Em 1948, o pintor Amadeo Luciano Lorenzato escreveu no verso de um dos seus quadros uma descrição sobre si mesmo: “Pintor autodidata & franco atirador. Não tem escola. Não segue tendências. Não pertence a igrejinhas. Pinta conforme lhe dá na telha. Amém.”

Lorenzato não estudou arte formalmente.  Ganhou a vida como pintor na construção civil e importava as técnicas da pintura de parede para as telas. Original e intuitivo, produzia sua própria tinta e “inventou” o uso de pentes (aqueles mesmo, de cabelo!) em complemento ao tradicional uso de pinceis. Atento observador do seu entorno, desenhava o que via até no verso do maço de cigarro para depois usar como inspiração em uma obra. 

A exposição “Lorenzato: Paisagens” – que abrirá em São Paulo no próximo dia 9 na galeria Gomide&Co – traz um recorte de sua vasta obra, focado, como o título diz, em paisagens. Além das telas, os pentes e demais utensílios do processo único de Lorenzato estarão em exibição, emprestados da coleção do Museu do Cotidiano, em Belo Horizonte, o que torna a visita ainda mais imperdível.

Filho de imigrantes italianos, Lorenzato nasceu em Minas Gerais, em 1900.  Nos anos 20, foi morar na Itália com seus pais – fugindo da gripe espanhola – e começou a trabalhar como pintor de paredes. Mais tarde, conheceu um pintor nômade holandês e viajaram juntos por vários países da Europa, visitando museus e igrejas, e trabalhando na reforma de algumas delas. Nos anos 30, participou do restauro dos afrescos de Rafael Sanzio, na Villa Farnesina, em Roma, e nos aposentos do Papa, na residência de Castelgandolfo. 

Em 1948, depois da Segunda Guerra, retornou ao Brasil, inicialmente para trabalhar na reforma do icônico Hotel Quitandinha, em Petrópolis. Mas seu coração era mineiro e logo retornou a BH, onde seguiu trabalhando na construção civil até se aposentar em função de um acidente de trabalho, em 1956.

Lorenzato não tinha aspirações financeiras além do necessário para sua subsistência e a de sua família. Com uma renda fixa, vinda da aposentadoria por invalidez, passou a se dedicar integralmente ao que amava. Sua primeira exposição individual aconteceu em 1957, no Minas Tênis Clube. A partir desse período passou a vender mais, inicialmente cobrando o preço de custo. Depois fixou o valor da qualquer obra a meio salário-mínimo. 

No entanto, a vida modesta, quase monástica, o fez ficar isolado do mercado de artes, praticamente no anonimato e, de certa forma, incompreendido.

Apesar de reconhecido por alguns críticos e artistas mineiros, sua arte não ultrapassava os limites de Minas, pois era considerada primitiva, naif ou popular. É comum adicionar uma carga pejorativa ao popular, desqualificando-o por falta de estudo formal, de conhecimento histórico ou amplitude cultural. O que é limitante e injusto, como qualquer tipo de preconceito. 

Curioso (e triste) que o pensamento dominante à época achasse que uma pessoa de condições simples não pudesse ser sofisticada e dotada de imensa sensibilidade, como indivíduo e como artista. (Será que algo mudou?) Como escreveu o crítico de arte Rodrigo Moura, Lorenzato é popular e erudito, refletindo em sua pintura um poder de síntese artística raro.

“Eu era pintor, especialista em decoração com estambres marmorizados, fingimento de mármore e madeira; se fazia o fundo de óleo, depois as veias em amarelo, vermelho, preto, e depois com o pente a gente arrematava. (…) Primeiro eu pinto, espalho a tinta de diversas cores, e depois com o pente eu vou fundindo. É uma característica minha. Sou o único pintor no mundo que pinta assim,” explicou numa entrevista. O escultor Amílcar de Castro, amigo e fã do trabalho de Lorenzato, brincava que Lorenzato “penteava” muito bem a pintura.

A exposição na Gomide&Co é a segunda mostra do artista na galeria – a primeira, em 2014, buscava apresentar o trabalho de Lorenzato ao mercado. Em 2019, a prestigiosa galeria David Zwirner também fez uma individual do artista em Londres. 

Com preços dolarizados (melhor nem pensar na libra esterlina), Lorenzato se espantaria com as centenas de salários mínimos que hoje são necessários para comprar uma obra sua (quase todas vendidas mesmo antes da abertura). O que, para um homem verdadeiramente livre como ele, duvido que importasse.