As máquinas vão arrasar com os empregos? A bolha da inteligência artificial vai explodir? As empresas vão conseguir rentabilizar os trilhões de dólares de investimentos? Os algoritmos vão condenar o cérebro humano à obsolescência?
A AI e suas diversas implicações dominaram boa parte das discussões em Davos este ano – e os debates tiveram a presença de alguns dos principais líderes dessa revolução.
As consequências sociais de uma possível eliminação em massa das vagas de trabalho são uma das maiores preocupações. Em um painel sobre o tema, Larry Fink, o CEO da BlackRock, quis saber a opinião de Jensen Huang, o CEO da Nvidia.

“É o maior investimento em infraestrutura na história da humanidade. Vai gerar muitos empregos,” disse Huang.
Ele descreveu a AI como um conjunto de tecnologias em diversas camadas – envolvendo energia, chips e infraestrutura de computação, data centers em nuvem, modelos de linguagem e, finalmente, a aplicação prática. Por isso, afirmou, os investimentos estão criando empregos em diversas áreas.
Fink ponderou que há oportunidades surgindo em algumas áreas, mas a AI já vem sendo usada para substituir profissionais em cargos de analistas em escritórios de advocacia e instituições financeiras.
Em outro painel, Kristalina Georgieva, a diretora-gerente do FMI, foi mais alarmista. Citando estudos do Fundo, disse que 40% dos empregos serão afetados de alguma maneira, “seja por aprimoramento, eliminação ou mudanças significativas – sem que isso implique em aumento salarial.”
Para Georgieva, vem aí um “tsunami” no mercado de trabalho.
Hassabis x Amodei
Um dos debates que mais repercutiram foi entre Demis Hassabis, o CEO da Google DeepMind, e Dario Amodei, o fundador da Anthropic.
Amodei previu que em breve os modelos de AI vão automatizar completamente o desenvolvimento de códigos de programação.

“Tenho engenheiros na Anthropic que dizem: ‘Não escrevo mais código. Deixo o modelo escrever o código, eu só edito’,” disse Amodei.
A Anthropic, fundada pelo ex-OpenAI, é a criadora do Claude, o celebrado bot de AI que vem batendo o ChatGPT no mundo corporativo, sobretudo por sua capacidade de fazer programação.
(Huang, aliás, revelou-se um profundo admirador do Claude. “É incrível. A Anthropic deu um salto gigantesco em programação e raciocínio. Usamos em todas as áreas da Nvidia. Todas as empresas deveriam estar usando”.)
Segundo Amodei, daqui a “seis ou doze meses o modelo fará a maior parte – ou talvez a totalidade – do trabalho que os engenheiros de software realizam.”
Singularity, when?
Para o fundador da Anthropic, está muito próximo o momento em que as máquinas entregarão a chamada AGI – artificial general intelligence –, basicamente superando os humanos em qualquer atividade cognitiva. Segundo Amodei, é algo que pode acontecer ainda este ano ou em 2027.
Hassabis discordou e estimou que isto ainda levará alguns anos; atribuiu 50% de probabilidade de que isso ocorra até o final da década.

Hassabis enfatizou que uma coisa é automatizar programação e matemática; outra é resolver problemas científicos e do mundo real que exigem experimentação, compreensão causal e interação com ambientes complexos, sugerindo que o “último quilômetro” rumo à AGI é difícil e incerto.
Para o fundador da DeepMind, é preferível uma evolução um pouco mais lenta, porque assim há mais tempo para o trabalho de segurança, governança e adaptação das instituições.
Em uma entrevista à Bloomberg, Amodei reafirmou sua crítica à exportação de processadores avançados para a China. Disse que é como “vender arma nuclear para a Coreia do Norte.”
Também falando à Bloomberg, Hassabis disse que os chineses estão pelo menos seis meses atrasados no desenvolvimento da AI – uma eternidade nessa corrida – e que houve uma “reação exagerada” ao sucesso da DeepSeek.
“Eles são muito bons em alcançar o que está na vanguarda, e cada vez mais capazes disso. Mas acho que ainda precisam demonstrar que conseguem inovar além dessa fronteira.”
Show me the money
Sobre a sustentabilidade financeira das empresas de AI, Hassabis disse ao Axios ter ficado “um pouco surpreso” com o anúncio de que o ChatGPT, da concorrente OpenAI, vai começar a incorporar anúncios na versão gratuita da ferramenta.

Deu a entender que achou a decisão precipitada – e disse que não há planos, por enquanto, de fazer o mesmo no Gemini, do Google.
“Não há nada de errado com anúncios. Eles financiaram grande parte da internet voltada para o consumidor. Mas se você pensar no chatbot como um assistente que deve ser útil – um tipo de tecnologia que funciona para você como indivíduo – surge a questão de como os anúncios se encaixam nesse modelo. Ninguém ainda tem uma resposta definitiva para isso.”
A situação financeira da OpenAI, entretanto, é bem diferente da Alphabet, a controladora do Google. A dona do ChatGPT projeta que começará a ter um bottom line positivo apenas em 2030.
A bolha e o hype
Como disse o Axios, os executivos das empresas de tecnologia reconhecem que pode haver sim excessos no valuation de AI – mas o problema é sempre dos outros, nunca com seus próprios negócios.
O CEO do Google Cloud, Thomas Kurian, enfatizou o fato de a empresa ter uma vantagem em relação a alguns concorrentes porque consegue diluir custos entre suas diversas verticais – e, além disso, o Gemini roda em data centers próprios, feitos com processadores proprietários.
“Maximizamos o retorno sobre o investimento que obtemos, e isso nos permite ter uma solidez financeira real para continuarmos investindo no futuro,” disse Kurian.

May Habib, a CEO da Writer – uma plataforma de AI agêntico – afirmou que enxerga maiores riscos nas duas maiores startups de inteligência artificial generativa, a OpenAI e a Anthropic.
“O valuation deles é mais do que a soma de Salesforce, Adobe, Databricks e Snowflake,” disse ela. “É difícil de assimilar, porque essas outras empresas estão se esforçando muito para entregar AI a seus clientes.”
Dois dos maiores gestores do mundo comentaram a desafiadora equalização financeira dos investimentos maciços que estão sendo feitos na infraestrutura de AI.
Ken Griffin, o CEO da Citadel, disse que “é óbvio que existe hype” na narrativa da AI “porque as empresas precisam atrair financiadores.”
“Há uma enorme expectativa, e as grandes empresas precisam criar essa expectativa para levantar dezenas, na verdade centenas de bilhões de dólares em investimentos. Elas vão gastar cerca de US$ 600 bilhões este ano em capex de data centers nos EUA.”
Para Larry Fink, da BlackRock, a questão central da monetização dos data centers será a vida útil dos processadores.
“Se as mudanças tecnológicas reduzirem a vida útil de um chip a um ano, seria um péssimo investimento. Mas a expectativa é que durem quatro ou cinco anos. Acho que esses investimentos se provarão valiosos. Mas concordo com Ken. Acho que ainda não sabemos o suficiente. Pessoalmente estou muito otimista sobre como a AI afetará o mundo.”
Where’s Sam?
A propósito da necessidade de caixa: Sam Altman, o CEO, da OpenAI, não foi a Davos. Passou os últimos dias em conversas com investidores do Oriente Médio. A OpenAI busca levantar mais US$ 50 bi, mirando um valuation na faixa entre US$ 750 bi e US$ 830 bi.






