Gustavo Franco tem uma boa e uma má notícia em relação ao Banco Central. 

A boa: o anúncio de que Lula deve manter Roberto Campos Neto à frente do BC — uma notícia que mostra a maturidade institucional da independência do Banco Central. 

“Isso trouxe uma tranquilidade na transição e é uma ideia vitoriosa,” Gustavo disse durante um debate com Affonso Celso Pastore no Itaú Macro Vision hoje à tarde em São Paulo

A má notícia: o presidente do BC terá que enfrentar o maior pesadelo de todos os bancos centrais, que é lidar com o seu acionista (o governo) pressionando para o BC pagar as contas. 

“A parte mais difícil vai ser a convivência do Roberto com o presidente Lula,” disse ele. “Me recordo o que aconteceu com o primeiro presidente da CVM que entrou um ou dois anos dentro do mandato do presidente seguinte, o Leonardo Cantidiano. Ele foi nomeado pelo FHC e tinha mais dois anos de mandato no governo Lula. Ele ia contrariado para Brasília toda vez porque eles davam chá de cadeira nele, faziam bullying. Ele quase pediu demissão.”

Para ele, essa relação deve ser colocada à prova na reunião de março do Copom — a primeira quando já se terá uma visibilidade do tamanho do risco fiscal. 

“Se em março o risco fiscal estiver com uma cara muito ruim, o Roberto vai ter que subir o juros e aí quero ver se vai ter recondução…”

No painel — mediado pelo economista-chefe do Itaú, Mário Mesquita — os dois ex-presidentes do BC debateram também a perspectiva do novo governo voltar a usar os bancos públicos para dar subsídios — e o impacto que isso teria na condução da política monetária.

Para Pastore, caso o governo volte a usar o BNDES para dar subsídios, isso terá um efeito negativo sobre a taxa neutra de juros, fazendo com que ela suba depois de ter caído com a aprovação de reformas importantes nos últimos anos.

“A esquerda tem uma preferência enorme por subsídio, e por direcionar o crédito subsidiado para quem tem um lobby maior para se aproximar da estatal,” disse ele. “Não sou liberal à la Paulo Guedes de achar que o Estado tem que ser mínimo… Eu acho que Estado tem um papel enorme na distribuição de renda. Mas é muito melhor uma alocação de recursos usando o mercado de capitais, com uma taxa neutra baixa, do que o inverso.”

Gustavo disse que um ângulo interessante na discussão da taxa neutra de juros é um velho assunto dos Bancos Centrais: tentar convencer Brasília de que existe um componente fiscal na taxa de juros. Ou, em bom português, que “se eles fizerem política fiscal doida o juros sobe.” 

“Eles não querem entender assim porque não querem assumir a culpa dos juros serem tão altos assim. Falam que isso é culpa de vocês economistas do BC, que ‘a gente só faz bem e que vocês sobem o juros por maldade’,” disse ele. “Temos que destruir essa lógica.”