A Mar Asset — uma gestora multimercado com cerca de R$ 3 bilhões em ativos — disse que mantém um portfólio otimista com o Brasil desde o final do ano passado apostando na eleição de um candidato de centro-direita, o que geraria “um alinhamento estrutural político-econômico inédito nos últimos 30 anos.”
Numa carta aos cotistas, a gestora disse que essa visão se apóia “numa mudança longa e consistente no padrão de votação dos últimos 12 anos, abrindo espaço para a implementação de pautas que possam promover um salto estrutural em nossa economia.”
“Esse cenário positivo, que pode se consolidar nos próximos meses, tem alto potencial de reação nos mercados,” diz a gestora. “Por isso, acreditamos que é hora de manter a exposição ao Brasil em nosso portfólio, mesmo a mais de um ano da eleição e depois de um forte rally de preços ao longo de 2025.”
Na carta de mais de 20 páginas, a gestora faz uma extensa análise do cenário político com base no que chama de Índice de Posição Política (IPP), um termômetro criado por ela que capta a direção do eleitorado brasileiro entre esquerda e direita nos últimos 30 anos.
O índice classifica os partidas numa escala de -2 (esquerda) a +2 (direita), com o centro representado no 0. Depois disso, o total de votos recebidos por cada partido nas eleições é alocado nessa escala para se chegar ao ponto médio.
A conclusão: de 2002 a 2014, o IPP das eleições para o Congresso e municípios foi caminhando cada vez mais para a esquerda, o que facilitou o que a gestora chama de ‘custo de governabilidade’ dos Governos Lula I e II e Dilma I.
De 2015 em diante, no entanto, o IPP do Congresso e Municípios andou na direção contrária, consistentemente para a direita e atingindo seu ápice na eleição do Congresso de 2022, quando o índice bateu perto de 0,5, e nas eleições municipais de 2024, quando atingiu 0,7.
“Lula foi eleito no segundo turno da disputa mais apertada da história brasileira, encontrando, ao tomar posse, o Congresso mais à direita desde a década de 1990,” diz a carta. “Diante de um ambiente hostil ao seu projeto de esquerda, Lula concluiu que a melhor forma de melhorar a governabilidade seria ampliar sua popularidade. Para isso, apostou de maneira agressiva na expansão dos gastos públicos.”
A Mar Asset nota ainda que, em busca de governabilidade, o Executivo recorreu ao Judiciário para tentar driblar a resistência do Legislativo, “estressando ainda mais uma frágil relação com o Congresso.”
“A dinâmica estabelecida entre os três poderes nos últimos anos não é natural ou saudável no longo prazo, pois tensiona a relação entre os poderes ao colocar o STF como protagonista na resolução de conflitos políticos que deveriam ser decididos pelos plenários da Câmara e do Senado. Esse ambiente eleva os riscos para os ambientes político e econômico.”
Para a gestora, um realinhamento político nas eleições de 2026, com a vitória de um candidato de centro-direita, poderia trazer um Executivo comprometido com uma agenda econômica reformista, convergente ao perfil de um Legislativo de mesmo espectro.
“Essa rara convergência entre Executivo e Legislativo em torno de uma pauta essencial de política econômica teria potencial de produzir um verdadeiro salto de patamar, aproximando o Brasil do modelo de crescimento sustentado observado em países desenvolvidos,” diz a carta.
A Mar lembra ainda que esse não seria um fenômeno inédito no Brasil, e que isso já aconteceu nos mandatos de Fernando Henrique Cardoso — “quando reformas institucionais profundas trouxeram ganhos estruturais que repercutiram por décadas.O momento atual, no entanto, carrega a possibilidade de um realinhamento ainda mais abrangente.”
Apesar da tendência do ponteiro político para a direita, o que aumenta a probabilidade de vitória de um candidato desse espectro, a Mar reconhece que a eleição presidencial têm dinâmicas próprias e que Lula já foi capaz de vencer uma eleição mesmo diante de um movimento claro de deslocamento do IPP para a direita.
“Mas essa anomalia se deveu principalmente à elevada rejeição ao então presidente Jair Bolsonaro. Por essa razão, acreditamos que repetir o desempenho de 2022 em 2026 será uma tarefa bastante difícil a despeito da incumbência,” diz a carta.
“Não há qualquer indício de que a rejeição dos evangélicos ao seu governo tenha diminuído. Ao mesmo tempo, há sinais de desgaste junto ao eleitorado que garantiu sua vitória na eleição mais disputada desde a redemocratização.”
Para a gestora, o crescimento da população evangélica – que em 2022 teve uma ampla votação contra o PT (70%) – impõe um teto mais baixo de votos ao PT. No outro extremo, a Mar diz que não parece haver espaço para crescimento adicional do apoio a Lula na região Nordeste, onde o padrão de votação de cerca de 70% pró-PT provavelmente atingiu seu limite.
“Esse sólido piso de votos, observado ao longo das últimas eleições, vem sendo erodido pela crescente presença evangélica na região, algo que já começa a se refletir nas pesquisas de popularidade,” diz a carta. “Resta à atual administração conquistar um apoio ainda maior do que em 2022 entre os chamados swing voters. No entanto, mesmo entre esse grupo, a popularidade do presidente está hoje consideravelmente mais baixa do que no início do mandato.”
Apesar de toda a extensa análise, a Mar termina sua carta reconhecendo que projeções baseadas em análises políticas são frágeis por natureza e citando a frase atribuída a Magalhães Pinto, ex-governador de Minas Gerais.
“Política é como nuvem. Você olha e está de um jeito; olha de novo e já mudou.”