A imensa expectativa em torno da série Rivalidade Ardente (Heated Rivalry) chega ao fim para o público brasileiro na próxima sexta, dia 13.
Os seis episódios da primeira temporada serão lançados toda sexta, até 20 de março, na HBO Max.
A produção canadense, escrita e dirigida por Jacob Tierney, acompanha o romance dos jogadores de hóquei Shane Hollander e Ilya Rozanov (interpretados por Hudson Williams e Connor Storrie), que transformam o desejo em adrenalina para o antagonismo nos campos de gelo.
Shane é um canadense que joga pelo Montreal Metros, e o russo Ilya defende o Boston Raiders.
O roteiro é adaptado do livro homônimo, o segundo da série de sete romances da escritora canadense Rachel Reid batizada de Game Changers, que enfoca atletas masculinos gays. Publicado em 2019, Rivalidade Ardente ganha lançamento no Brasil esta semana, pelo selo Alt da Globo Livros, apoiado no frisson da série.
Em contraste ao ambiente glacial das competições, o que se vê é uma tensão sexual permanente entre Shane e Ilya, instaurada desde os dez minutos do primeiro episódio. Fortes e bem filmadas, as cenas eróticas são muitas e conquistaram o público gay desde o lançamento da série no Canadá, Estados Unidos e Austrália em novembro.
A excitação em torno dos personagens, porém, não ficou restrita a um nicho. Transformada em febre nas redes sociais, a série furou bolhas e ganhou a atenção dos telespectadores heterossexuais, principalmente as mulheres.
O fenômeno é explicável. Shane e Ilya são personagens de um universo machista e chegam ao vídeo representados por intérpretes que fogem de estereótipos. O canadense Hudson Williams, de 24 anos, e o americano Connor Storrie, de 25, são bonitos e viris.
O mesmo pode ser dito sobre o roteiro. Apesar das cenas de sexo intensas, o que conduz a trama são crises de identidade, negação e o começo de uma aceitação da dupla. Os conflitos pessoais e sexuais são retratados sem contornos trágicos, e o que é vivido pelos personagens poderia ser aplicado a um casal hétero impedido de viver um amor por questões alheais a suas vontades.
Se em Romeu e Julieta, escrita por William Shakespeare no fim do século XVI, o empecilho era a inimizade das famílias dos jovens amantes, aqui é o conservadorismo do hóquei que dificulta a saída do armário.
A história de Shane e Ilya atravessa oito anos, nem sempre exibida de forma linear. Os anos passam, o tempo avança e retrocede, e tal recurso é um atrevimento do roteiro que exige atenção do público, principalmente daqueles que procuram a série motivados pela carga erótica. Como facilitador estão cenas curtas e ágeis, adaptadas ao comportamento do consumidor das redes sociais, que se desconectaria diante de sequências longas e verborrágicas.
Enquanto perseguem a glória nos campos, os dois jogadores se encontram às escondidas em quartos de hotéis, se amam, se machucam – e temem um flagrante.
Inicialmente, Ilya é arrogante, senhor de si e destemido dentro e fora do campo. Shane, por sua vez, é racional, focado e protegido pelos pais gananciosos (papéis de Christina Chang e Dylan Walsh) que gerenciam sua carreira. Aos poucos, a estrutura emocional de Ilya se revela frágil, e Shane torna-se seu apoio.
Uma das melhores cenas está no quinto episódio. De Moscou, Ilya telefona deprimido para Shane. Sentindo-se incapaz de desabafar em inglês, ele é incentivado pelo parceiro a relatar a angústia em russo, mesmo que a mensagem não seja compreendida. Neste trecho, além da sensibilidade do diretor para privilegiar o drama, saltam os talentos de Williams e Storrie.
Outra ousadia do roteiro e da direção de Tierney é interromper a narrativa sobre os protagonistas para concentrar o terceiro episódio em um outro casal, Scott Hunter e Kip (interpretados por François Arnaud e Robbie G.K.). O primeiro é outro famoso jogador de hóquei que se envolve com o atendente de uma lanchonete e, aos poucos, os dois se tornam mais simpáticos e cativantes que Ilya e Shane, o que perturba o espectador. O desenrolar do romance, porém, é fundamental para o avanço dos protagonistas.
A repercussão de Rivalidade Ardente revelou que os dramas da ficção são comuns na realidade. O ex-jogador Jesse Kortuem, de 33 anos, assumiu-se gay no mês passado, inspirado pela série. Ele se aposentou precocemente para viver longe de um meio repressor.
O sucesso da série canadense faz lembrar que a abordagem da vida gay no audiovisual enfrentou uma longa jornada. Muitas vezes calcados em estereótipos cômicos ou eróticos, os romances gays atingiram um ponto de virada com o filme O Segredo de Brokeback Mountain, dirigido por Ang Lee em 2005. Heath Ledger e Jake Gyllenhaal interpretam dois caubóis num relacionamento secreto entre 1963 e 1983, no oeste dos Estados Unidos.
O longa promoveu discussões sobre conceitos de masculinidade e, mesmo exibindo marcantes cenas de sexo, era focado na psicologia dos protagonistas. O oscarizado Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016), de Barry Jenkins, e Me Chame Pelo Seu Nome (2017), de Luca Guadagnino, são outros exemplos da temática gay nas telas.
A febre de Rivalidade Ardente quebra o estereótipo de que gays são homens afeminados que não frequentam ambientes tidos como heteronormativos.
Parece óbvio, mas para o público médio é importante salientar isso. Com uma boa história e um elenco afinado, Rivalidade Ardente pode chamar atenção inicialmente por sua carga erótica, mas é uma força política e social contra o preconceito.











