Zózimo Barrozo do AmaralNum mundo com tantos motivos pra chorar — dos tiros no próprio pé do Governo Temer à eleição de Donald Trump — “Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança” poderia ser uma profissão de fé (ou a escapada etílica) de qualquer pessoa razoável.

Felizmente, trata-se de mais do que isso: é o título da biografia de Zózimo Barrozo do Amaral, escrita pelo repórter Joaquim Ferreira dos Santos e publicada pela Intrínseca.

Zózimo pode não ter sido o pai, mas foi o ‘enfant terrible’ do colunismo social no Brasil nos anos 70 e 80.

Os paulistas e paulistanos talvez não saibam, mas antes de Sonia Racy e Monica Bergamo, houve a coluna ‘Zózimo’, que fez a fama de seu autor no efervescente Caderno B do Jornal do Brasil.

Antes de Zózimo, os pioneiros Ibrahim Sued, Álvaro Americano e Jacinto de Thormes já adotavam o tom editorial e opinativo que marca essas colunas (umas mais que outras), mas Zózimo foi o cronista do ocaso das ‘grandes famílias’ e a emergência de novos nomes, atrelados a novas riquezas.

Mais do que simplesmente registrar jantares, batizados e casamentos do ‘grand monde’, Zózimo frequentava a elite empresarial, política e intelectual para noticiar os bastidores da vida do País. 

Eram outros tempos, em que as relações repórter-fonte se desenvolviam com naturalidade, baseadas na empatia ou na sintonia intelectual, e sem a intermediação (ou obstrução) das assessorias de imprensa.

“Com o banqueiro Antonio Carlos de Almeida Braga, um daqueles homens mais velhos que tanto admirava, Zózimo acertara um ajuste fino. Braguinha não só passava notas, como também servia de consultor sobre os movimentos da economia nacional. A admiração era recíproca e se manteve com a passagem do tempo, entre outros motivos porque foi por meio de uma nota, “Luiza e Antonio Almeida Braga…”, que todos souberam do novo casamento do empresário. Não havia divórcio. A coluna de Zózimo separava e casava as pessoas.”

Zózimo tinha acesso direto ao mundo do amigo Braguinha, mas sabia o que podia ou não ser publicado.

O livro conta que, um dia, Amador Aguiar, do Bradesco, apareceu na sede de O Estado de S. Paulo para fazer uma reclamação formal ao proprietário do jornal, Júlio de Mesquita Neto. Acompanhado de Braguinha, seu braço-direirto, o dono do Bradesco queria que o jornal parasse de publicar os anúncios do banco na mesma página dos avisos fúnebres — afinal de contas, o banco estava vivíssimo. 

“Ao serem recebidos, após uma hora de espera, Amador foi claro: ‘Se os anúncios do banco continuarem a sair junto com os funéreos, da próxima vez eu virei aqui armado para resolver o problema.’ Era uma história deliciosa. Num encontro social, Braguinha contou a Zózimo, que, evidentemente, gargalhou da bravata e já começou a elaborar mentalmente o texto — até que ouviu o pedido do amigo para não publicar. Então esqueceu imediatamente o episódio. … O embate acabou não ocorrendo porque imediatamente os anúncios do Bradesco foram direcionados para as páginas dos vivos.”

Outra história divertida envolve uma partida de tênis no Porto do Frade, em Angra dos Reis. De um lado da quadra estavam Zózimo, que nem jogava tão bem assim, e o empresário Antonio Borges, dono de um backhand espetacular e de um slice de direita capaz de fazer a bola bater no chão e, com o efeito, recuar um metro. Um craque. Do outro lado: o cirurgião Ivo Pitanguy e seu filho, Helcius. O jogo seguia equilibrado, até que, a partir do segundo set…

“entrou em cena um fator extraquadra. Uma jovem morena postou-se atrás dos Pitanguy, visível apenas para a dupla Zózimo e Borges. De início, ela estava com o biquíni completo, o que já era uma imagem de forte dispersão para os dois atletas que a viam de frente. Logo, a moça tirou a parte de cima do biquíni e, como se fosse a coisa mais comum naquele paraíso tropical, assim ficou, tal qual cheerleader, torcendo pelos Pitanguy. Dispersos, rindo da situação, Zózimo e Borges pediam que a moça parasse com o golpe baixo, e saíram derrotados na impagável chanchada tenística.”

Assim como Millôr Fernandes, a certa altura Zózimo começou a cunhar frases, tais como:

• Quem pensa em dinheiro não ganha dinheiro.

• Hoje quase não há mais famílias, só pessoas jurídicas.

• Novo-rico me incomoda muito, mas novo-riquíssimo me incomoda muito mais.

• O Nordeste bota turista pelo ladrão. O Rio bota ladrão para turista.

• Viver bem é você ter um tipo de pretensão do tamanho do seu bolso — mesmo com o risco de ficar a um passo da inadimplência.

• O problema de Brasília é o tráfico de influência. O do Rio é a influência do tráfico.

• Epitáfio de um hipocondríaco: “Eu não disse?”

 

“Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança”
Joaquim Ferreira dos Santos
Editora Intrínseca
589 páginas
R$52,40 (Amazon)