do chefão signifique o fim de sua organização.
O México já viveu no passado recentes duas grandes ondas de violência na guerra entre o crime e forças do Governo, em 2009 e 2019. O crime soube se reorganizar e continuou prosperando, até porque está entranhado nas instituições do país.
A história de El Mencho comprova isso.
Segundo o New York Times, a facção de Jalisco nasceu das ruínas de outro grupo de narcotraficantes, o Cartel Milênio, que havia se desintegrado em lutas internas após a captura e morte de seus chefões. Em 2009, Oseguera saiu vitorioso – e fundou seu próprio cartel.
Para Trump, é provável que a morte do traficante seja uma notícia positiva, disse ao New York Times o analista mexicano David Saucedo. Para o México, contudo, pode ser o início de novos problemas, diante da provável disputa pelo poder. “É uma má notícia, porque cartéis menores significam cartéis mais violentos. Haverá aumento de homicídios e outros crimes.”











