No início do ano, Lucas Paulino — um advogado de 32 anos terminando seu doutorado em direito constitucional — mobilizou uma carreata que reuniu quase 10 mil carros no centro de Belo Horizonte.

O motivo: protestar contra a incompetência do governo na gestão da pandemia e pedir o impeachment do presidente. 

De lá para cá, o que estava ruim conseguiu piorar. Mas em vez de chamar uma nova carreata para denunciar o colapso do sistema de saúde, Lucas começou uma vaquinha virtual para alugar outdoors espalhados por Belo Horizonte. 

Cada outdoor traz uma mensagem diferente, mas todos giram em torno do mesmo eixo: “Fora Bolsonaro!”

A meta inicial era só dois outdoors, mas em apenas uma semana o movimento teve a adesão de 370 pessoas, arrecadando mais de R$ 32 mil. Com o valor, Lucas já alugou 14 outdoors e deve subir outros cinco nos próximos dias. (Cada outdoor custa em média R$ 1,4 mil e fica no ar por 15 dias.) 

Lucas é uma espécie de Mildred Hayes da vida real, a personagem do filme “Três anúncios para um crime” — uma mãe que aluga três outdoors para chamar a atenção para um crime não solucionado (a morte de sua filha) e pressionar as autoridades. 

“Cobramos o atraso das vacinas, o descontrole da pandemia e da economia, além da instauração da CPI da pandemia,” Lucas disse ao Brazil Journal enquanto contratava mais um outdoor. 

Lucas e seus apoiadores têm uma vantagem competitiva: sempre que vai passar o fim de semana em casa, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (mineiro de Belo Horizonte) tem que ver os outdoors — o tipo de pressão política no cangote de um congressista que só sua base eleitoral consegue exercer.

“Esse governo criou um falso dilema entre pandemia e economia, e conseguiu a façanha de ser incompetente nas duas frentes,” diz Lucas. 

Num momento em que o Planalto mobiliza o Ministério da Justiça para enquadrar dissidentes na Lei de Segurança Nacional, os outdoors são um grande F*** You ao chefe do Executivo. 

“Eles não vão nos intimidar,” diz Lucas. “Vivemos numa democracia e temos o direito fundamental à liberdade de expressão.”

Segundo o Datafolha, 54% dos brasileiros julgam ‘ruim ou péssima’ a gestão que Bolsonaro faz da pandemia, enquanto 44% têm uma avaliação ‘ruim’ do governo de modo geral — o pior nível desde o início do governo. 

A ideia de Lucas surgiu dentro do Acredito, um movimento suprapartidário que reúne membros da sociedade civil e novatos na política. O Acredito já tem 16 vereadores, dois prefeitos, dois deputados estaduais, um senador e dois deputados federais (Tábata Amaral e Felipe Rigoni). 

Os outdoors de Lucas viralizaram nas redes sociais — e já estão servindo de exemplo para outras cidades. Grupos de indignados em São Paulo, Rio, Fortaleza e Recife já começaram a fazer suas próprias vaquinhas para subir outdoors em breve. 

A revolta chegou também ao interior: Lucas foi contactado por mineiros de Uberlândia, Guaxupé, Betim, Divinópolis e até Caeté (com pouco mais de 45 mil habitantes). 

“A sociedade civil encontrou uma forma de vocalizar sua insatisfação,” diz Lucas. “Precisamos reagir a esses abusos!”

Para doar para a vaquinha de São Paulo, a chave PIX é: saopaulo@movimentoacredito.org