Algumas empresas estão enviando equipes ao aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro – e não é para viajar.

Elas estudam detalhes técnicos do terminal, cuja concessão será leiloada pelo Governo Federal em 30 de março.

O Ministério dos Portos e Aeroportos acaba de concluir um roadshow com potenciais interessados, e disse que seis grupos participaram das reuniões. 

“Vai ter competição. É o grande evento do ano no setor,” uma pessoa que acompanha o processo disse ao Brazil Journal

Com preço mínimo de R$ 932 milhões, o leilão vem após uma repactuação contratual com os concessionários atuais e marcará a saída da Infraero da operação.

A Vinci Compass e a operadora Changi, que hoje controlam o aeroporto, formam o consórcio favorito, mas pelo menos dois grupos, a Aena e a Zurich, devem tentar competir, disseram três fontes do setor.

O leilão também deve encerrar uma novela sobre o destino de um dos maiores aeroportos da América Latina após anos de incertezas.

A concessão do Aeroporto Internacional Tom Jobim, o Galeão, foi colocada em leilão inicialmente em 2013, no auge do otimismo com o Rio de Janeiro, antes da Copa e das Olimpíadas no Brasil.

Na época, a Odebrecht se associou à Changi, de Singapura, para uma oferta de R$ 19 bilhões por 51% do terminal – um ágio de 294% sobre o preço mínimo. 

No final de 2017, sofrendo impactos da Operação Lava Jato, a Odebrecht repassou sua fatia à Changi. Na época, com o tráfego do Galeão prejudicado pela recessão épica do Governo Dilma, os concessionários já tentavam renegociar os pagamentos da outorga ao Governo.

A Changi chegou a pedir arrego (em carioquês: devolver a concessão) em 2022, mas depois começou a negociar uma repactuação. Em agosto passado, o grupo vendeu 70% de sua participação à gestora de investimentos alternativos Vinci Compass por um valor não revelado.  

Agora, para o leilão de março, Vinci e Changi estão com apetite para manter a concessão e são vistas como “favoritas naturais” por terem conhecimento detalhado das operações, segundo as fontes.

A Aena, que opera Congonhas, estuda “seriamente” o Galeão, assim como a suíça Zurich, que está nos aeroportos de Natal e Florianópolis. Ambas  fizeram visitas ao terminal, segundo uma das fontes. 

Já a francesa VINCI (pronúncia: vanci), que opera mais de 70 aeroportos no mundo, incluindo o de Salvador e terminais no Norte, também manifestou interesse, embora não esteja se movimentando tanto, de acordo com essas fontes. 

A Asur, que anunciou a compra dos aeroportos da Motiva, ex-CCR, estuda o processo, mas a visão entre quem acompanha o leilão é de que o grupo mexicano busca apenas “aprender”, e não deve fazer um lance, segundo duas das fontes.

A alemã Fraport, que opera Porto Alegre e Fortaleza, é outro player que chegou a mostrar interesse, de acordo com uma das fontes.

A concorrência deverá se restringir a essas empresas, todas já com atuação no País, sem atrair novos estrangeiros, segundo quem acompanha o processo.

“O Brasil hoje não é aquela noiva que está todo mundo olhando. E esse certame tem algumas particularidades e riscos que só os locais conseguem entender.”

O principal desafio é a dúvida sobre a demanda, diante da disputa por passageiros entre o Galeão e o aeroporto Santos Dumont, no centro do Rio.

Para ajudar na atratividade do leilão, o Governo revogou na semana passada uma flexibilização dos limites de capacidade do Santos Dumont aprovada no final de 2025. A decisão veio após reunião entre o Presidente Lula, o ministro Sílvio Costa Filho e o prefeito Eduardo Paes.

Essa flexibilização – que faria o tráfego do SDU aumentar ao longo do tempo – havia sido assinada pelo Ministério dos Portos e Aeroportos após o próprio Governo Lula ter defendido e aprovado limitações ao Santos Dumont ainda em 2023.

A revogação da flexibilização do Santos Dumont é positiva para o leilão, bem como o fato do contrato incluir uma cláusula garantindo o reequilíbrio econômico-financeiro se houver novas mudanças, disse a sócia de infraestrutura do BMA Advogados, Ana Cândida.

“Há, no entanto, um recorte para esse direito ao equilíbrio: ele não se aplica caso as limitações operacionais decorram de ações ou regulamentos relacionados à segurança operacional, emitidos pela ANAC ou o Comando da Aeronáutica. Somente se aplica se forem impostas pelo Ministério.”

A complexidade dessa discussão afasta alguns potenciais investidores, principalmente novos entrantes estrangeiros, ainda mais com o prazo curto até a licitação.

“É canetada vai, canetada vem”, disse uma das pessoas que participa das conversas sobre o leilão.

“É uma controvérsia que, de técnica, não tem mais nada, é 100% política. É Presidente, ministro, prefeito, cada hora uma decisão, difícil prever,” disse um operador do setor.

Além de pagar o valor mínimo, de R$ 932 milhões à vista, o vencedor do leilão assumirá um compromisso de repasse anual à União de 20% do faturamento bruto da concessão até 2039. A Infraero, que tem 49%, deixará a operação.

O secretário Nacional de Aviação Civil, Daniel Longo, disse que o número de participantes do roadshow não deve ser considerado um retrato exato dos potenciais investidores. Segundo ele, há “uma gama de empresas com expertise e conhecimentos” que poderiam entrar no leilão mesmo sem haver passado por essa etapa.