Na estreia da nova temporada de The Business of Life, do Brazil Journal, Nilton Bonder recebe David Zylbersztajn — professor da PUC-Rio, primeiro diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e uma das principais autoridades em energia no País.
Doutor em Economia da Energia pela Universidade de Grenoble, na França, Zylbersztajn revisita sua trajetória pessoal e profissional, revela bastidores da vida pública e traça um diagnóstico sobre os rumos da transição energética — especialmente diante de uma eventual retomada da produção de petróleo na Venezuela.
Muito antes da carreira acadêmica — e de se tornar um dos arquitetos do modelo de concessões que marcou a Nova República —, David nasceu em Niterói, em uma família de judeus poloneses. Filho de militantes do Partidão, recorda um episódio emblemático da juventude: o dia em que chegou em casa e encontrou a mãe queimando livros na banheira, em meio à repressão da ditadura.
Ainda adolescente, como presidente de grêmio estudantil, foi impedido de se matricular no último ano do ginásio em escolas públicas por constar em uma “lista negra.” De volta à escola judaica, organizou um show com Gonzaguinha para arrecadar recursos “para pagar advogados e presos políticos”. Pouco depois, o grêmio foi fechado, segundo ele, “por ordem, na época, do DOPS.”
Com o tempo, migrou para uma ala mais moderada — espaço que lamenta ter desaparecido diante da atual polarização política. Formou-se bacharel e mestre em engenharia mecânica pela PUC-Rio, até viver um ponto de inflexão em um congresso, quando descobriu a Economia da Energia. “Aí eu entrei [na palestra], comecei a assistir e disse: ‘isso aqui é uma variante interessante, que junta tecnologia com questões econômicas’”, lembra.
Entre Stanford e Grenoble, David escolheu a França. Único engenheiro em uma turma de economistas, enfrentou dificuldades: “Refiz um outro mestrado lá e depois fui aceito para fazer o doutorado”. De volta ao Brasil, passou pela Unicamp e, em seguida, pela USP.
A transição da academia para a vida pública foi nos anos 90, durante o governo Mário Covas (1930–2001) em São Paulo. Após participar da formulação do programa de governo, tornou-se secretário de Energia em meio a um duro ajuste fiscal. “O governo de São Paulo foi o primeiro estado que teve uma agência reguladora”, recorda.
Essa experiência, somada à formação acadêmica, levou ao convite, no fim de 1997, para estruturar a ANP. “A qualidade do material humano que a gente teve foi espetacular. Tomei uma decisão: nas áreas técnicas, todos seriam contratados com, no mínimo, doutorado,” conta.
O auge da vida pública viria pouco depois. Em 2000, Zylbersztajn foi um dos primeiros a identificar a crise hídrica que culminaria no racionamento de energia em 2001. Atuou como articulador central: “Eu liguei para o presidente Fernando Henrique, dizendo: ‘olha, isso não vai dar certo, isso vai dar problema. A hora que uma van escolar bater de frente com uma carreta porque o sinal estava apagado, o governo vai ter problema,’” relata.
David frequentou a imprensa no período para divulgar (e explicar) o plano: “eu não tinha nada a ver com isso, na realidade. Eu estava na Agência Nacional do Petróleo. Mas fui atrás da minha vida, da minha vida acadêmica.”
Ao final da entrevista, Nilton Bonder provoca Zylbersztajn a olhar para o presente e o futuro da energia. O diagnóstico é direto: “Em 1990, o mundo dependia de 85% de combustíveis fósseis. No ano passado, eram 80%.” Para ele, a geopolítica atual dificulta a transição para fontes limpas, pelo excesso de oferta de petróleo. “Se, por acaso, a Venezuela voltar a produzir, nós vamos ter um aumento de oferta. Se o Irã voltar a ser um país confiável ou amigável, ou seja: a produção do Irã tende a crescer, também,” afirma.
Como lição de vida, Zylbersztajn aponta o que distingue sociedades mais desenvolvidas: educação e respeito ao professor. Ao lembrar uma viagem ao Japão, resume o contraste cultural: “Quando eu disse que era professor, tudo mudou. Eles fazem reverência ao imperador e ao professor.”
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