Filho de uma mãe ginecologista e um pai ortopedista, quando tinha 17 anos Denis Cruz começou a trabalhar no Uniclinic, o hospital da família em Fortaleza.

“Quando eu estava na recepção, eu vi um Robin Hood às avessas. Os pacientes com plano de saúde chegavam num carro legal e pagavam R$ 90 pela consulta, R$ 50 por um raio-X e R$70-80 por um ultrassom.  Já o paciente sem plano chegava de ônibus e tinha que pagar R$ 300 pela consulta, R$ 200 pelo raio X e R$ 300 pelo ultrasssom. Aquilo me deu um incômodo na boca do estômago.  Como é que a gente cobrava mais de quem tinha menos?”

O desconforto fez nascer a Clínica SIM — acrônimo de “Serviço de Inclusão à Medicina” — uma rede de clínicas particulares que tem investidores de peso e quer se consolidar como líder no Nordeste num dos segmentos mais quentes do mercado de saúde. 

Entre os investidores-anjo da SIM estão Rodrigo Galindo, CEO da Kroton; Carlos ‘Degas’ Filgueiras, CEO da DeVry no Brasil; Rafaela Villela, da Gera Ventures, a companhia de investimentos que controla a Eleva Educação; e Joaquim Ribeiro, o ex-CEO da Technos e hoje investidor de venture capital.

No fim do ano passado, a companhia atraiu o Temasek, um dos fundos soberanos de Singapura, e, numa rodada anterior, a Monashees, gestora de venture capital que investiu na 99 Táxis e no Viva Real.

Com consultas a preços módicos e investimento em qualidade, as clínicas particulares estão se proliferando pelo País como a terceira via entre o atendimento do SUS e a dificuldade em pagar planos de saúde cada vez mais caros.

A empresa mais conhecida do setor, a Dr. Consulta, domina o Estado de São Paulo, já levantou R$ 300 milhões em capital e deve pular de 45 unidades em 2017 para 75 este ano.

A SIM é cerca de um terço do tamanho do Dr. Consulta, mas seu foco regional pode lhe conferir a vantagem de ‘first mover’ no Nordeste.  A SIM, que até março terá 15 unidades em funcionamento, deve chegar ao fim do ano com um número entre 20 e 25.  Hoje, a clínica está no Ceará e em Pernambuco, mas vai abrir em mais um ou dois Estados este ano.

“Queremos ser um player nacional, mas vamos começar pelo Norte e Nordeste,” diz Denis.  O potencial de crescimento nas duas regiões é gigantesco. Dos 200 milhões de brasileiros, 150 milhões não têm plano de saúde, e 62 milhões deles estão no Norte e Nordeste.

Para a nova fase de crescimento, Denis — que tem 35 anos e um MBA em Stanford — recrutou gente com experiência em empresa grande.  O CFO da companhia, Ivan Cordeiro, trabalhou sete anos na Deloitte. O diretor de operações passou sete anos no Itaú e dois na DASA. O especialista em expansão, Guilherme Maciel, passou pela CVC e pelo Burger King Brasil, e o diretor médico, Rafael Cunha, era um cirurgião vascular que abandonou a mesa de operação para empreender. 

Denis diz que as clínicas da SIM demoram de seis a oito meses para atingir o ‘breakeven’, e o retorno sobre o capital começa a chegar entre 24 e 48 meses. “A gente é o oposto de uma balada. Quando uma balada abre, ela fica lotada, mas dois anos depois tá vazia.  A gente é o contrário. Ninguém passa de ônibus e diz, ‘Nossa, uma clínica nova: vou ali fazer um ultrassom de tireóide.’ Mas a pessoa passa em frente todo dia e, quando adoece, lembra que a gente está lá.”

Numa dada região, a SIM coloca uma clínica-âncora, com equipamentos mais pesados e capaz de atender 25 especialidades, incluindo cardio e neurologia; ao redor dela, instala clínicas-satélites, com especialidades mais básicas como odonto, dermato e ginecologia.  Quando o diagnóstico indica a necessidade de mais exames ou um tratamento mais complexo, o paciente é direcionado para a clínica maior.

Quando trabalhava no hospital da família, Denis viu que o modelo dos planos de saúde era “economicamente errado”. 

“O paciente do plano de saúde é pior, economicamente, para o hospital, que tem que manter um setor para gerenciar as glosas dos planos de saúde e um setor robusto de contas a receber. Isso aumenta o custo em cerca de 20%. Além disso, o plano de saúde demora mais a pagar. Era um contrassenso: a gente cobra mais do paciente privado, e ele ainda paga à vista. Eu vi aquilo e aquilo me causou um desconforto no estômago, e eu vi que havia uma oportunidade.  Não comecei fazendo um business plan nem batendo na porta de VCs.  Falei, ‘Vou cobrar o mesmo que o convênio me paga, mas vou ter um custo 20% menor.'”

Hoje, a SIM tem 650 funcionários, médicos e dentistas — número que deve crescer para 900 no fim do ano.

Os 60 mil ‘serviços de saúde’ que ela presta por mês — o que inclui consultas, exames e procedimentos — devem crescer para 100/110 mil até o fim do ano.